É talvez uma das memórias mais antigas (e felizes) que tenho da minha infância, quando vivia na Amadora: a de caminhar alegremente com os meus pais, avenida fora, até à paragem do autocarro que nos deixava em Belém, onde apanhávamos o barco para atravessar o Tejo rumo à Trafaria, e depois mais um autocarro para chegar ao tão ansiado destino, a praia. Nessa altura, não tínhamos ainda carro, e o trajeto, desde que saíamos de casa até pisar a areia da Costa da Caparica, demorava certamente um valente par de horas (e era feito com sacolas e chapéu de sol pendurados no ombro). Mas compensava. Oh, se compensava!
Mais tarde, quando os meus pais tiveram oportunidade de comprar um carro, lembro-me bem do destino da primeira viagem que nele fizemos rumo àquelas que seriam as nossas primeiras férias fora da Grande Lisboa: a Costa Vicentina.
A partir daí, em praticamente todos os anos que se seguiram, duas semanas das nossas férias de verão foram passadas algures entre as praias da Ilha do Pessegueiro e da Arrifana, ou repartidas por várias, qual delas a mais bonita. Lembro-me bem da ansiedade com que aguardava por esses dias junto ao mar! Já na minha juventude, aventurámo-nos mais para sul, deixando-nos encantar pela cidade de Lagos e pela sua interminável Meia Praia, que aprendemos a amar mesmo nas tardes de nortada.
Hoje, tenho o privilégio de viver perto da praia e estou certa de que serão junto ao mar (ou mesmo dentro dele!) algumas das mais felizes memórias de infância dos meus filhos. Talvez por isso, os olhos se me tenham marejado (e passo a espécie de pleonasmo) quando, nesta quarta-feira, 19 de novembro, na habitual ronda pelos principais jornais, se depararam com a seguinte notícia: “Mudanças climáticas: Quase metade das praias do mundo pode desaparecer até 2100”.
Reli o título, desejando não ter lido bem à primeira: é que “quase metade” era demasiado e “até 2100” dentro de tão pouco tempo! Mas não se tratava de fake news. A notícia dava conta de um estudo publicado na revista Nature Climate Change, que analisou dados de satélite dos últimos 35 anos e projetou que, dependendo do cenário de emissões de gases de efeito estufa, entre 25% e 48% das praias arenosas em todo o mundo sofrerão uma erosão severa. O principal motor desse fenómeno é a subida do nível do mar, impulsionada pelo derretimento das calotas polares e glaciares.
Nada de surpreendente, na verdade. O que é surpreendente é o facto de, perante este e outros sinais e evidências científicas de que a principal causa das alterações climáticas e das suas dramáticas consequências é a atividade humana, tantos continuem indiferentes a elas – talvez porque ainda não os afetaram diretamente? – e insistam em manter as opções ou o estilo de vida que contribui para que o planeta se aproxime cada vez mais do chamado “caos climático”.

Entre 25% e 48% das praias arenosas em todo o mundo sofrerão uma erosão severa. Foto © Pexels
Em 2015, ao publicar a profética encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco fez questão de alertar o mundo inteiro, e em particular os cristãos, para os gemidos da Terra e dos mais pobres e vulneráveis, que com ela gemem também. Convidou todos a cuidar de uma Casa que é comum, mostrou-nos o caminho rumo à ecologia integral, incentivou-nos a trilhá-lo juntos.
Não tenho a mínima dúvida de que ele queria que a Laudato Si’ fosse um documento com impacto, que impulsionasse o mundo à ação. Coincidência ou não, o Acordo de Paris sobre o Clima seria assinado nesse mesmo ano, tornando-se fundamental para a coordenação de esforços globais no combate às mudanças climáticas, e os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU seriam renomeados, passando a designar-se “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.
O Papa Francisco queria particularmente que os cristãos compreendessem que cuidar da Casa Comum é um compromisso que brota da sua fé e sentissem a urgência de assumir esse compromisso.
Mas creio que a Laudato Si’ não teve o efeito que ele esperava ou desejava – tanto que, em 2023, publicou a exortação apostólica Laudate Deum, alertando que “os sinais da mudança climática” continuavam a manifestar-se e eram “cada vez mais evidentes” e que a razão por trás deles estava num “facto inegável: os enormes progressos conexos com a desenfreada intervenção humana sobre a natureza nos últimos dois séculos”. “Vejo-me obrigado a fazer estas especificações, que podem parecer óbvias, por causa de certas opiniões ridicularizadoras e pouco racionais que encontro mesmo dentro da Igreja Católica”, justificava o Papa.
Dez anos passaram sobre a Laudato Si’, dois sobre a Laudate Deum, e arrisco-me a dizer que só agora a Igreja Católica parece estar (finalmente!) a despertar e a agir. A sua presença na COP30, que dentro de pouco termina em Belém, no Brasil, é prova disso mesmo. “Você não vai acreditar”, dizia, com visível entusiasmo, um padre católico a um jornalista da UCA News que tem estado a fazer a cobertura da cimeira. “Oito cardeais, 47 bispos e mais de 100 atores católicos estão aqui. Esta é a maior representação [de sempre] da Igreja numa COP.”
Essa participação foi coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e apoiada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano, e resultou numa delegação da Igreja a envolver-se ativamente em discussões sobre a transição justa, o balanço global e o artigo 6 do Acordo de Paris. “As organizações católicas aqui estão a focar-se na dívida ecológica e no cancelamento da dívida. Os países desenvolvidos devem ser responsabilizados pelo que fizeram. Isso não é caridade, é justiça”, sublinhou o mesmo padre.
O presbítero em causa, Rohan Dominic, foi superior regional dos missionários Claretianos no Sri Lanka, tendo trabalhado em toda a Ásia. E reconhece que “embora os impactos climáticos sejam severos em toda essa região, o nível de compreensão pública e de envolvimento político permanece baixo. E mesmo entre o clero, a ação climática é frequentemente vista como limpeza de praias ou plantação de árvores.”
Para o missionário, não há dúvida de que essas ações são boas, mas não são suficientes: a Igreja tem de “ir além de gestos simbólicos” e da “exortação moral” e “assumir um papel ativo na definição da política climática global”, defende. Foi também esse o apelo deixado por Francisco na encíclica Laudato Si’.

O Papa Francisco queria que os cristãos compreendessem que cuidar da Casa Comum é um compromisso que brota da sua fé. Foto © Johan Bergström-Allen www.carmelite.org
Esta quarta-feira, na sua catequese semanal, o Papa Leão XIV retomou o apelo de Francisco, lembrando que “cultivar e cuidar do jardim é a tarefa original” confiada por Deus ao homem e que “se não formos guardiães do jardim da criação, acabaremos por nos tornar seus destruidores”. Na sua alocução, Leão XIV citou mesmo a Laudato Si’ e insistiu na necessidade de “uma conversão ecológica, que os cristãos não podem separar daquela inversão de rota que seguir Jesus exige deles”. Uma conversão “que começa no coração e é espiritual”, mas que depois “modifica a história, compromete-nos publicamente, ativa a solidariedade que desde já protege pessoas e criaturas dos apetites dos lobos, em nome e pela força do Cordeiro Pastor”.
De facto, parece haver cada vez mais cristãos em todo o mundo a escutar e a responder a esse apelo. No Sudão do Sul, no meio de um cenário de conflito e de crise humanitária que obriga milhares de pessoas a deslocar-se, as irmãs salesianas lideram um projeto pioneiro, que recorre a garrafas de plástico usadas como material de construção de casas. Na Índia, as Irmãs de Notre Dame em Bangalore ensinaram os alunos das suas escolas a secar sementes de manga para distribuir aos agricultores, apoiando o reflorestamento e a biodiversidade. No Senegal, as irmãs da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Maria lideraram uma semana de espiritualidade ecológica, incentivando a sua comunidade a conectar-se com a natureza por meio da oração e da contemplação, além de promover a preservação de habitats naturais ao longo da costa senegalesa. E 62 instituições católicas e protestantes de diferentes países anunciaram esta terça-feira o seu desinvestimento total em empresas de combustíveis fósseis.
Também por cá houve recentemente várias respostas positivas, e o 7MARGENS deu conta de algumas delas: é o caso dos manifestos e círculos de silêncio do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel, da campanha dos Jesuítas “Fé em ação na COP30”, do compromisso da Cáritas Diocesana de Lisboa para reduzir a sua pegada energética, ou do lançamento do programa ecuménico Eco Igrejas Portugal.
Ainda assim, o progresso parece demasiado lento quando comparado com a velocidade a que se intensifica a crise climática. Como católica que frequenta a igreja quase todos os domingos, não me recordo de ouvir um único padre mencionar a Laudato Si’ em nenhuma homilia – ou nos avisos finais da missa, vá… – ao longo dos últimos dez anos. Nem quando, consecutivamente, um novo recorde de temperatura foi batido. Ou quando mais um tufão, incêndio ou cheia devastou uma parte do planeta. Ou ainda quando se percebeu que, se todos no mundo consumissem como os portugueses, antes de chegar a meio do ano já teríamos atingido o Dia de Sobrecarga da Terra, data a partir da qual o planeta estaria a devorar recursos reservados para o ano seguinte.
Passados dez anos, quantos de nós não a terão sequer lido ainda?
Há pouco mais de um mês, ao participar numa conferência internacional que assinalava o décimo aniversário da Laudato Si’, o Papa Leão XIV, terminava o seu discurso com a seguinte provocação aos participantes: “Deus perguntar-nos-á se cultivámos e cuidámos bem deste mundo que Ele criou, para benefício de todos e das gerações futuras, e se cuidámos dos nossos irmãos e irmãs. Então, qual será a nossa resposta?”.
Não sei, mas suspeito… De resto, se já não houver praias, nem será preciso responder.

Cartaz com frase do Papa Leão XIV, em manifestação do Movimento Laudato Si’ durante a COP30. Foto © Vatican Media










