A ecologia não é só reciclar – celebrando o “Tempo da Criação”

10 Set 19Entre Margens, Últimas

Nas margens da filosofia (VIII)

O termo ecologia remonta ao cientista Ernst Häkel e começou por identificar uma disciplina integrada na biologia. A própria análise etimológica deste conceito permite esclarecê-lo. De facto, ele formou-se a partir dos vocábulos gregos óikos (casa) e lógos (razão, discurso), o que nos leva a perceber que se trata de uma ciência que estuda os seres vivos e não vivos, na sua relação com a casa comum em que habitam, ou seja, a Terra.

A tónica é colocada na relação dos homens com a bioesfera mas implica interacções com determinantes económicas, psicológicas, sociais e culturais. Daí a designação de ecologia integral, mostrando que a ecologia não se reduz às constantes ambientais e físicas mas implica todas as dimensões da vida pessoal e colectiva. De onde a crise ecológica que presentemente vivemos não dizer apenas respeito à degradação do ambiente físico, à poluição, à perda da diversidade das espécies, ao aquecimento global e às alterações climáticas. Ela também implica a economia, a coesão social, as condições de vida das pessoas e dos territórios em que vivem.

O termo “ecologia integral”, usado pelos filósofos Aldo Leopold e Edgar Morin, é do agrado do Papa Francisco que fez dele o tema central da sua encíclica Laudato si’. Depois de afirmar que nada neste mundo nos é indiferente, Francisco alerta-nos para que escutemos o grito da nossa casa comum e propõe-nos uma conversão ecológica. Esta passa pelo reconhecimento do uso irresponsável que fazemos dos bens da terra, dos quais erradamente pensamos ser proprietários (LS., nº 2). Passa também pela apologia de um novo estilo de vida, questionando o modo como consumimos, os bens que fabricamos, as tecnologias a que recorremos, os meios de transporte que usamos, as relações que estabelecemos uns com os outros.

Uma das ideias chave da Laudato Si’ é o reconhecimento de que o ser humano tem direito a viver feliz e a fruir dos bens da terra. Por isso, há que criticar o actual paradigma económico e financeiro que se centraliza no dinheiro e não na pessoa, não respeitando nem valorizando o trabalho humano. Urge inventar um novo paradigma, um modelo civilizacional diferente, baseado numa ética do cuidado.

O Papa assume que não está sozinho nesta causa, procura vivê-la numa dimensão ecuménica e convida homens e mulheres de diferentes países e credos a empenhar-se nela. O seu apelo foi ouvido por crentes e não-crentes e mobilizou pessoas e grupos, originando múltiplas acções, quer individuais quer colectivas. De facto, muita gente foi movida por esta encíclica a aprofundar o seu conhecimento sobre o que está acontecer no planeta terra. E desse conhecimento resultou o desejo de alterar o modus vivendi, numa fidelidade ao desafio de Francisco.

Do convite do Papa decorreram múltiplas iniciativas. Entre elas lembramos a rede Cuidar da Casa Comum, uma plataforma aberta à participação ecuménica, englobando um conjunto de instituições, organizações, obras, movimentos da Igreja Católica, pessoas a título individual [1]. O seu principal objectivo é não só dar a conhecer e aprofundar a Laudato Si’, mas também promover uma consciência operativa da urgência em cuidar da Terra e em proporcionar instrumentos de análise que permitam pensar o futuro do Planeta. Para a prossecução destes objectivos é essencial a criação de Focos – pequenos grupos locais (com cinco a dez elementos) empenhados na promoção de uma ecologia integral. Para isso há que desenvolver um trabalho simultaneamente intelectual e prático, movido pelo desejo de promover uma conversão ecológica. O que implica uma mudança de vida, quer a nível pessoal quer colectivamente, estabelecendo pontes entre iniciativas relevantes que ocorram no espaço eclesial e na sociedade civil.

Uma recente mensagem do Papa Francisco alerta-nos mais uma vez para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação [que se assinala anualmente a 1 de Setembro] e o Tempo da Criação, um período que se inicia a 1 de Setembro e que termina a 4 de Outubro, dia da memória de São Francisco de Assis. O texto recorda-nos que “(…) não fomos criados para ser indivíduos que se assenhoreiam; fomos pensados e queridos no centro duma rede da vida constituída por milhões de espécies, amorosamente unidas por nosso intermédio ao Criador.

Para dinamizar e incentivar esta mudança de mentalidades e de modos de vida, a rede Cuidar da Casa Comum celebrou no ano passado, o Tempo da Criação [2]. Desta iniciativa, destacamos como particularmente relevante um encontro aberto ocorrido a 29 de Setembro, no Seminário de Almada, subordinado ao tema “Também somos Terra” [3]. Um encontro do mesmo tipo está previsto para o dia 21 de Setembro, na comunidade das Irmãs Doroteias de Nossa Senhora da Conceição, no Linhó (Sintra).

Estão convidados para participar nesta iniciativa todos e todas que se interessam pelo cuidado da Terra em que habitamos, que pretendemos preservar, mas da qual, cada vez mais, devemos estar conscientes de que não somos senhores.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

Notas

[1] A consulta do site da rede Cuidar da Casa Comum permite uma informação cabal do modo como esta se constituiu e funciona, bem como das diferentes iniciativas realizadas e a realizar.

[2] Sobre o tema Tempo da Criação ver o artigo de Rita Veiga, publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Setembro (também disponível aqui).

[3] Pode obter mais notícias sobre este espaço celebrativo na página da Rede

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Set
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A projecção será seguida por um debate com a participação do realizador, José Leitão (Centro de Reflexão Cristã), e João Eleutério, professor da Faculdade de Teologia.

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