Portugueses em balanço do encontro de Assis

A Economia de Francisco “não é uma utopia”. De regresso a Portugal, o desafio é pô-la em prática

| 27 Set 2022

portugueses na economia de francisco foto eof portugal

A delegação portuguesa em Assis. Foto © EoF Portugal.

 

“Não é uma utopia.” A frase, em letras garrafais, permaneceu durante largos minutos no ecrã gigante que servia de cenário ao palco do encontro A Economia de Francisco, enquanto o Papa Francisco, 85 anos, e Lilly Satidtanasarn, 14, assinavam um pacto pela nova economia, no sábado passado. Naquele momento, Rita, João, Leonor e Matheus sentiram exatamente o mesmo: a assinatura era de Lilly, mas todos os jovens naquela sala, incluindo eles próprios, estavam a assumir um enorme compromisso. E querem muito honrá-lo.

Rita Nascimento, gestora de projeto e aluna do programa de doutoramento em Sustentabilidade na Nova School of Business and Economics, e João Antunes, consultor na área de gestão, estratégia e recursos humanos, são dois dos 19 portugueses que participaram neste encontro que decorreu no final da semana passada. E contam ao 7MARGENS que já têm “uma série de ideias a fervilhar para pôr em prática” e estão ansiosos por contagiar outros com o “bichinho” da nova economia.

Casados, pais de 3 filhos, Rita e João arriscam dizer que o seu caminho n’A Economia de Francisco começou antes mesmo de saberem que o movimento existia. “Sobretudo desde que nasceram os miúdos, fomos impelidos a fazer algumas mudanças na nossa vida, em coisas práticas do dia a dia, nomeadamente na utilização de produtos sustentáveis”, explica Rita, 33. Um caminho que culminou na criação, durante a pandemia, de um pequeno negócio de venda online desses mesmos produtos, a Treedhis, e em que cada venda contribuía para a plantação de árvores em diferentes partes do mundo.

Agora, e também inspirados pela participação neste encontro, querem levar a marca mais longe e apostar sobretudo na educação e formação para, tal como ensinaram os seus filhos a serem mais amigos do ambiente e a cuidar da nossa “casa comum”, poderem ensinar muitas outras crianças.

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O casal João Antunes e Rita Nascimento quer apostar na formação dos mais jovens para o cuidado da “casa comum”. Foto © EoF Portugal.

 

Souberam da iniciativa do Papa e do encontro em Assis há apenas alguns meses, através da universidade onde Rita trabalha e estuda, e no início pensaram que seria algo “mais restrito”. “Viemos depois a perceber que não só iríamos aprender muito, como até poderíamos acrescentar alguma coisa com a nossa experiência”, explica João, de 35 anos.

“Somos católicos, temos formação na área da economia e gestão, fizemos ambos parte da AIESEC [a maior organização de estudantes do mundo] e, no fundo, encontrámos neste movimento uma forma de juntar duas dimensões muito importantes da nossa vida”, acrescenta Rita.

O mesmo pensou Leonor Távora, 36, religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, quando a irmã provincial da congregação lhe telefonou para convidá-la a juntar-se a este movimento. Licenciada em Economia e Gestão, trabalhou cinco anos como consultora num banco. Ao mesmo tempo, estava envolvida em vários projetos de voluntariado, e foi num deles que conheceu as Escravas do Coração de Jesus e o trabalho que elas desenvolviam no Bairro da Fonte da Prata (na Moita). Ali, começou por dar aulas de português a estrangeiros que acabavam de chegar ao nosso país e acompanhou alguns moradores nas dificuldades que tinham com os seus pequenos negócios. “Fui-me apaixonando pelas pessoas daquele bairro e pela missão das irmãs… E a maneira que encontrei de responder a tanto amor que recebia, e ao meu desejo de me aproximar mais de Deus, foi a de viver em comunidade e dedicar a minha vida ao serviço dos outros como Escrava”, justifica.

Depois de ter entrado para a congregação, propuseram-lhe que fosse estudar Teologia e Filosofia para Paris, na universidade dos jesuítas, de modo a ficar melhor preparada “para acompanhar as pessoas espiritualmente, e ajudá-las a encontrar um sentido para as suas vidas”. Foi , assim, quando estava em França (mais propriamente em Taizé), que recebeu o convite para participar na Economia de Francisco. “Para mim, foi como um presente, porque já muitas vezes tinha procurado ligar a Fé ao trabalho como economista e nem sempre tinha sido fácil”, refere a irmã Leonor.

Uns meses depois, surgia a pandemia de covid-19, obrigando a adiar o encontro global da Economia de Francisco, e a substituí-lo por encontros online. “Eu estava tão ocupada nos estudos que achei que a minha colaboração com o movimento poderia ser mais a nível da investigação”, recorda Leonor. “Então, fui estudar João Crisóstomo, considerado o fundador da Doutrina Social da Igreja e tentar perceber como é que este homem poderia iluminar o nosso tempo, ele que nas suas homilias falava tanto de esmola, e convidava a ajudar os mais pobres e a nunca se separar deles.”

Um convite que o Papa Francisco renovou durante o encontro em Assis, no seu discurso aos jovens. “Uma frase que ficou mesmo a ressoar em mim foi precisamente a de que A Economia de Francisco não existe se os pobres não estiverem no centro”, refere Leonor Távora. “E nesse sentido, dado o contexto em que vivemos, avizinha-se um ano difícil, por isso o desafio agora é sobretudo estar atenta.”

Leonor tem também a grande responsabilidade de partilhar com as restantes irmãs de toda a província da Europa Atlântica (que inclui Portugal, Inglaterra, França e Irlanda) aquilo que viu e ouviu. “Sendo nós uma congregação, muito da Economia de Francisco já o vivemos, é verdade, mas há sempre algum passo mais que pode ser dado, e é isso que agora nos cabe também descobrir, nós que temos contactos com tantos jovens e famílias em 24 países do mundo, vários edifícios, dinheiro no banco… ”

E o melhor é que “ninguém está sozinho” e neste encontro Leonor percebeu isso claramente. “O estar com as pessoas que até agora só tínhamos conhecido virtualmente, poder conhecê-las, tocar-lhes… ajudou-me a perceber que isto é real. E cada um de nós pode contar com esta rede que se criou”, refere.

Matheus Belucio, 29 anos, concorda. Há seis anos a viver em Portugal, este brasileiro com ascendência madeirense é aluno do doutoramento em Economia na Universidade de Évora e investigador da Economy of Francesco Academy,

Matheus está a estudar o impacto da economia no turismo religioso católico e a influência da caridade na ecoeficiência dos países e, neste encontro, teve oportunidade de encontrar-se presencialmente pela primeira vez com o investigador “sénior” que está a orientar o seu trabalho da academia e ouvir as suas “preciosas sugestões”.

Mas houve outro encontro que o marcou particularmente. É que, enquanto Francisco e Lilly assinavam  o pacto pela nova economia, Matheus estava a pouco mais de um metro de distância. Ele foi um dos selecionados para ocupar os lugares no palco, junto ao Papa, e teve oportunidade de cumprimentá-lo no final.

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Matheus Belucio, brasileiro a estudar em Portugal (ao centro com a t-shirt da JMJ), foi um dos escolhidos para estar no palco com o Papa Francisco. Foto © Sala Stampa Vaticano.

 

“Este encontro pessoal marcou-me muito, não tenho palavras para descrever o que senti. Foi incrível o sorriso com que o Papa me acolheu, surpreendido quando lhe disse que era brasileiro… porque eu levava uma t-shirt da JMJ Lisboa 2023!”.

Francisco ofereceu a cada jovem que estava no palco um terço benzido por si, e Matheus não foi exceção. Mas não vai guardá-lo para si. “No espírito d’A Economia de Francisco, vou levá-lo para a Comunidade Shalom a que eu pertencia no Brasil e encontrar forma de ele ficar lá exposto, para que outros jovens possam vê-lo e sentir-se inspirados como eu me sinto”, explica.

“Para quem acompanhou o movimento desde o início, percebo que o encontro do Papa tenha sido uma emoção ainda maior. Mas mesmo para nós, que chegámos há pouco tempo, foi uma emoção muito grande, e a confirmação de que isto é mesmo liderado pelo Papa e ele quer levar isto para a frente connosco”, afirma Rita. João completa: “E nós comprometemo-nos a ir à luta, a tentar mudar efetivamente alguma coisa”.

Até porque, sublinha Matheus, “todos somos agentes para mudar o mundo, e a nossa caridade, seja sob que forma for, vai ter impacto no planeta”.

 

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