
“Não aceitamos que a doença e a fragilidade, vêm da nossa condição humana, da nossa qualidade de organismo, complexo, imperfeito, espantoso.” Foto: © Inês Patrício
A culpa. Em Portugal aprende-se, desde a infância, “a culpa”. Uma culpa tem de ser atribuída. “A culpa não pode morrer solteira”, diz-se, alterando o provérbio. Surge quase sempre uma explicação que arruma, de preferência, o assunto. Infelizmente, mais que explicação, geralmente é uma opinião. De graça, não pedida, não reflectida, pouco discutida.
A religião católica e o pecado, claro que têm o seu papel.
Em alemão não oiço, no meu dia-a-dia, a palavra “Schuld” (culpa). Nem entre as crianças. Também não sinto que se esteja sempre à procura da responsabilidade por qualquer coisa. A ideia é, constatando alguma coisa mal, como se vai resolver.
A medicina contribui também para esta forma tão intricada como os portugueses (e suspeito que não só) vêem a doença. Ela diz-nos, constantemente, que as doenças são nossa culpa. Ou bebemos, ou fumamos, ou comemos mal ou não fazemos exercício. “Deu-lhe aquilo… mas ele fumava muito”. E pronto, concluída a razão, atribuída a culpa, seguimos a nossa vida. Alívio.
As medicinas alternativas não fazem melhor, porque as doenças vêm de maus sentimentos, vivências mal resolvidas, eu sei lá…
Quando alguém saudável tem uma doença grave, sobretudo se súbita, abana-nos o chão. E a conversa é feita de incredulidade. “Mas…” Treme o nosso lugar seguro.
Não aceitamos que a doença e a fragilidade, vêm da nossa condição humana, da nossa qualidade de organismo, complexo, imperfeito, espantoso.
Alguns viram-se para Deus, “que escreve direito por linhas tortas”, que terá talvez trazido uma prova e o doente é chamado a acreditar e a superar.
Outros, mais generosos, dizem “que Deus o ajude”, “Deus o livre do sofrimento”.
Com alguma sorte e alguns toques de actualidade ainda poderá servir de “inspiração” a outros.
Um barulho tremendo. Amoroso, mas difícil de suportar.
Nos bancos do hospital, sentada à espera com a minha madrinha, perguntei ao meu amigo Pe Samelo: “é Deus que traz a doença?”. Ele sorriu e disse que não, claro que não. Conversámos um pouco os três. Não sei se algum dos dois percebeu como aquilo ficou em mim.
Ele aconselhou-me a ler Queiruga, teólogo e escritor galego, depois de anos ostracizado, foi reabilitado pelo Papa Francisco. Queiruga recupera a frase do pregador do Papa, Cardeal Cantalamessa, que chama atenção de que “Deus não está na enfermidade, mas no enfermo”. Queiruga sugere: a nossa oração não deve ser “pai, ajuda-me”, pois se creio em Deus sei que ele está comigo. Deve ser “pai, sei que estás a ajudar-me apesar de não sentir. De tudo o que está contra mim, espero que estejas comigo e me faças ver como me ajudar.”
Ainda ando a ver se consigo integrar estas palavras.
A ver se a palavra “culpa” me sai do léxico.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










