AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - Filipe Moisés

[Entre Margens]

A divina imperfeição

| 02/03/2026

Há uns largos meses, caminhava pelo Porto, quando me deparei com os azulejos de uma fachada, que observei e fotografei. Nenhum deles era igual. Todos tinham pequenos pormenores que os diferenciavam, mas, no seu conjunto e visto ao longe, o efeito visual do painel de azulejos parecia perfeito. E num aforismo, aquela observação ficaria assim sintetizada:

“A perfeição é a mais imperfeita das conceções.
A imperfeição é a mais perfeita das conceções.”

A imagem levou-me a uma série de pensamentos sobre o chão comum da Humanidade que, nas suas diferenças, nos seus defeitos e nas suas qualidades, se complementa; assim haja a capacidade de, ao perto, reconhecer as diferenças mas, ao longe, reconhecer a beleza harmoniosa do seu conjunto.

Não deixa de ser uma imagem suscetível de possíveis reflexões quaresmais, tempo em que se realçam palavras como pecado, culpa, perdão, reconciliação. De uma forma simplista, pode dizer-se que todas partem da mesma base: dos defeitos do ser humano e da sua capacidade em ultrapassá-los. Isto mesmo me remete para um episódio da minha infância. Corria o ano de 2003 e eu, ainda nos meus 8 anos (a caminho dos 9), vivia dois momentos importantes do ano catequético: a “Festa do Perdão” e, mais tarde, em Junho, a “Festa da Eucaristia”, comummente conhecida como a “Primeira Comunhão”. Quero falar-vos da primeira, que geralmente ocorria sempre no V Domingo da Quaresma (penso que ainda assim é), o domingo em que a liturgia católica dos vários anos litúrgicos contempla as passagens do evangelho dedicadas aos episódios da reconciliação.

Uma semana antes, o padre José Manuel Macedo, meu pároco de então, juntara numa reunião os pais e os filhos, e fizera uma breve preparação. Lembro-me, como se fosse hoje, da forma desarmante em como nos ensinou o que era o perdão. Pegou num fio e segurou-o entre os indicadores e os polegares de ambas as mãos. Uma mão representava Deus; a outra, cada um de nós. Chamou um colega nosso, de que já não me recordo o nome, e deu-lhe uma tesoura. E então dizia: “Sabem o que acontece quando tratamos mal os nossos pais, os nossos colegas, os professores, quando não nos portamos bem? Afastamo-nos de Deus.” E, nesse instante, pedia ao colega que cortasse o fio. Depois, dizia-nos: “Mas depois arrependemo-nos e Deus é Amor e ama-nos incondicionalmente. E por gostar tanto de nós, sabem o que acontece?” Alguns até poderiam saber o que aconteceria, com mais palavra ou menos sinónimo, mas já nada diziam. Queríamos apenas entender visualmente. Então, o padre Macedo pegava nos dois fios cortados, dava um nó e concluía: “Deus perdoa-nos e voltamos a unir-nos a Ele. Só que depois, voltamos a errar. E sabem o que acontece quando erramos novamente?”

Azulejos numa fachada na rua Fernandes Tomás (Porto): “Nenhum deles era igual; visto ao longe, o painel parecia perfeito.” Foto © Filipe Moisés

Aí sim, já tínhamos percebido e o colega voltava a cortar o fio. E, mais uma vez, outro nó se deu. Este processo repetiu-se umas três ou quatro vezes. No fim, cortes e nós dados, havia um efeito visual perfeitamente observável: a distância entre as duas pontas do fio, isto é, entre Deus e cada um de nós, era muito mais curta. E o padre Macedo conclui com uma pergunta: “Sabem o que acontece a cada vez que erramos e Deus nos perdoa?”. O efeito visual tinha sido entendido e as apostas surgiam entre os pequenos. O sacerdote concluiu: “Aproximamo-nos cada vez mais de Deus!”.

Perdão é uma palavra forte, de que muitos não gostam pelo peso que carrega. Sou um dos muitos que tendem a estigmatizá-la, pelas carregadas características que lhe atribui o senso-comum. Não é menos verdade afirmar que este período quaresmal inflige nesta palavra uma tónica errada, ou então, pelo menos, desviada do seu significado original. Geralmente, impõe mais o fardo da culpa quando, na realidade, a sua origem latina perdonare, advinda da junção do prefixo per– com o sufixo –donare, significa “dar ou entregar-se totalmente”, o que se pode traduzir numa renúncia total à culpa ou ao ressentimento por parte do outro.

A este propósito, vale a pena citar um trecho muito sábio da magnífica Agustina Bessa-Luís, quando, no seu famoso livro A Sibila, escreve: “Conhecer o mal é já uma defesa. Onde não há inocência, pode haver pecado; mas onde não há sabedoria, há sempre desgraça.” O perdão deveria ser encarado como sinal de libertação. É resultado da consciência mútua de um erro, que não é um fim em si mesmo, e da sua redução ao que há de mais ínfimo, para que prevaleça o nós em vez do eu. Implica, por isso, um compromisso de ambas as partes, assente no crescimento e na melhoria em benefício do outro, na tentativa de evitar que ambos se voltem a prejudicar, um pelo peso do erro infligido e outro pelo peso da culpa. E é aqui que está a doação. Não é uma promessa de que nunca mais se vai voltar a errar. Pelo contrário, é a promessa de que mais erros virão, embora se tenha aprendido com este último cometido. As partes estão agora mais conscientes das consequências. Não é sinal de que tudo se apagou. É uma defesa para conhecer o certo e o errado. Não é uma porta aberta à irresponsabilidade. É o reconhecimento de que o comportamento errado aconteceu. Não significa fazer de conta que não foi nada. É antes um crescimento sábio, uma aprendizagem assente na priorização do bem-comum, com a promessa, essa sim, de que repetir o mesmo erro é, como dizia Agustina, a “desgraça” a evitar.

Escultura, Arte, Londres, Filho pródigo

Charlie Mackesy, The return of the prodigal (“O regresso do filho pródigo”), pormenor de estátua em Brompton Road, South Kensington (Londres). Foto © Filipe Moisés.

O episódio que relatei ocorreu há cerca de 23 anos. Nunca mais o esqueci e lembro-o como se tivesse acontecido ontem. É muito mais do que um episódio lúdico. Trata-se de um retrato fiel do que entendo ser a vivência da fé: um caminho tão longo quanto a própria vida, cheio de interregnos e imperfeições, com muitos erros assumidos e também reconhecidos nos outros, um caminho de inquietação pelas dúvidas e também de serenidade perante as mesmas, mas sempre longe de puritanismos vãos.

Este episódio ensinou-me, desde logo, que não é o erro que nos distancia de Deus; é antes, paradoxalmente, um caminho de aproximação que liberta e é a consciência deste caminho que me põe de igual para igual com o meu próximo. Sim, porque somos todos feitos da mesma divina imperfeição, tal como cada um daqueles azulejos. Não há sobranceria nem puritanismo, nem sequer mantos de virtude que nos façam melhores do que ninguém, nem sequer de um ateu. Um ateu é tão meu irmão como um crente: somos todos feitos da mesma Humanidade. Não somos convidados a mutilá-la nem sequer a viver a vida com o pendor para o peso da culpa ou sequer em impor esse peso no outro. Somos antes convidados à sublime consciência de um caminho de libertação que nos põe em harmonia apesar dos pormenores que nos diferenciam. Eu simplesmente qualifico como sendo um caminho cristão. O meu próximo, sendo ateu, agnóstico ou de outra religião qualquer, poderá qualificá-lo da forma que entende ser a mais lógica para si.

Aprendi muito com o Papa Francisco neste e noutros aspetos. E o recente apelo do Papa Leão XIV para esta Quaresma não deixa de seguir esta lógica. Diz o Papa: “(…) comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.” É, a meu ver, um apelo bastante pertinente. Porque onde há harmonia, há Amor e onde há Amor, há Deus, independentemente de tudo o resto!

Nesta Quaresma, lembremo-nos que Deus não está no final de uma estrada perfeita nem tão pouco nas vidas duplas baseadas em puritanismos dissimulados, mas sim no meio das nossas imperfeições, a aproximar-Se sempre que Lhe damos espaço. A verdadeira maturidade espiritual não nasce da culpa, mas da liberdade de quem sabe que a proximidade ao Amor pode ser a conclusão da superação consciente dos muitos erros que fazem parte do nosso caminho. Aquele painel de azulejos pode muito bem ser esta Humanidade e qualquer um de nós pode ser um daqueles azulejos, cheio de imperfeições e pormenores caricatos, aparentemente desenquadrados; porém, como todos os outros na sua imperfeição, também podes contribuir para uma perfeita harmonia. Estamos todos no mesmo barco. Saibamos, por isso, estabelecer a cultura do encontro com o nosso próximo, seja ele quem for.

 

Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This