A educação não é confinável!

| 6 Set 20

Da noite para o dia, na sequência da pandemia, do confinamento obrigatório e do encerramento das escolas, estas e os professores foram capazes de responder eficazmente à nova situação, embora de modos muito diversos. Uns mais facilmente, por exemplo, os que já trabalhavam em plataformas de ensino a distância, como complemento do ensino presencial, outros com mais dificuldades, os que nunca o tinham feito isso e se diziam sem competências específicas e até rejeitavam a integração das TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação] na educação. As atividades letivas puderam prosseguir, as famílias receberam a escola e os professores em suas casas e os alunos (a grande maioria) tiveram diariamente propostas de trabalho escolar (por vezes até demasiadas e desconexas).

Muito se disse e escreveu sobre este inusitado, imprevisível e importante momento. Muitos estudos se empreenderam e seguem agora o seu curso. Mas há algo que me custa a perceber e que me continua a intrigar e que se pode traduzir num paradoxo em que tudo isto parece repousar: como é que um grupo profissional que estava publicamente “condenado” por ser constituído por gente idosa, cansada e desgastada, em burnout profissional – nas palavras dos próprios sindicatos –, com a maioria dos profissionais desiludidos com a tutela e com as suas “reformas” contínuas e desconexas, e a querer, em elevada percentagem, abandonar a carreira na primeira oportunidade, como é que este grupo se transfigurou, no espaço de uma semana, e passou a ser, nas palavas dos mesmos sindicatos e do Governo, um grupo de profissionais extremamente dedicados, que foram capazes de fazer imediatamente frente à nova situação, de modo destemido, competente e criativo, reinventando-se profissionalmente?

Para um grupo de profissionais idosos e em burnout, não será isto um exagero? Ou houve algum milagre?

O que é que não está certo? O primeiro ou o segundo retrato do grupo profissional? Ou ambos? Como é que um grupo profissional socialmente tão desvalorizado e profissionalmente deprimido passou a ser constituído, da noite para o dia, por um conjunto de super-heróis, operando revoluções insuspeitadas? Ou será que nem uma constatação nem a outra estão certas, fazendo ambas parte de uma retórica política sobre os professores, alimentada por sindicatos e governos, conforme lhes convém? E, neste caso, como se explica o facto de ser ter operado essa “transformação”, aparentemente sem grande sobressalto e num quadro de real compromisso profissional dos docentes?

Creio que ambos os retratos traçados são credíveis (expurgados os exageros da dita retórica) e o paradoxo pode ter uma outra explicação bem mais profunda e consistente.

É preciso perceber o lastro: estamos a falar de educação. Não de uma coisa qualquer.

Sim, foi uma mudança da noite para o dia: agora que se impunha a distância física, era preciso estar perto, se possível ainda mais perto… era preciso não deixar um só aluno para trás (nunca se ouviu tanto este slogan, muitas vezes esquecido)… a escola é uma comunidade de vida e de trabalho, que promove o desenvolvimento humano das crianças e dos jovens e que nesta hora difícil não lhes pode falhar… não sei trabalhar com estas plataformas eletrónicas mas aprendo, também não será impossível, cá me adapto, não os podemos perder… os pais vão estar em casa a ver-nos e agora é que vão perceber o que é verdadeiramente a escola e o nosso trabalho…

E foi sobretudo ao responder a este imprevisível e desmesurado desafio que a escola foi mais comunidade que nunca, que os professores e os pais se redescobriram como educadores, nos seus papéis próprios, que se renovaram os olhares entre alunos e professores e que re-descobriram tantas pessoas únicas escondidas sob o obrigatório disfarce de alunos e de docentes, que se criou mais proximidade e mais presença personalizada, que as escolas (e as comunidades locais) se focaram nos mais desprotegidos.

Na verdade, gerou-se uma vaga que a quase todos integrou e envolveu. Essa onda foi uma causa maior do que a simples ação de qualquer escola e do que qualquer professor ou qualquer aluno. Essa onda que a todos elevou faz parte do imenso mar libertador, fraterno e esperançoso que é a educação.

Não, não podíamos falhar uns aos outros, isso é que não, e nunca neste momento e nunca a escola. 0 que há de mais fino, mais fundo, mais frágil e mais duro na educação foi exatamente isso que nos catapultou a todos, e tornou responsáveis, professores e escolas (e autarquias e Estado), para lá de quaisquer contabilidades, taxas e retóricas. Em momentos como este é que se vê o que é a educação e o que nela verdadeiramente importa: revelação incontrolável da humanidade que nos habita, descoberta do melhor de cada um(a), para lá do acesso aos dados e à informação, aprendizagem da vida em comum, estaleiro permanente de esperança. Sim, sem nos termos apercebido, foi esta esperança que nos fez andar, experimentar e descobrir e até ousar fazer o impensável, incluindo o que tínhamos adiado para outro século. Porque é de esperança que a educação é essencialmente feita.

A educação é uma permanente construção feita de finos fios de esperança em ser mais e em ser melhor, em comunidade, não é movida pelo dinheiro, poder, sucesso, prestígio, contabilidade. Foram realmente esses fios invisíveis que importaram, que nos devolveram humanidade, solidariedade e comunidade; o resto é o de sempre, o mais banal, acidental, comercializável e perecível. Neste momento, seis meses passados, estamos mais fortes, sabemos mais, aprendemos muito (ou tivemos essa excelente oportunidade e, distraídos com o acessório, perdemo-la?).

Por mais confinamento que haja, a educação não poderá nunca ser confinada, subjugar-se a ser fechada num qualquer quarto, sem ar, sem horizonte, sem plenitude. De facto, é pela educação que de meros sobreviventes nos tornamos pessoas. E é disso que, nós os sobreviventes, temos sede.

Se há conclusão a retirar deste estranho e estranhamente luminoso tempo, é a de que o centro da pedagogia é este mistério e que é ele que vivifica a educação e a resgata das tolices que a tendem a estiolar e que consistem em a amarrar à transmissão de dados e informações e à consequente fabricação industrial de autómatos programáveis e de consumidores acríticos de algoritmos definidos pela robótica e pela inteligência artificial, ou seja, por quem as e nos domina. O engano é colossal, espantoso, profundamente patético.

Basta perguntar aos docentes e a todos os cidadãos escolarizados sobre o que é que os marcou na sua educação escolar e ficamos bem cientes do que verdadeiramente importa.

Diante de nós há um mundo novo que precisa de todos nós, de uma educação munida de uma outra capacidade de escutar, ver, sentir, comunicar, de ser uns com os outros e uns para os outros, em comunhão com a natureza; como é que a escola pós-confinamento está a trilhar esse caminho? Creio que – novo paradoxo! –, regressados à normalidade, fará o mesmo de sempre, porventura com mais tecnologia, porventura mais avassaladora, mas com o mesmo desdém de sempre pelos diferentes.

 

Joaquim Azevedo é professor da Universidade Católica Portuguesa (Porto) e membro do Conselho Nacional de Educação.

 

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