A encíclica “Fratelli Tutti” e o Alcorão

| 22 Out 20

Cópia de mesquita e igreja no egito, Foto Copts Today

Construção de um complexo no Egito, que inclui uma igreja e uma mesquita, e uma biblioteca e parque infantil partilhados: “A fraternidade é boa e desejável para o bem da humanidade.” Foto © Copts Today.

 

A fraternidade é um conceito ligado às ideias de liberdade e igualdade. A fraternidade indica que o homem fez uma opção consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que os diferencie e são como irmãos (fraternos). Por princípio, todos os seres humanos são iguais. De certa forma, a fraternidade não é independente da liberdade e da igualdade, pois para que cada uma se manifeste é preciso que as outras sejam válidas e respeitadas.

A fraternidade vem configurada no artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos onde se diz: “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

A fraternidade é, pois, boa e desejável não só para o convívio social, mas também para o bem da humanidade.

A fraternidade expressa a dignidade de todos os seres humanos, considerados iguais e irmãos, assegurando-lhes plenos direitos: sociais, políticos e individuais. Podemos ainda aliar à fraternidade as expressões caridade, solidariedade e compaixão para reforçar o verdadeiro sentido de fraternidade.

O principal alicerce da fraternidade é o amor, essencialmente o amor pelo próximo.

A carta encíclica Fratelli Tutti, do Santo Padre Francisco, vem na melhor altura, uma vez que alerta para o caminho tortuoso que o mundo está a tomar, fruto de medidas e posições populistas de alguns líderes que valorizam e dão prioridade às suas agendas pessoais, em claro prejuízo do interesse e benefício dos seus povos e da humanidade no seu todo. Há que enaltecer a coragem e a visão do Papa sobre este tema tão fraturante nos dias de hoje, agravado pela pandemia provocada pelo vírus da covid-19.

Estas preocupações já estão presentes no Alcorão, Livro Sagrado dos muçulmanos revelado ao Profeta Muhammad (ASSN) no já longínquo ano de 1442 [da Hégira, correspondente ao ano de 622 d.C. ou da era comum].

 

Fraternidade no islão

Uma característica dos crentes, que é tão importante quanto a lealdade e a simples adoração, é a fraternidade e união entre eles. O Alcorão diz que todos os crentes são irmãos uns dos outros. Eles têm os mesmo objetivos e as mesmas intenções, sentem as mesmas coisas e, em consequência, desfrutam de um grande amor e solidariedade entre si. Assim diz o Alcorão a esse respeito:

“Por certo, Deus ama os que combatem em Seu caminho em fileiras, como se fossem uma sólida muralha.” (Alcorão 61:4)

“E segurai-vos, todos juntos, com firmeza à corda de Deus e não vos dividais entre vós; recordai-vos das mercês que Deus vos fez; pois vós éreis inimigos e Ele conciliou os vossos corações e agora mercê da Sua Graça, converteste-vos em irmãos e quando estivestes à beira de um abismo infernal, dele vos salvou. Assim Deus vos elucida os Seus Versículos para que possais ser guiados.” (Alcorão 3:103).

Os crentes possuem valores morais elevados e comportam-se de acordo com esses valores; eles são respeitosos e modestos. É dessa forma que uma fraternidade se forma. No entanto, também existem aspectos que os crentes devem observar, porque, algumas vezes, os erros provocados por eles podem prejudicar a irmandade.

A explicação para isto é que a alma que orienta o comportamento dos crentes deixou de estar alerta. Embora os crentes sejam generosos e tolerantes, a alma de cada pessoa tem um lado fraco e, por isso, deve acautelar-se para não perder o controlo. No caso de uma alma egoísta, invejosa e apaixonada, é ela quem assume o controlo e esses aspectos negativos afetarão o comportamento dos crentes.

Por isso é que o Alcorão adverte acerca da fraternidade. Uma vez que o lado negativo da alma pode desviar o homem, os crentes não devem jamais comportar-se de uma forma que possa, de algum modo, provocar e ofender os outros crentes.

“E diz aos Meus servos que digam sempre o melhor, porque Satanás causa divergências entre eles, pois Satanás é um inimigo declarado do homem.” (Alcorão 17:53)

 

Os irmãos são prioritários

Mesquita Central de Lisboa. Oração. Islão

Oração na Mesquita Central de Lisboa. Foto © CIL

 

No Alcorão, os crentes são desafiados a relacionar-se da melhor maneira possível. O versículo acima também nos diz que Satanás tenta destruir a fraternidade entre os homens, principalmente entre os crentes. Quando em estado de descuido, um crente pode passar por cima de seus irmãos e, por consequência, sentir inveja deles, os quais deveriam ser prioritários. Este tipo de comportamento é, na verdade, uma insurreição contra Deus. Conforme mencionado no Alcorão

“ou invejam seus semelhantes por causa do que Deus lhes concedeu de Sua graça?…” (Alcorão 4:54)

todos os favores concedidos aos homens vêm somente de Deus e a Ele pertencem. Ter inveja deles é questionar o plano de Deus e, além do mais, provoca nos crentes a perda de valor, uma vez que os crentes devem evitar, rigorosamente, a inveja.

“E obedecei a Deus e a Seu mensageiro e não disputeis entre vós, porque fracassaríeis e perderíeis o vosso valor. Sede pacientes, porque na verdade Deus está com os pacientes.” (Alcorão 8:46)

 

Por conseguinte, os crentes devem ser cautelosos, evitando não só a inveja como também qualquer situação que possa provocar esse estado. A sinceridade e a modéstia podem acabar com o perigo da competição. Um outro critério importante que o Alcorão menciona é a penitência, que deverá ser praticada com alegria.

“Os que antes deles residiam (em Medina) e abraçaram a Fé mostram afeição por aqueles que migraram para junto deles e não nutrem inveja alguma em seus corações, pelo que (tais migrantes) receberam (de despojos); por outra, preferem-nos, em detrimento de si mesmos. E quem se guarda de sua própria mesquinhez, esses serão os bem-aventurados.” (Alcorão 59:9)

 

A inveja, a competição e a disputa são os três obstáculos mais importantes que impedem a fraternidade e a união entre os crentes. Toda a espécie de competição provocada pelas paixões diminui o amor e a devoção. Tal comportamento que contradiz o Alcorão, prejudica o espírito dos crentes. Existem muitas formas pelas quais os crentes podem ganhar a satisfação de Deus para com eles. Portanto, não faz qualquer sentido entrar numa disputa injusta e despropositada, ou sentir inveja. Uma vez que o verdadeiro objetivo do crente deve ser o de agradar a Deus, não deveria haver qualquer tipo de disputa porque todos podem ganhar o prazer de Deus sem que seja necessário confrontar-se com os outros. Assim, os crentes não devem esquecer que são aliados, protetores e socorredores uns dos outros, da mesma forma que os órgãos do corpo, e por isso devem olhar para o sucesso do irmão como se fosse o seu próprio. Há muitos versículos no Alcorão que falam sobre a união e fraternidade entre os crentes.

“E aqueles que chegaram depois dizem: Ó Senhor nosso, perdoa-nos, assim como também aos nossos irmãos, que nos precederam na Fé e não infundas em nossos corações rancor algum pelos crentes. Ó Senhor nosso, certamente Tu és Compassivo, Misericordiosíssimo.” (Alcorão 59:10)

 

Quando os crentes não se apoiam, surge a tirania

A discórdia e a controvérsia entre os crentes mostram a dissensão entre eles, destroem a força deles e fortalecem os infiéis. No Alcorão está dito que, quando os crentes não se apoiam uns nos outros, surge a tirania.

” E os que renegam a Fé são, igualmente, protetores uns dos outros; e se vós não o fizerdes (protegerdes uns aos outros), haverá intriga sobre a terra e grande corrupção” (Alcorão 8:73)

 

Em muitas passagens, o Alcorão faz considerações a respeito da fraternidade e união entre os crentes:

“Não sejais como aqueles que se dividiram e discordaram, depois de lhes terem chegado as evidências, porque esses sofrerão um severo castigo.” (Alcorão 3:105)

“Perguntar-te-ão sobre os espólios. Dize-lhes: Os espólios pertencem a Deus e ao Mensageiro. Temei, pois, a Deus, e resolvei fraternalmente as vossas querelas; obedecei a Deus e ao Seu Mensageiro, se sois crentes.” (Alcorão 8:1)

 

Os crentes são obrigados a ter misericórdia e clemência para com os outros crentes e a serem extremamente modestos. Qualquer outro comportamento diferente disso, decididamente não é característica do verdadeiro fiel. A arrogância, a inveja e a discórdia pertencem aos infiéis. Portanto, o crente que age assim por causa do lado ruim de sua alma, deve pedir a proteção de Deus, arrepender-se e corrigir-se. De contrário, Deus o substituirá por um grupo superior de pessoas, como se lê neste versículo:

“Ó vós que credes! Aqueles dentre vós que renegarem a sua religião, saibam que Deus fará chegar em seu lugar, um povo que Ele amará e que O amará; e que será humilde para os crentes e severo para com os descrentes; combatendo pela causa de Deus e não temerão censura de ninguém. Tal é a graça de Deus, que a concede a quem Ele quer. Deus é Munificente, Onisciente.” (Alcorão 5:54)

 

As boas ações

Mesquita Central de Lisboa. Alojamento sem-abrigo

Alojamento provisório para pessoas sem-abrigo com teste positivo de covid-19, na Mesquita Central de Lisboa: as boas ações são “os atos e comportamentos que estão de acordo com a religião e com a Vontade de Deus”. Foto: Direitos reservados.

 

O conceito de “boas ações” é frequentemente citado no Alcorão e representa todos os atos e comportamentos que estão de acordo com a religião e com a Vontade de Deus.

A salvação do homem não é alcançada só por intermédio da Fé mas, também, pelas boas ações, que são sinais de Fé. Dizer simplesmente “Eu creio” não é suficiente para se conseguir a salvação. Em relação a isso, assim diz o Alcorão:

“Porventura, pensam os homens que serão deixados em paz, só porque dizem: Cremos!, sem serem postos à prova? Havíamos provado seus antecessores. E, em verdade, Deus sabe dos que dizem a verdade e sabe dos mentirosos.” (Alcorão 29:2-3)

 

Este teste dá-se através das boas ações, porque são as ações que indicam a perseverança, a firmeza, a determinação, a lealdade, isto é, a força da Fé.

São diversas as ações a que o Alcorão se refere: divulgar a religião às pessoas, esforçar-se pela prosperidade e benefício dos povos, tentar a melhor compreensão do Alcorão, resolver qualquer tipo de problema, seja pessoal ou social, manter as casas de Deus, tudo isso são boas ações importantes. As adorações islâmicas como a oração, o jejum, gastar pela causa de Deus, a peregrinação, são todas ações importantes.

“A virtude não consiste só em que orienteis vossos rostos até ao levante ou ao poente. A verdadeira virtude é a de quem crê em Deus, no Dia do Juízo Final, nos anjos, no Livro e nos Profetas; de quem distribui seus bens em caridade por amor a Deus, embora goste muito deles, aos parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos, imigrantes e em resgate de cativos (escravos). Aqueles que observam a oração, pagam o zakat, cumprem os compromissos contraídos, são pacientes na miséria e na adversidade e em tempo de guerra. Esses são os verdadeiros, os que temem a Deus.” (Alcorão 2:177)

 

Vem a propósito referir o encontro de Abu Dhabi (fevereiro de 2019) entre o Papa Francisco e o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com resultados muito positivos e com pontos de vista de grande convergência, que também inspirou o Papa na elaboração da Encíclica.

“Ó homens! Por certo, Nós vos criamos de um varão e de uma varoa, e vos fizemos como nações e tribos, para que vos conheçais uns aos outros. Por certo, o mais honrado de vós perante Deus é o mais piedoso. Por certo Deus é Onisciente, Conhecedor” (Alcorão 49:13)

Continuar a ler...

 

Um caderno para imprimir e usar

Sínodo 2021-23

Um caderno para imprimir e usar novidade

Depois de ter promovido a realização de dois inquéritos sobre o sínodo católico 2021-23, o 7MARGENS decidiu reunir o conjunto de textos publicados a esse propósito num caderno que permita uma visão abrangente e uma utilização autónoma do conjunto. A partir de agora, esse caderno está disponível em ligação própria.

Esta é a Igreja que eu amo!

Esta é a Igreja que eu amo! novidade

Fui um dos que, convictamente e pelo amor que tenho à Igreja Católica, subscrevi a carta que 276 católicas e católicos dirigiram ao episcopado português para que, em consonância e decididamente, tomassem “a iniciativa de organizar uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This