A educação na campanha eleitoral

| 28 Jan 2022

“Quanto ao ‘ensino híbrido’: será desastroso não se aproveitar ao máximo o efeito-pandemia sobre as aprendizagens efetuadas por professores, alunos e pais no uso de ‘ferramentas digitais’ e no recurso a atividades educativas ‘assíncronas’ “. Foto: Palestra Ciência-Religião. © Dina Pinto

 

Durante os trinta debates nas televisões o tema da educação nunca esteve sobre a mesa. Será porque não é importante? Todos responderão que não, pois a educação é reconhecidamente importante em qualquer sociedade, sobretudo as mais desiguais. Será porque não se debateu nenhuma estratégia para o país? Também não, pois, apesar de pouco, ainda houve aqui e ali tempo para debater a justiça, a economia, a fiscalidade, o emprego e as remunerações.

O que se constata, e não é de agora, é que a educação, em Portugal, saiu do radar central das políticas públicas e deixou de ser um tema político prioritário; outros têm-no sido, como a saúde, os apoios sociais, a justiça, o futebol, a corrupção, …

Convidado pela RDP para comentar as “primeiras medidas” que os partidos com assento parlamentar propõem para a educação, tive a oportunidade de ouvir estas propostas e de passar os olhos pelos programas eleitorais.

As prioridades enunciadas pelos partidos nesse programa da rádio oscilam entre aumentar a despesa pública em educação, contratar mais profissionais, reduzir o número de alunos por turma, combater a indisciplina nas escolas, recolocar exames nacionais nos fins de ciclo, dar mais autonomia às escolas, criar o cheque ensino e por de pé planos de recuperação das aprendizagens perdidas nos já três anos letivos de pandemia.

Esta ocasião leva-me a partilhar convosco algumas breves considerações.

Primeiro, a “recuperação” dos efeitos devastadores da pandemia nas aprendizagens dos alunos e no seu bem-estar consegue agregar um bom número de “primeiras medidas”. Ainda assim, estas focam-se pouco no desgaste e cansaço dos professores e na criação de condições para que eles (e as escolas) promovam a referida “recuperação” de modo eficaz, pois sem eles não haverá qualquer “recuperação”, sobretudo para aquelas crianças que só contam com a escola para isso. Algumas propostas de contratação de mais profissionais e de redução do número de alunos por turma poderão cruzar-se com o propósito de estímulo ao bom desempenho profissional dos professores.

Segundo, nenhum partido colocou com clareza, à frente de todas as outras, como “primeira medida”, três questões que me parecem da maior relevância no momento atual: a educação da infância (0-12 anos), e ainda mais particularmente, a atenção prioritária aos 0-6 anos, uma estratégia do país para redignificar a profissão de professor e o desenvolvimento do “ensino híbrido”, combinando as vertentes presencial e digital e assíncrona.

Quanto aos 0-12 anos: penso que é aqui que se centram não só as principais possibilidades de atuação pública sobre a desigualdade de oportunidades e na promoção do bem-estar de cada criança, como os alicerces das aprendizagens escolares (escrita, leitura, cálculo, contextualização histórica e geográfica, expressão artística e física) e da convivência democrática (aprender a viver juntos e em paz). Bem sabemos quanto a pandemia tem prejudicado estas possibilidades, com consequências ainda incalculadas sobre o desenvolvimento das crianças e sobre as aprendizagens. Bem sabemos quanto a pobreza continua a afetar cerca de 20% dos portugueses, incluindo uma franja da população empregada. Sabemos também que é nos 0-6 anos que se situa uma das principais barreiras à natalidade, pois é inadmissível que muitos casais jovens tenham de pagar por uma creche ou jardim de infância mais do que por um filho que frequente o ensino superior. Temos as prioridades invertidas e, como sempre, os olhos e os euros correm mais depressa a fixar-se na criação de condições de frequência do ensino superior (sempre estão por aí os mais favorecidos) do que na educação da infância (por lá deveriam estar todos e em condições democráticas e muito estimuladoras de uma procura generalizada). Nos programas eleitorais, no entanto, vários partidos apresentam importantes medidas sobre este tema, mas, em geral, sem a consistência política e estratégica que este investimento implica.

SyriaEducation, crianças, escolas, Síria

“Refiro-me ao enriquecimento das atividades de ensino e aprendizagem, à diversificação dos seus recursos, a uma maior possibilidade de reorganizar os grupos de alunos e de flexibilizar metodologias ativas, à diversificação de tempos e modos de ensino e aprendizagem, domínios de atuação que podem ajudar motivar muito mais os alunos.” Foto © Caritas Internacionalis

 

Quanto aos professores: desde o final dos anos 80, em que se contruiu o estatuto da carreira docente, nunca mais os professores estiveram no centro das políticas de educação; no centro têm estado o seu cansaço profissional (em boa medida uma consequência das carambolas políticas contínuas e contraditórias, num stop-and-go permanente, sem qualquer esforço prévio de concertação interpartidária), o seu desgaste emocional, agravado pela pandemia, e a erosão da idade (é um setor muito envelhecido). Só quando se percebeu que perto de 40% dos atuais professores se reforma nos próximos oito anos, é que o assunto começou a merecer algum destaque nos media.

Mas medidas políticas de fundo, amplamente debatidas, continuam por aparecer. Estas eleições representavam uma grande oportunidade para tal, bastava que algum partido tivesse elegido esta prioridade e a tivesse colocado em cima da mesa nos debates. Quase todos os partidos se referem ao assunto, mas ninguém apresenta uma proposta de estratégia nacional para enfrentarmos a grave situação. Entretanto, os jovens fogem da procura dos cursos de formação de professores e os que os procuram são os que apresentam as piores médias de acesso ao ensino superior. Isto, que há vários anos deveria estar a acionar alarmes estridentes na sociedade portuguesa, continua a não ser um problema prioritário.

Quanto ao “ensino híbrido”: será desastroso não se aproveitar ao máximo o efeito-pandemia sobre as aprendizagens efetuadas por professores, alunos e pais no uso de “ferramentas digitais” e no recurso a atividades educativas “assíncronas”, uma vez que estas aprendizagens, a par de um cuidado reforço dos meios técnicos, podem alavancar importantes ganhos educacionais. Refiro-me ao enriquecimento das atividades de ensino e aprendizagem, à diversificação dos seus recursos, a uma maior possibilidade de reorganizar os grupos de alunos e de flexibilizar metodologias ativas, à diversificação de tempos e modos de ensino e aprendizagem, domínios de atuação que podem ajudar motivar muito mais os alunos. A própria “recuperação das aprendizagens” poderia ter aqui um ponto crucial de apoio. O mais difícil fê-lo a pandemia, cabe-nos agora dar continuidade e fazer a parte que falta. E o que faz muita falta é uma política adequada e claramente assumida no espaço público.

No termo desta breve incursão “educacional” sobre o presente momento eleitoral o que mais me impressiona são estes programas eleitorais que mais parecem as tradicionais passadeiras de retalhos; são vistosas, mas são feitas com roupas velhas. De resto, como todos vimos, a educação não constituiu prioridade política para ninguém (nem para políticos nem para jornalistas). Vai-nos sair caro, sobretudo aos mais novos, aos que estão para nascer e, seguramente, aos mais pobres, que ainda deixamos que sejam muitos, infelizmente.

 

Joaquim Azevedo é professor da Universidade Católica Portuguesa (Porto) e membro do Conselho Nacional de Educação.

 

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