A Economia de Francesco: “Quando se tiram as barreiras aos jovens, eles aparecem, revelam-se.”

| 16 Nov 20

O que vai acontecer virtualmente a partir da cidade italiana de Assis, entre quinta-feira e sábado próximos, é uma grande oportunidade criada pelo Papa Francisco para se derrubarem barreiras e dar voz exclusiva aos “jovens economistas, empreendedores e empreendedoras”, na criação de uma “economia diferente, aquela que nos faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a despoja”.

Greta Thunberg com Francisco, em Abril de 2019: o movimento dinamizado pela jovem sueca contra a negligência de políticos e empresas na questão climática deu aos jovens um capital de protesto; A Economia de Francesco propõe um caminho de mudança. Foto captada do vídeo publicado pelo El País.

 

Nos primeiros dias depois das eleições norte-americanas no passado dia 3 de Novembro, dedicados a uma exaustiva análise dos resultados, um aspeto em particular captou a atenção: uma elevada mobilização dos jovens, sobretudo nos estados onde a luta entre os dois candidatos era mais renhida, deu um contributo decisivo para os resultados globais, em particular para a vitória de Joe Biden.

Nas eleições em que se atingiu o maior número de votos se sempre, 10% mais de jovens participaram e 61% deles votaram em Biden. Milhões votaram antecipadamente, por correio, e o efeito foi tal que os media admitiam que tinham feito mudar o jogo a favor de Biden, hoje Presidente eleito. Nas imagens e textos desses dias lá está a alegria dos que participaram pela primeira vez e, sobretudo, dos que perceberam que o seu voto contou quando tanto os empurra para não votarem. A dada altura, um deles diz ao The Guardian que “quando se tiram as barreiras (aos jovens), eles aparecem, revelam-se”. E fazem a diferença.

O que vai acontecer virtualmente a partir da cidade italiana de Assis, entre quinta-feira e sábado próximos, é uma grande oportunidade criada pelo Papa Francisco para também se derrubarem barreiras e dar voz exclusiva aos “jovens economistas, empreendedores e empreendedoras”, na criação de uma “economia diferente, aquela que nos faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a despoja”. Ao convite para A Economia de Francesco, o encontro global que evoca S. Francisco de Assis (usando mesmo o nome do santo em italiano), responderam dois mil jovens de 120 países, segundo a organização.

O Papa assume recorrentemente a sua preocupação sobre esta economia em que vivemos, que é o ponto mais crítico da vida actual, como a própria pandemia tem ensinado.

Na carta apostólica Evangelli Gaudium, de 2013, Francisco manifesta-se contra a “economia da exclusão e da desigualdade social”; vem desse documento a expressão que nos ficou: “esta economia mata”. O Papa Bergoglio diz, no texto, que “a superação da desigualdade requer que se desenvolva a economia, fazendo frutificar as potencialidades de cada região e assegurando assim uma equidade sustentável”.

Em 2015, na encíclica Laudato Sí’, ele pretende lembrar que habitamos todos a mesma casa comum, a Terra, e que a fatura do estilo de vida das sociedades desenvolvidas está a ser paga pelo resto do mundo. Este documento, “sobre o cuidado da casa comum”, abriu uma janela de esperança contra o tempo de egoísmos, de consumismo e de exaustão provocada ao único planeta que até agora deu abrigo ao ser humano, de modo a recuperar a sua humanidade, libertar-se da submissão à tecnocracia e ao lucro, resgatar a dimensão ética da solidariedade e da justiça, e ousar quebrar os tabus do eterno crescimento económico e desigual da riqueza.

Daí conclui Francisco que “chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” e também de quebrar o absoluto primado dos mercados, especialmente no que se refere à protecção do ambiente. “O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente.”

Foi na Laudato Sí’ que o Papa mais detalhou a economia por que a Humanidade deve lutar, a economia que vise o bem comum, que “favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial”, sem travar “o sonho de progresso”. Divulgada meses antes da Cimeira do Clima, em Paris, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, normalmente traduzida na crise climática, mas que está para lá dela. É esta preocupação que tem levado Francisco a reunir-se com os responsáveis das grandes multinacionais petrolíferas, que há muito tempo deixaram de ser jovens. No último encontro, no ano passado, pediu-lhes para apostarem numa “transição energética radical para salvar a nossa casa comum” e que não dessem “prioridade a vantagens económicas a curto prazo”. Aguardam-se resultados.

O movimento global impulsionado por Greta Thunberg contra a negligência dos políticos e das empresas na questão climática deu aos jovens um capital de protesto; A Economia de Francesco propõe-lhes um caminho de mudança.

Inicialmente prevista para Março passado, a pandemia alterou os planos da iniciativa, um percalço do qual os jovens tentaram tirar partido, transformando mais oito meses de espera em nove meses de preparação mais aprofundada, ainda que à distância. Por isso, espera-se por algum trabalho feito nas “aldeias” em que estão organizados: gestão e dádiva, finança e humanidade, trabalho e cuidado, agricultura e justiça, energia e pobreza, negócio e paz, mulheres para a economia, CO2 das desigualdades, vocação e lucro, economia em transição, vida e estilo de vida, políticas e felicidade.

Quando lançou o convite, o Papa Francisco expressou o desejo de que este encontro possa “levar a fazer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e dar alma à economia de amanhã”. Numa das últimas conferências de imprensa preparatórias do encontro, no final de Outubro, Alessandra Smerilli, membro do Comité Científico d’ A Economia de Francesco, contava que muitas vezes os jornalistas perguntam quais são, para os jovens, os pontos do encontro, mas ouvem o que não esperariam: “Não estão a escrever um tratado, mas preparam propostas e dirão que ajuda vão precisar”. Não havendo nenhum milagre em Assis em três dias, haverá, porém, quem leia nesta resposta estranha aos ouvidos menos abertos o prenúncio de um novo caminho a ser tomado pelos jovens. “Quando se tiram as barreiras (aos jovens), eles aparecem, revelam-se”.

(O encontro A Economia de Francisco pode ser acompanhado em Portugal em alguns lugares concretos, cuja lista está a ser permanentemente atualizada na página da iniciativa.)

 

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Espanha: Milhares protestam contra nova lei da educação “laicista”

Milhares de carros encheram as ruas de diversas cidades espanholas este domingo, 22 de novembro, para protestar contra a nova lei da educação, que passou na passada quinta-feira no Congresso espanhol por apenas um voto. A manifestação foi organizada pela plataforma Más Plurales, que considera que a lei aprovada “desvaloriza o ensino da disciplina de Religião na escola” e constitui uma “agressão à liberdade de consciência, a favor da imposição de uma ideologia laicista imprópria de um Estado não confessional”, conforme pode ler-se no seu manifesto.

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