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Roma. Vaticano. Praça de São Pedro

“A economia da Santa Sé deve ser uma casa de vidro”, diz responsável do Vaticano ao revelar as contas da Cúria

| 02/10/2020

Roma. Vaticano.

“A economia da Santa Sé deve ser uma casa de vidro, os fiéis têm o direito de saber como são usados os recursos”, diz o prefeito da Secretaria para a Economia. Foto © Direitos reservados

 

O Vaticano divulgou nesta quinta-feira, 1 de outubro, as contas da Cúria relativas a 2019, num relatório inédito que resume, ao longo de 12 páginas, quais as principais receitas e despesas que os organismos centrais da Santa Sé tiveram no ano passado, comparando-as com dados de 2018.

“A economia da Santa Sé deve ser uma casa de vidro, os fiéis têm o direito de saber como usamos os recursos”, explicou, no mesmo dia, o prefeito da Secretaria para a Economia, o padre Juan Antonio Guerrero Alves, em entrevista ao Vatican News, revelando a preocupação da Igreja com uma maior transparência e assumindo que esta está “a aprender com os erros”, numa altura em que se multiplicam as notícias sobre os escândalos financeiros que levaram, por exemplo, ao afastamento do cardeal Angelo Becciu do cargo de prefeito da Congregação da Causa dos Santos.

“Não somos proprietários, somos custódios de bens que recebemos. Por isso, ao apresentar o balanço para 2019, gostaríamos de explicar aos fiéis, da maneira mais compreensível possível, quais são os recursos da Cúria Romana, de onde eles vêm e como são utilizados”, afirmou o responsável pela economia da Santa Sé.

De acordo com o balanço consolidado apresentado, a Cúria Romana teve em 2019 um défice de 11 milhões de euros, apresentando uma melhoria considerável em relação a 2018, ano em que o saldo negativo tinha chegado aos 75 milhões. O padre Juan Antonio Guerrero Alves salvaguarda que “a Santa Sé não funciona como uma empresa ou Estado, não busca lucros ou excedentes. É normal, portanto, que esteja em défice”.

Até porque, explica o jesuíta espanhol, “quase todos os dicastérios são na verdade ‘centros de custo’: eles realizam um serviço que não é vendido nem patrocinado”. Assim, “evitar o défice não é o objetivo da Santa Sé”, mas antes “que os custos correspondam a ter tudo o necessário para o serviço da missão que nos foi confiada”, sublinha o prefeito da Secretaria para a Economia.

A maior parte das receitas (54%, que correspondem a 164 milhões de euros) teve origem no património. A atividade comercial e serviços geraram 14% das entradas, as entidades vaticanas que não estão consolidadas no balanço (Instituto para as Obras de Religião, Governatorato, Basílica de São Pedro) contribuíram com outros 14%, e os donativos das dioceses e dos fiéis corresponderam a 18% do total das receitas.

Quanto às despesas, o padre Juan Antonio Guerrero Alves divide-as em três blocos: 21%, ou 67 milhões, foram para a gestão dos ativos (18 milhões de euros de impostos e 25 milhões na manutenção do património). “Poderíamos dizer que estes 67 milhões de euros são o que nos custa gerar os 164 milhões de euros de receitas que derivam do património”, explicou o responsável pela Economia da Santa Sé ao diretor-geral dos meios de comunicação do Vaticano, Andrea Tornielli. Os serviços e a administração absorveram 14% das despesas, e os restantes 65% foram custos com a missão.

“Em geral, o que mais me impressionou ao conhecer melhor a Cúria é que muito se faz com pouco, (…) graças a muitas pessoas que trabalham com enorme generosidade”, sublinhou o padre Juan Antonio Guerrero Alves. E exemplificou com o caso dos meios de comunicação do Vaticano: “Publicar um jornal bem conhecido, como o L’Osservatore Romano, transmitir mais de 24 horas por dia em 40 línguas, como fazem a Rádio Vaticano e os media vaticanos, gerar notícias e explicá-las como faz o Vatican News, gastando 45 milhões de euros: não encontrei comparações no mundo da comunicação”, disse, acrescentando que “é interessante ver como a comunicação da Santa Sé se modernizou nos últimos anos, inclusive reduzindo custos.”

O objetivo principal é economizar onde seja possível e continuar a “promover a transparência”. “Os fiéis querem contribuir para a missão da Igreja, mas é imprescindível uma política de transparência externa e de comunicação capaz de transmitir com precisão como usamos o dinheiro que recebemos e administramos. Este é o objetivo que queremos atingir, este é o caminho no qual o Santo Padre nos indicou. Esta é a linha”, garantiu.

Em relação aos escândalos financeiros que foram notícia nas últimas semanas, Guerrero Alves reconheceu que “é possível que, em alguns casos, a Santa Sé não só tenha sido mal aconselhada como também enganada. Penso que estamos a aprender com os erros ou imprudências do passado. Trata-se agora de acelerar, com o impulso decisivo e insistente do Papa, o processo de conhecimento, transparência interna e externa, controle e colaboração entre os diversos dicastérios”, concluiu.

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