AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Aassinatura da carta aconteceu na missa de abertura do Jubileu do Mundo Educativo, na presença do cardeal português Tolentino Mendonça. Foto © Vatican Media

Leão XIV em Carta Apostólica

“A educação católica não pode calar: deve unir justiça social e ambiental”

| 28/10/2025

Depois da primeira exortação apostólica, chega agora uma carta apostólica de Leão XIV: mais curta, mas também ela cheia de apelos, desta vez dirigidos a todos aqueles que têm a missão de educar, e em particular à “rede educativa católica”. É  essencial, escreve o Papa, que esta esteja preparada para responder aos desafios do mundo de hoje e “não pode calar: deve unir justiça social e justiça ambiental, promover sobriedade e estilos de vida sustentáveis, formar consciências capazes de escolher não apenas o conveniente, mas o justo”.

Intitulada Desenhar novos mapas de esperança, a carta apostólica foi publicada nesta terça-feira, 28 de outubro, por ocasião do 60° aniversário da declaração conciliar Gravissimum Educationis, documento que Leão XIV relança e integra face aos desafios atuais, coincidindo também com o Jubileu do Mundo Educativo, a decorrer em Roma até 2 de novembro. A sua assinatura aconteceu na missa de abertura deste encontro jubilar, esta segunda-feira, dia 27, na Basílica de São Pedro, na presença do cardeal português Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação.

Fazendo a ponte com a exortação Dilexi te, Leão XIV recorda neste documento “os milhões de crianças em todo o mundo ainda sem acesso à educação primária” e as “dramáticas emergências educacionais causadas por guerras, migrações, desigualdades e diversas formas de pobreza” para assinalar que há “urgência” em “renovar o compromisso” com a educação.

Uma urgência que se revela ainda maior tendo em conta o novo “ambiente digital” em que nos movemos e cujos espaços o Papa convida as escolas católicas a também “habitar”, contribuindo para orientá-los no sentido da “proteção da dignidade, da justiça e do trabalho” e resistindo à “tecnofobia”.

“As tecnologias devem servir a pessoa, não substituí-la; devem enriquecer o processo de aprendizagem, não empobrecer as relações e as comunidades. Uma universidade e uma escola católica sem visão correm o risco de cair no eficientismo sem alma, na padronização do conhecimento, que se transforma em empobrecimento espiritual”, assinala Leão XIV.

Por isso, defende, “é necessária criatividade pastoral: reforçar a formação dos professores também no plano digital; valorizar a didática ativa; promover a aprendizagem em serviço e a cidadania responsável; evitar qualquer tecnofobia. A nossa atitude em relação à tecnologia nunca pode ser hostil, porque o progresso tecnológico faz parte do plano de Deus para a criação”.

 

Uma lista com dez linhas mestras

O Papa Leão XIV assina a Carta Apostólica “Desenhar novos mapas de esperança” após a assinatura na Basílica Vaticana. Ao lado, o cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação

“Onde o acesso à educação continua a ser um privilégio, a Igreja deve abrir portas e inventar caminhos”, escreveu o Papa Leão XIV. Foto © Vatican Media

Reconhecendo que “a rede educativa católica possui uma capilaridade única”, alcançando “todos os continentes, com presença particular nas áreas de baixo rendimento” e que, 60 anos após a Gravissimum educationis, “a Igreja celebra uma história educativa fecunda”, Leão XIV insiste que esta “também se depara com a necessidade de atualizar as suas propostas à luz dos sinais dos tempos”. E nesta carta de nove páginas – para já disponibilizada apenas em italiano – dá pistas para que essa atualização se concretize.

Ao fazê-lo, e como já vem sendo habitual, o novo Papa remete para o legado de Francisco. Concretamente, o novo pontífice refere-se ao Pacto Educativo Global lançado pelo seu antecessor em 2020 como uma “estrela polar” que deve orientar o caminho, recordando as suas sete linhas mestras para “educar para a fraternidade universal”: colocar a pessoa no centro; ouvir as crianças e os jovens; promover a dignidade e a plena participação das mulheres; reconhecer a família como primeira educadora; abrir-se ao acolhimento e à inclusão; renovar a economia e a política ao serviço do homem; cuidar da casa comum.

A estas, Leão XIV acrescenta agora outras três, e expõe-nas na carta: “A primeira diz respeito à vida interior: os jovens pedem profundidade; precisam de espaços de silêncio, discernimento, diálogo com a consciência e com Deus. A segunda diz respeito ao digital humano: formamos para o uso sábio das tecnologias e da Inteligência Artificial, colocando a pessoa antes do algoritmo e harmonizando as inteligências técnica, emocional, social, espiritual e ecológica. A terceira diz respeito à paz desarmada e desarmante: educamos para linguagens não violentas, reconciliação, pontes e não muros; ‘Bem-aventurados os pacificadores’ (Mt 5,9) torna-se método e conteúdo da aprendizagem”.

E lembrando que “a educação católica tem a tarefa de reconstruir a confiança num mundo marcado por conflitos e pelo medo”, pede à rede educativa da Igreja qualidade e coragem: “qualidade na conceção pedagógica, na formação dos professores, na governação; coragem em garantir o acesso aos mais pobres, em apoiar famílias frágeis, em promover bolsas de estudo e políticas inclusivas”.

Porque, defende, “a gratuidade evangélica não é retórica: é um estilo de relação, um método e um objetivo”.  E, assim, “onde o acesso à educação continua a ser um privilégio, a Igreja deve abrir portas e inventar caminhos, porque ‘perder os pobres’ equivale a perder a própria escola”.

 

“Desarmem as palavras, levantem o olhar, guardem o coração”

Cartaz de homenagem e agradecimento da Universidade Católica Portuguesa ao Papa Francisco, após o seu falecimento. Foto UCP

Cartaz de homenagem e agradecimento da Universidade Católica Portuguesa ao Papa Francisco, após o seu falecimento. Foto © UCP

Apoiando-se uma vez mais no que disse o “saudoso” Papa Francisco – neste caso aos universitários na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, pedindo-lhes que fossem “protagonistas de uma nova coreografia que coloque a pessoa humana no centro” – Leão XIV explica que “formar a pessoa ‘como um todo’ significa evitar compartimentos estanques” e que  a educação católica se torna fermento na comunidade humana quando “gera reciprocidade, supera reducionismos, abre à responsabilidade social”. Ou seja, a sua tarefa é “ousar um humanismo integral que habite as questões do nosso tempo sem perder a fonte”.

Sem esquecer a importância da família como “primeira educadora”, que não pode ser substituída por outras instâncias, Leão XIV conclui que “é necessária uma educação que envolva a mente, o coração e as mãos; novos hábitos, estilos comunitários, práticas virtuosas”, na qual a fé seja considerada não “uma matéria a mais”, mas “o sopro que oxigena todas as outras matérias”. E que esteja consciente de que “a paz não é ausência de conflito: é força suave que rejeita a violência”, pelo que “uma educação para a paz desarmada e desarmante ensina a depor as armas da palavra agressiva e do olhar que julga, para aprender a linguagem da misericórdia e da justiça reconciliada”.

Leão XIV termina, então, com três pedidos às comunidades educativas: “desarmem as palavras, levantem o olhar, guardem o coração. Desarmem as palavras, porque a educação não avança com a polémica, mas com a mansidão que escuta. Levantem o olhar. Como Deus disse a Abraão: ‘Olha para o céu e conta as estrelas’ (Gn 15,5): saibam perguntar-se para onde vão e porquê. Guardem o coração: a relação vem antes da opinião, a pessoa antes do programa”.

 

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Violência obriga Igreja Católica da Nigéria a fechar escolas, hospital e paróquia

Cristãos ameaçados

Violência obriga Igreja Católica da Nigéria a fechar escolas, hospital e paróquia novidade

Uma paróquia, três escolas e um hospital católicos vão permanecer encerrados por tempo indeterminado em Ihugh, no estado de Benue, na Nigéria, depois de sucessivos ataques, incêndios e ameaças terem levado a diocese de Gboko a concluir que já não podia garantir a segurança de padres, religiosos, professores, profissionais de saúde, alunos e doentes.

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal

Investigações Nova SBE e EAPN

Ter emprego não chega, habitação pesa: estudos mostram que a pobreza persiste em Portugal novidade

Quase uma em cada dez pessoas vive em Portugal numa situação de pobreza persistente, perto de metade dos adultos pobres tem emprego e, quando são descontados os custos com a habitação, mais de um quarto da população fica abaixo do limiar de pobreza. Estes são alguns dos dados mais significativos de dois estudos sobre pobreza divulgados esta semana.

Uma característica sinodal é escutar os outros

[Entre Margens]

Uma característica sinodal é escutar os outros novidade

“Não é possível encontrar nos evangelhos “ipsissima verba”, os ditos de Jesus, nem narrativas absolutamente fidedignas dos factos protagonizados por Jesus, o que não nos impede de aceder ao fundamental do que Jesus pretendia revelar-nos. Nem tudo nos evangelhos é, objetivamente, verosímil e plausível, porque a produção dos textos era condicionada pelos constrangimentos culturais das comunidades. Mas tudo neles tem um significado. É o significado que deve procurar-se.”

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia

Pós-operatório

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia novidade

A Sala de Imprensa da Santa Sé informou hoje, 14 de outubro, que o Papa realizou os exames de sangue e a radiografia ao tórax programados após a cirurgia a que foi submetido na noite de 13 de outubro para remover o lobo inferior do pulmão direito. A operação, que permitiu confirmar o diagnóstico de cancro, durou uma hora e meia e obrigou o Papa a permanecer no bloco operatório por cerca de três horas.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.