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O Papa Leão durante a sua mensagem "urbi et orbi" do primeiro Natal depois de ser eleito em Maio. Foto © Vatican Media.

Mensagens de Natal

A economia distorcida, as tendas de Gaza e a paz selvagem do poeta israelita, segundo o Papa Leão

| 26/12/2025

Críticas à “economia distorcida” que “leva a tratar os homens como mercadoria”, apelos ao diálogo e ao fim da violência entre antagonistas nos conflitos pelo mundo, evocações do frio e da destruição em Gaza, das pessoas refugiadas e sem-abrigo. Em grande parte, estes foram os temas das mensagens de Natal do Papa Leão XIV, na Missa do Galo e na manhã do dia 25. Em Lisboa, o patriarca Rui Valério criticou a corrida aos armamentos.

“Enquanto uma economia distorcida leva a tratar os homens como mercadoria, Deus torna-se semelhante a nós, revelando a infinita dignidade de cada pessoa”, afirmou o Papa na homilia da Missa do Galo, cujo texto completo se pode ler na página oficial do Vaticano. “Enquanto o homem quer tornar-se Deus para dominar o próximo, Deus quer tornar-se homem para nos libertar de toda a escravidão.”

Perante seis mil pessoas que encheram a Basílica de São Pedro, e mais alguns milhares que o ouviam através de ecrãs colocados na Praça, Leão XIV afirmou: “Na terra não há espaço para Deus se não houver espaço para o homem: não acolher um significa não acolher o outro. Em vez disso, onde há lugar para o homem, há lugar para Deus”. Desse modo, “um estábulo pode tornar-se mais sagrado do que um templo e o ventre da Virgem Maria é a arca da nova aliança”, afirmou.

Diante das expectativas dos povos, Deus “envia um bebé, para que seja palavra de esperança”, acrescentou o Papa Leão. “Perante a dor dos miseráveis, Ele envia um indefeso, para que seja força para se levantarem; perante a violência e a opressão, Ele acende uma luz suave que ilumina com a salvação todos os filhos deste mundo”.

Antes da missa, que começou às 22h de Lisboa, Leão dirigiu uma saudação aos peregrinos que ficaram na Praça de São Pedro, apesar do tempo chuvoso – este foi o primeiro Natal com celebrações presididas pelo novo Papa. “A Basílica de São Pedro é muito grande, mas infelizmente não é grande o suficiente para receber todos vós. Admiro, respeito e agradeço a vossa coragem e disposição para estar aqui esta noite.”

Já no dia de Natal, o Papa centrou as suas duas mensagens – a homilia da missa e a mensagem urbi et orbi (à cidade e ao mundo) – na necessidade de vencer os conflitos e diversas injustiças que atravessam o mundo.

“O Verbo ergueu no meio de nós a sua frágil tenda”, afirmou na missa do dia de Natal, para perguntar: “E como não pensar nas tendas de Gaza, expostas durante semanas à chuva, ao vento e ao frio, e nas tendas de tantos outros deslocados e refugiados em todos os continentes; ou nos refúgios improvisados de milhares de pessoas sem-abrigo dentro das nossas cidades?”

Evocando “as populações indefesas, provadas por tantas guerras em curso ou concluídas, deixando escombros e feridas abertas”, o Papa Leão acrescentou: “Fragilizadas estão as mentes e as vidas dos jovens obrigados a pegar em armas que, precisamente na frente de batalha, percebem a insensatez do que lhes é exigido e a mentira de que estão embebidos os discursos inflamados daqueles que os enviam para a morte.”

 

Conflitos e violências que afligem o mundo

Yehuda-Amichai, o poeta israelita que morreu em 2000, citado neste Natal pelo Papa Leão. Foto © Yair Medina/Wikimedia Commons

Pedindo a interrupção dos “monólogos”, a fecundidade da escuta, a atenção à “carne despojada do outro” que “pede cuidados, invoca acolhimento e reconhecimento, procura mãos capazes de ternura e mentes dispostas à atenção, deseja palavras bonitas”, o Papa Leão referiu que ninguém é filho de Deus enquanto estiver distante “do choro das crianças e da fragilidade dos idosos, do silêncio impotente das vítimas e da melancolia resignada de quem faz o mal que não quer.”

Leão XIV referiu ainda que o caminho dos cristãos é o caminho “em direcção ao outro” e que isso coincide com a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, cujas propostas só florescerão se a Igreja caminhar “com toda a humanidade”.

Na mensagem Urbi et orbi (à cidade – de Roma – e ao mundo), que depois da missa dirigiu a partir da varanda central da Basílica de São Pedro, o Papa Leão referiu muitos dos conflitos e situações de violência que hoje afligem o mundo: Médio Oriente (Líbano, Palestina, Gaza, Israel e Síria), Ucrânia e o seu “povo tão massacrado”, as “guerras esquecidas” do Sudão, Sudão do Sul, Mali, Burquina Faso e República Democrática do Congo, a América Latina, Haiti (onde deve cessar “toda a forma de violência”), Myanmar, Tailândia e Camboja.

Recordando a sua recente viagem ao Médio Oriente (Turquia e Líbano) e os cristãos que vivem na região, Leão XIV disse: “Ouvi os seus receios e conheço bem o seu sentimento de impotência perante dinâmicas de poder que os ultrapassam.”

Pedindo “justiça, paz e estabilidade para o Líbano, a Palestina, Israel e a Síria” e manifestando-se solidário com “quem está a braços com a fome e a pobreza, como o povo do Iémen”, acrescentou uma nova referência à martirizada população de Gaza: “Jesus assume a nossa fragilidade, identifica-se com cada um de nós: com aqueles que não têm mais nada e perderam tudo, como os habitantes de Gaza.”

A propósito, citou o poeta israelita Yehuda Amichai (1924–2000) e o seu poema Wildpeace (“paz selvagem”): “Ao coração de Deus chega a invocação de paz que se eleva de todas as partes da terra, como escreve um poeta:

‘Não a paz de um cessar-fogo,
nem a visão do lobo e do cordeiro,
mas antes
como quando no coração a excitação termina
e apenas se pode falar de um grande cansaço. […]
Venha de repente,
como as flores selvagens,
porque o campo
precisa dela: paz selvagem.”

Na mensagem, o Papa Leão recordou ainda os que deixam as suas terras “em busca de um futuro noutro lugar, como os muitos refugiados e migrantes que atravessam o Mediterrâneo ou o continente americano”; os que estão sem trabalho ou “tantos jovens que têm dificuldade em encontrar emprego”; os que “são explorados, como muitos trabalhadores mal remunerados”; ou ainda os que estão na prisão, tantas vezes “em condições desumanas”.

Nas saudações finais que dirigiu em dez línguas – que o Papa Francisco interrompera –, Leão falou também em português: “Feliz Natal! Que a paz de Cristo reine nos vossos corações e nas vossas famílias.” A última vez que tal sucedera foi no Natal de 2012, com Bento XVI, que dirigiu saudações natalícias em 65 línguas.

 

Patriarca: “Independentemente da língua que fale, da terra de onde venha”

Patriarca Rui Valério, Natal 2025

Patriarca de Lisboa, Rui Valério, na mensagem de Natal 2025. Foto © Patriarcado de Lisboa.

A paz “não nasce da força” e cada pessoa é “portadora de dignidade”, “independentemente da terra de onde venha”, afirmou por seu turno o patriarca de Lisboa, Rui Valério, na sua mensagem de Natal.

Numa referência indirecta a discursos como os da extrema-direita que evoca os “valores cristãos”, mas depois estigmatiza minorias étnicas ou estrangeiros, o patriarca acrescenta: “Ninguém é um número, um produto ou um recurso descartável. Cada pessoa é única, portadora de uma dignidade que nenhuma circunstância pode apagar.”

O presépio deve levar à ideia da “consciência do valor inalienável de cada ser humano”, afirma. “Independentemente da língua que fale, da terra de onde venha ou da história que traga consigo, cada rosto merece respeito, reconhecimento e a possibilidade de construir uma vida digna para si e para a sua família.”

Enquanto sociedade, somos convidados a olhar de outro modo para quem está perto de nós e, sobretudo, para quem é mais frágil ou parece invisível”, acrescentou. “O cuidado, a compaixão e a responsabilidade partilhada não podem ser substituídos por uma lógica fria que exclui, descarta e fragmenta.”

Na Missa do Galo, celebrada na Sé de Lisboa, criticando que, “em alguns contextos” se procura “apagar ou silenciar o Natal no espaço público – nas escolas, em instituições civis – com o argumento de não ferir sensibilidades de quem não partilha a fé cristã”. Mas esta aparente intenção “inclusiva” esvazia “a própria matriz humanista que tornou Portugal uma terra de acolhimento, de dignidade e de oportunidades”.

Na missa do dia de Natal, o patriarca Rui Valério criticou a corrida aos armamentos: “Vemos nações que se devoram, uma corrida ao armamento que denuncia a perda de estima pela vida, e o medo, esse veneno subtil, a infiltrar-se no quotidiano.”

Instalou-se uma cultura de medo na sociedade, referiu ainda, na homilia cujo texto pode ser lido na página oficial do Patriarcado de Lisboa: “O medo do mendigo que nos faz subir o vidro do carro; o medo da religião do outro que nos tenta levar a negar os fundamentos da nossa própria fé; o medo do futuro que paralisa a coragem de gerar vida.” E acrescentou: “Jesus assumiu a nossa carne, débil, mortal, precária. Aquilo que hoje se rejeita – o frágil, o pobre, o diferente – foi precisamente o que Deus procurou.”

 

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