«As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.»
(epígrafe das edições da Fundação Calouste Gulbenkian)
Karl Jaspers (1906-1975), filósofo e humanista alemão, foi, segundo Hannah Arendt, sua aluna, «uma luz nas trevas» durante a catástrofe nazi. Segundo Arendt, «rejeitou o carácter absoluto de qualquer ideologia ou doutrina preferindo situar-se num «relativismo universal». (1)
Jaspers descobre «um eixo histórico», passando pela Índia, China, Pérsia, Palestina, Antiga Grécia, entre 800 a 200 a.C., não havendo ligações entre esses polos civilizacionais.
O Oriente abraça a humanidade e todo o planeta
Essas zonas geográficas desenvolveram diversas inspirações humanistas «cuja diversidade de pensamento se cruza e se comunica espantosamente entre si», segundo Jaspers.
O filósofo considera que o nascimento de Jesus Cristo foi um acontecimento fundamental moldando o Ocidente, mas não foi o único: olha para outras civilizações e conclui que o Oriente abraça a humanidade e todo o planeta.
A Regra de Ouro
Esses sábios da era axial colocaram a moralidade – a compaixão – no centro do seu ensinamento:
«Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.»
É a Regra de Ouro, o princípio comum a todas as religiões. Dever prioritário numa sociedade que defenda a dignidade do ser humano e de todos os seres: o comportamento ético; a atenção a si mesmo no quotidiano, na relação com os outros.
A era axial é em geral definida como o fim da pré-história e o desenvolvimento das grandes civilizações mundiais: entre uma grande diversidade de factores, é relevante o lento desaparecimento das mitologias, dando lugar à fundação das novas religiões, surgindo a concepção de um Deus transcendente. (2)
Somos criaturas em busca de sentido

Vigília quaker em Londres: “Somos criaturas que interrogamos a nossa consciência e consequentemente passamos a vida em busca de sentido. Foto © Quakers in Britain
Na «era axial» essa realidade humana tornou-se significativa.
Segundo Jaspers, havia algo por parte desses mestres «que actuou sobre a atitude interior das pessoas, ao longo dos milénios». Muitos tornaram-se seus discípulos e muitos outros admiraram e apreciaram a suas vidas e ensinamentos.
Na verdade, somos criaturas que interrogamos a nossa consciência e consequentemente passamos a vida em busca de sentido.
Determinados mestres espirituais e personalidades destacam-se nas diversas civilizações:
Na Índia, os ensinamentos dos Upanishades; Buda Sakyamuni. Na China, Confúcio; Lao-Tsé. Na Pérsia, Zaratustra.
Na Antiga Grécia, Homero; os filósofos (os pré-socráticos, Sócrates e outros); os dramaturgos das antigas tragédias gregas.
Numa época mais tardia, na Palestina, os profetas; posteriormente, Jesus de Nazaré; finalmente, o profeta Maomé, no século VII d.C.
Todos eles ensinavam, baseando-se em experiências de vida e na correcta atitude interior a tomar, cultivando a benevolência, a amabilidade, a empatia, a compaixão com todos os seres. Mas não impunham dogmas, nem expunham conteúdos eruditos e metafísicos. «Evidenciavam, sim, o comportamento individual do ser humano na sociedade, o empenhamento moral e a relação compassiva com todos, sem discriminação». (2)
Concluíram que a prática do yoga, da meditação, da oração, com certa constância, desenvolviam a consciência e a responsabilidade de cada ser humano.
Perguntando alguém a Buda se acreditava em Deus, aquele respondera «com o silêncio».
Sócrates educava por meio do diálogo, obrigando o discípulo a pensar, a interrogar-se sobre o assunto em debate, ensinando a busca, a solução a fim daquele chegar à verdade e à autonomia.
Encontramos em Jesus, ao longo dos Evangelhos, este método de ensino, através das parábolas e outras referências ao quotidiano; tal como Jesus, Sócrates foi também condenado injustamente com a pena de morte e evitou a fuga ou uma defesa adequada.
«É nas épocas de crises espirituais e sociais» – como a que atravessamos agora, a nível global, que «devemos regressar a esses sábios em busca de guia e sentido», escreve Karen Armstrong (2).
Mestres que resplandeceram nas trevas
Analisemos algumas personalidades ou mestres espirituais que ensinaram – e ensinam – a humanidade. Aqueles que resplandeceram nas trevas e estão mais próximos de nós. Uns, devido a diversos factores culturais, tendo certo impacto no Ocidente, como é o caso do budismo, mas também o hinduísmo e o islão; por outro lado, aquilo que nos une, como cidadãos europeus: a cultura judaico-cristã, quer sejamos ou não judeus ou cristãos.
O budismo

Maitreya, o Buda do Futuro (século II). Tokyo National Museum. Foto reproduzida da Wikimédia.
Siddharta Gautama, herdeiro de um pequeno reino no norte da Índia, abandonou furtivamente o palácio paterno, despediu-se da jovem mulher e do filho recém-nascido, ambos adormecidos; despiu as suas roupas, vagueou pela Índia e tornou-se um sadhu.
Iniciou assim um longo percurso a fim de procurar o «Caminho da Verdade», isto é, a Iluminação, passando por uma profunda transformação interior. Tornando-se assim um Buda, o Iluminado, o Desperto.
Após várias tentativas sem sucesso – aprendizagem junto de mestres experimentados, prática do ascetismo – resolveu fazer meditação e não sair dessa postura até atingir a Iluminação. Tal facto aconteceu, mas antes foi tentado por Mara, cuja presença o perturbava constantemente, em devaneios, em sonhos.
Transcender o Egoísmo
Evidentemente que as civilizações e culturas são muito diferentes, mas a essência é a mesma: transcender o egoísmo, tornar-se compassivo com todas as criaturas.
Também Jesus, muito depois, percorreu um caminho com algumas semelhanças. Começou por se juntar ao grupo de discípulos de João Baptista, experimentando a Revelação no momento do seu baptismo: «Tu és o Meu Filho amado, em ti, eu me agradei» (Marcos 1, 10-11). Recolheu-se no deserto, foi tentado pelo Diabo a abandonar o seu projecto místico. Mas triunfou e tornou-se o Filho amado de Deus.
Posteriormente, foi aclamado como Messias (João 12, 12-15) – não o vingador, mas o servo de Javé profetizado por Isaías (53): «…tomou sobre si as nossas doenças/carregou as nossas dores… foi maltratado e não abriu a boca: como cordeiro levado ao matadouro… porque Ele próprio entregou a sua vida à morte…». Depois elevou-se aos céus, ressuscitado (Lucas 24, 50-52).
Buda ensinou o dharma (o Caminho). Jesus cercou-se dos seus discípulos e proclamou: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (João 14, 6). Buda achava que qualquer ser humano podia realizar a sua transformação interior; Jesus ensinando os seus discípulos, proclamou: «Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Muda-te daqui para acolá, e ele mudar-se-á; e nada vos será impossível» (Mateus 17, 21); «Minha filha, a tua fé te salvou, vai em paz e fica sarada do teu mal» (Marcos 5,34).
Após a morte de Buda, os seus ensinamentos levados pelos discípulos espalharam-se na Índia, Tibete, Ásia Central, China, Japão, Coreia, Sri Lanka e Sudeste asiático.
O budismo zen

Ginkaku-Ji em Quioto, Japão: “Somos a primeira civilização que não sabe mais qual o sentido da vida…. Isto nunca tinha acontecido antes.” Foto reproduzida da Wikimédia
«Uma flor cai, mesmo se nós a amarmos; uma erva daninha cresce, mesmo se nós não gostamos dela: é a nossa vida; assim não há problemas. Aceitar as ervas daninhas e a flor.» (Dogen) (3)
A filosofia budista zen, baseada grosso modo no paradoxo, é complexa para um ocidental, habituado que está às oposições de ideias.
O fundamental é a prática, Zazen, baseada num determinado tipo de meditação. A postura do lótus, do yoga, é relevante pois determina de um modo mais sólido a posição correcta.
Postura e respiração
Postura e respiração são dois pontos essenciais da prática: a coluna direita, fazendo na última ou penúltima vértebra uma pequena cavidade, sustendo, assim, sem esforço, toda a coluna; sentado nessa postura de yoga – de um modo mais ou menos correcto – a bacia desce naturalmente, facilitando a respiração abdominal – inspiração profunda, três dedos abaixo do umbigo – elevando-se ela suavemente para cima e expirando pelas narinas e assim sucessivamente. Concentrar-se nessa respiração profunda, num primeiro momento e retornar a ela quando nos distraímos com pensamentos. Naturalmente, depois, é bem mais lenta, a respiração.
É este o caminho – muito repetido, com calma, pacientemente, sem nada desejar – para o equilíbrio físico e mental. Recomeçar, sempre recomeçar.
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«… O que é que fazemos na Terra?…»
(André Malraux, 1901-1976)
Às três componentes essenciais do cérebro: o neocórtex, o paleocórtex e o diencéfalo ou tronco cerebral, acrescentamos o hemisfério esquerdo, em sintonia com o intelecto e o hemisfério direito, com a intuição não-verbal (4).
No tempo que vivemos, já não há sintonia entre a inteligência e a intuição. Há um desequilíbrio entre o hemisfério direito e esquerdo do cérebro: entre a razão «que é cega» e um discurso que leva a «acções sem sentido, incontroláveis». Segundo o mesmo autor, citando vários especialistas, esta situação leva a doenças mentais e fraquezas psicossomáticas.
É esta a pergunta de André Malraux, que comenta, um pouco antes de morrer: «não sei». Em geral, é a resposta das pessoas. «Somos a primeira civilização que não sabe mais qual o sentido da vida…. Isto nunca tinha acontecido antes.» Se estivéssemos conscientes da realidade, diríamos: «Salvar a Terra e a Humanidade.» (4)
O que fazer?

“Procurar o silêncio em nós, no corpo e no espírito, ambos sintonizados e não opostos.” Foto © Maria Eugénia Abrunhosa.
Desporto, passear pela Natureza, fazer yoga, praticar meditação… Começar a ter consciência do nosso corpo. Neste caso específico, procurar o silêncio em nós, no corpo e no espírito, ambos sintonizados e não opostos.
A imobilidade física do zen é um calmante psíquico que conduz à serenidade. Ainda que se pratique uma outra religião, a prática do zen não é incompatível.
O Oriente e em particular o Japão, desenvolve e protege a cultura do silêncio; no Ocidente, foi reprimida essa força fundamental, para viver em harmonia com tudo e todos (4). É urgente educar a linguagem, os ruídos perturbadores, não endeusar o uso do telemóvel: é infernal, triste, ver um adolescente – até crianças… até velhos que poderiam ter mais juízo – agarrados àquele, alheios a tudo o que se passa à volta, sem nada ver e ouvir em todos os espaços e lugares.
Ser Verdadeiro consigo mesmo
Todo o ser humano aspira à harmonia: «existe uma parcela de eternidade em nós». Mas nunca é visto porque fazemos parte dela. (4)
– «O que é a verdade?», perguntou Pôncio Pilatos a Jesus. E Cristo calou-se.
«Mais do que falar sobre a verdade e muitas vezes até impô-la, será melhor ser, tornar-se verdade, isto é, ser verdadeiro.» (4)
Seguem-se alguns comentários de mestres do budismo zen: (5)
1.«Estudar o budismo não é estudá-lo, mas estudarmo-nos a nós próprios; estudarmo-nos a nós próprios é esquecermo-nos; esquecermo-nos é entrar na verdadeira realidade» (Dôgen).
- Um monge perguntou ao mestre Yôshû: «Que espécie de coisa é o meu espírito?» Yôshû perguntou ao monge: «Já jantaste?»; o monge respondeu que sim. Yôshû respondeu-lhe: – «Então vai lavar a tua tijela». «Esquecer-se de si mesmo é viver o instante presente, ‘aqui e agora’.»
- «Impossível definir o que está para além das palavras… deveis abandonar a prática fundada no conhecimento intelectual, correndo atrás das palavras; (…) tereis de alterar o modo de ser para o interior, a fim de iluminar a vossa verdadeira natureza. Apagar-se-ão eles mesmos, o corpo e o espírito e o vosso verdadeiro rosto aparecerá» (Dôgen).

«Do ponto de vista cósmico, não há separação; há simplesmente uma perpétua mudança.» Foto © Association Zen Internationale.
Explicação de alguns pensamentos de mestres (pelas autoras da obra citada):
«O pensamento individual distingue o tempo e o espaço, a vida e a morte. Mas do ponto de vista cósmico, não há separação; há simplesmente uma perpétua mudança.»
«Tudo existe sem existir; tudo só existe na mudança e para ela. Mas o poder cósmico fundamental, esse é eternamente imutável. Não nascido nem criado, sem começo nem fim, não aumenta no momento do nosso nascimento nem diminui quando morrermos.»
O esquecer-se de si mesmo é viver o instante presente, «aqui e agora.» (5)
Tudo está sempre em mudança
«O que é um espírito capaz de conceber um cérebro capaz de produzir um espírito?»
Edgar Morin, 105 anos; Método, 1921, tomo 3
«A nossa inteligência ainda não chegou sequer a desabrochar, a nossa consciência é ainda bárbara… as nossas possibilidades espirituais ainda se encontram subdesenvolvidas, as civilizações, até ao momento presente, apenas permitiram desenvolvimentos unidimensionais…» (4).
Carl-Gustav Jung (1875-1961) pensa que «Esse espírito discorre de um «saber absoluto».
Mais tardiamente, um certo número de cientistas, referem uma universal mind (espírito universal). David Bohm (1917-1992), por exemplo, fala de «uma energia inteligente». Outros físicos chamam-lhe «saber cósmico».
Para o I Ching «o silêncio é a contemplação, imagem do vento que sopra sobre a terra. Ele indica o poder da personalidade superior que se encontra em cada um de nós e que para se manter nobre, deve ficar inactiva, pacificada.»
«É mesmo por essa via – o silêncio – que nós devemos tentar compreender tudo» (Huang Po) (4).
A Impermanência

«Encontrar a existência perfeita através da existência imperfeita: no fim da chuva ouvimos a ave cantar…mesmo na neve espessa, vemos romper as primeiras flores e novos rebentos…». Foto reproduzida da Wikipédia.
A impermanência, a partir de Thich Nhat Hanh (6) – Em diálogo:
- «Transformação em cada instante»: Serei eu, este rapaz de 16 anos?… agora tenho 70 anos. Aqui na foto serei mesmo eu? Tão diferente…
«Sim, sou diferente, mas se ele não existisse, eu não estava aqui a observá-lo. Sou uma continuação… tal como a chuva é continuação de uma nuvem. Mudou a forma, alterou-se, transformou-se.»
– O limoeiro está em flor: «Se olharmos profundamente, veremos que os frutos estão lá. Falta uma condição: o tempo.»
– Uma caixa de fósforos: vemos a chama? «Se olharmos profundamente vemo-la. Falta uma condição: abrimos a caixa, tiramos um fósforo e eis que ela surge porque há oxigénio.» Para a chama se manifestar, foi necessária a nossa acção, a presença do oxigénio.
- «Ser e Não-Ser»
– Este lápis está aqui, no meu lado direito; estará sempre aqui à direita? «Corto-o ao meio: agora está à direita e à esquerda.»
«Partidos políticos: há os da direita e os da esquerda; se há da direita, há também da esquerda e vice-versa». Uns não existem sem os outros.
- – «Nada nasce nem morre; só se manifesta.» Mas de onde vem a chama? Qual é a sua origem?… O que se passa depois da morte?… Onde está aquele/aquela que eu perdi?… De onde vem o cosmos, o homem, o mundo?
«Criar significa: partindo do nada, algo se obtém. Prefiro falar em manifestação»:
- «A Manifestação»
«Esta muda de forma. Se compreendermos as nossas vidas e o cosmos como uma manifestação, tal facto dá-nos imensa paz.»
«Nada nasce nem morre. Só se manifesta. Se olhardes profundamente, compreendereis a Criação como manifestação.»
Deus é a última dimensão: «Deus transcende todas as noções e conceitos. Não é pessoa nem não-pessoa.»
- «Não há causa pura, tudo depende de outros para se manifestar»: a flor depende de: sol, nuvem, chuva, minerais, terra, jardineiro. «Nada se cria a partir do nada». (6)
Três importantes ensinamentos de Buda

“Importante é estar «aqui e agora», cuidar um do outro reciprocamente”. Foto © Association Zen Internationale.
- «O Dharma é o Caminho; 2. impermanência: nada fica idêntico durante dois momentos consecutivos; 3. nirvana: extinção de todos os conceitos.
Se olhardes profundamente a impermanência, tal facto conduz-nos ao não-eu.»
Então, para quê a cólera, o ódio?…
«Importante ver as emoções negativas como «impermanentes»:
Estou zangada com ela – por isto e por aquilo… há disputa, voz alta … «fecho os olhos, penso profundamente: daqui a 300 anos, onde estás tu? Onde estou eu?…».
Aqui e Agora
A cólera desvanece-se. Importante é estar «aqui e agora», cuidar um do outro reciprocamente; cuidar de quem precisa: é aqui e agora. O funeral serve mais para os vivos do que para quem faleceu.
Uma piada conhecida no budismo: «A que se assemelhava o vosso rosto antes do nascimento da vossa avó?»
«O momento da concepção é o momento da vossa continuação: você esteve sempre lá, mas só aí se manifestou (metade pai, metade mãe, por exemplo). O momento do parto é somente o instante de saída do ventre materno.» (6)
Israel e a Era Axial

Dois judeus sefarditas a ler a Torá: «Amarás o teu vizinho – o mais próximo de ti – como a ti mesmo: o grande princípio da Torá». Foto: Direitos reservados. Foto Sagie Maoz/Wikimedia Commons
A teóloga Karen Armstrong descreve exaustivamente os acontecimentos políticos e religiosos na região da Ásia Menor que deram origem a Israel. (8)
Conclui-se que foram vividos séculos tumultuosos, violentos: devastações e constantes guerras entre os diversos povos.
Conceito do Deus único e a acção dos Profetas
O século VIII a.C. abriu lentamente novos caminhos: desenvolvimento da arte da escrita na bacia do Mediterrâneo e consequentemente no mundo semítico… a acção dos Profetas foi a base desse Renascimento, baseada no conceito de um Deus único – Yhaveh.
Terrível era a vida da maioria, dos camponeses: trabalho árduo e forçado; elevadíssimo, o pagamento dos impostos.
Segundo a mesma autora, são fundamentais nessa época os profetas Amós, Oseias, Isaías (800-700 a.C.) (8).
Amós: Aquele que criou as Plêiades e o Órion, que muda as trevas em aurora… o seu nome é: o Senhor (…) eles [os ricos] detestam o homem que fala com rectidão… (…) Portanto, já que oprimis os pobres / e lhes exigis tributo do trigo (…) sois opressores do justo, aceitais dádivas e violais o direito dos pobres (…). 5. (…) Assim fala o Senhor: «Eu aborreço e rejeito as vossas festas; elas desgostam-me/ E não sinto nenhum gosto nos vossos cultos/ Se me ofereceis os vossos holocaustos e as vossas ofertas/ não os aceito/ Nem ponho os Meus olhos/ nos sacrifícios das vossas vítimas…»
Oseias: (…) Ouvi as palavras do Senhor, filhos de Israel/ porque vai entrar em litígio com os habitantes da Terra/ Porque não há verdade nem misericórdia… juram falso, matam, assassinam/ Roubam e vertem sangue sobre sangue (…) / os animais selvagens, as aves do céu/ Até os peixes do mar perecem…»
Na obra já citada de Armstrong, (8), privilegia-se o grupo religioso dos fariseus pelo desenvolvimento da espiritualidade. Alguns exemplos:
Hillel (80 a.C-30 d.C.) era «talvez», segundo Armstrong, o rabino mais relevante do grupo dos fariseus. Para ele e os discípulos que o seguiam, «a Regra de Ouro era a síntese da Torá» – o resto, eram só comentários:
– Aprendei-a: «O que é odioso para ti, não o faças ao teu semelhante.»
– «Amarás o teu vizinho – o mais próximo de ti – como a ti mesmo: o grande princípio da Torá»: Rabino Akiba, assassinado pelos romanos em 132 d.C.
Gamaliel, sobrinho e discípulo de Hillel, fariseu e mestre de Paulo de Tarso, defendeu os discípulos de Jesus em pleno Sinédrio (Actos dos Apóstolos, 5, 33-39).
Nenhuma teologia era definitiva
Os rabinos possuíam também uma visão alargada de Deus pois achavam que este estava também presente em lugares humildes, fora do Templo.
Quanto ao estudo, o judaísmo rabínico considerava-o «um encontro dinâmico com Deus». (8) Investigar era procurar ir mais além do texto-origem. Por este facto, a Escritura tornava-se flexível; não se fechava em princípios dogmáticos, indiscutíveis.
Para os rabinos e outros estudiosos da Escritura, a Presença do inefável e da transcendência variava de acordo com a compreensão e sensibilidade de cada pessoa. Nada, pois, podia ser definitivo. Consequentemente usavam outros vocábulos para se referirem a Deus: Shekhinah (presença divina); Espírito Santo. (8)
Jesus e o grupo dos fariseus

Ícone representando Jesus, o bom Pastor: «Para ele, ninguém ficava excluído». Foto: Direitos reservados.
Pensemos sobretudo na passagem do evangelho de Mateus em que Jesus critica acerbamente os fariseus (15, 1-20).
Armstrong considera que esse Evangelho apresenta um «pendor antisemita», reflectindo a tensão entre judeus e cristãos, principalmente nos anos 80 d. C.; «noutras passagens encontramos Jesus a discutir com fariseus – é amigável, a discussão, ou então reflecte desacordo em relação à escola de Shammai, mais rígida» (8).
Para Jesus, ninguém ficava excluído
Albert Nolan acrescenta que «se Jesus se tivesse recusado a argumentar, a discutir e a misturar-se com os fariseus, poder-se-ia acusá-lo de excluí-los ou tratá-los como estranhos» (9).
Ora encontramos inúmeras situações de conversa afável entre eles e Jesus: «Para ele, ninguém ficava excluído» (9).
«Os fariseus acreditavam na vida depois da morte; na ressurreição dos mortos e num futuro Messias que Deus enviaria para libertá-los dos romanos. O assassinato», continua Armstrong, «era para os fariseus um sacrilégio… destruir uma única vida humana era aniquilar o mundo inteiro… humilhar alguém (ou escravo ou judeu) era desfigurar de forma sacrílega a imagem de Deus» (8).
Jesus
«Jesus era um homem de uma extraordinária independência; de imensa coragem; de uma autenticidade sem paralelo» (Nolan).
No século I, havia por toda a Palestina numerosos curadores e seus seguidores, incluindo mulheres (Armstrong).
Além disso, uma grande diversidade de grupos religiosos vivia na esperança da vinda do Messias que renovaria Israel: os fariseus, incluindo rabinos e escribas – estes dois subgrupos constituíam os homens doutos; os saduceus, a classe superior governante, «chefes dos sacerdotes, anciãos e escribas»; os essénios, cujos membros obedeciam a regras muito estritas de higiene e purificação, vivendo em comunidades fechadas, sem contacto com o poder religiosos do Templo; os videntes ou apocalípticos, que acreditavam que o plano de Deus para a história e para o fim do mundo lhes tinha sido indirectamente revelado (9).
João Baptista com o povo miúdo

Veronese, João Baptista: “o único que impressionou Jesus”.
Segundo Albert Nolan, João Baptista «foi o único que impressionou Jesus»: «tinha o perfil dos antigos profetas», vivia na esperança que a seguir a ele viria o Messias, «Aquele que vem depois de mim». Há tanto tempo esperado!
«– Que devemos então fazer?», perguntavam as multidões que ele baptizava. «– Quem tem duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma e quem tem mantimentos faça o mesmo». (Lucas 3, 10-11).
O povo miúdo acorria para se baptizar, tal como é referido em todos os Evangelhos – excluindo as classes dirigentes, pois João apelava à compaixão, à solidariedade e não a formalismos religiosos. Criticou até Herodes, pelo seu comportamento imoral e isso levou-o à morte.
Profetizando, João avisava o povo de uma grande tragédia que se abateria sobre Israel e por isso incitava-o a mudar o seu comportamento, a transformar o seu modo de ser, antes da tragédia eminente.
Profecias
O que é uma profecia? «Não é uma predição, mas uma advertência ou promessa. O profeta adverte o povo de Israel acerca das intenções de Deus e promete a salvação divina» (9).
Tudo depende do modo como Israel «responde»: «ou há uma mudança e arrependimento do povo ou então se não houver, há uma catástrofe» (9).
O mesmo autor considera que as imagens usadas por João Baptista «não têm nada em comum com as imagens violentas dos autores apocalípticos» (idem).
Jesus chorou sobre Jerusalém
(Lucas 19, 41-42)
Nolan, citando outros teólogos, refere uma grande tragédia que se abateria sobre Israel, devido ao clima de grande tensão que se vivia então entre os judeus e o poder romano. Tal como João Baptista, também Jesus profetizou acerca da tragédia, inserindo-se, assim, num movimento profético-messiânico. Mas para Jesus, tal não aconteceria, se as pessoas alterassem completamente o seu comportamento, o modo de ser, metanoia. Estabelecer-se-ia, assim, «o Reino de Deus».
Citam-se várias passagens dos Evangelhos em que tal é sugerido: Marcos 13,2; 13,33-37; Mateus 24, 15-21; 42-44; Lucas 13, 1-2.3; 21, 20-23; Mateus 6,19-21; Lucas 6, 33-38. Mas o que aconteceu foi realmente a destruição do Templo e a consequente Queda de Jerusalém, em 70 d.C. pelas hostes romanas.
Profundos Afectos

Ícone com Jesus e a Samaritana: «A atitude de Jesus punha completamente em causa os valores definidos pela sociedade judaica».
«Como curador, Jesus tentava um contacto físico com o doente» (9). Erguia-o, dava-lhe ânimo, coragem, fé – este vocábulo, etimologicamente, no antigo hebraico, significa confiança em si mesmo, esperança. «Esta, há tanto tempo perdida, na cura; capacitação que ela, essa pessoa – se quisesse – se poderia curar» (9).
No fundo, alterar o estado de espírito do paciente, através de profundos afectos, visto que a grande maioria dos doentes que se aproximava de Jesus estava banida pela sociedade: doentes, inválidos – obrigados a pedir esmola, o que no Oriente era considerado desprezível – prostitutas, os fora-da-lei, cobradores de impostos. Nenhum desses podia pôr os pés no Templo.
Afronta a uma sociedade estratificada
Um homem da classe média, filho e sucessor do pai [téktôn], carpinteiro, mistura-se com bandoleiros, toca-os, organiza banquetes com eles? Finalmente, oferece-lhes amizade e cura-os (9).
Era algo absurdo, nunca visto, observado nessa sociedade estratificada em grupos, selecionados deste modo: «prestígio dos antepassados; riqueza; autoridade; educação, virtude e valores espirituais».
«A atitude de Jesus punha completamente em causa os valores definidos pela sociedade judaica». (9)
O que movia este homem?
Este verbo – mover, originário do grego, cujo radical é [splag] (9) significava «movimento das entranhas»: intestinos, coração co-movem-se, dando profunda alegria a quem dá e a quem recebe. Alegria contagiante, amor, amizade – símbolo das festas nupciais. Estava com eles o noivo, metáfora da felicidade compartilhada.
Celebrava-se o amor universal, ágápê. No «Sermão da Montanha» (Mateus 5-7), Jesus estende a compaixão aos inimigos, perdoando-lhes: «…amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem…
Despojamento de si mesmo
Jesus, criado à imagem de Deus, despojou-se de si mesmo, com benevolência completa até com os inimigos, tomando a condição de servo:
(…) «Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças / carregou as nossas dores! E nós o reputávamos como um castigado, como um homem ferido por Deus e humilhado. (…) Foi maltratado e resignou-se. Não abriu a boca / Como cordeiro levado ao matadouro / Como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador / E não abriu a sua boca…» (Isaías 53, 4-7).
Odiado e desprezado pelas «elites», aceitou até a morte na cruz. A mensagem de alegria (Isaías 61) que ele lera na sinagoga em Nazaré fora incompreensível para os ouvintes: «O espírito do Senhor está sobre mim / porque o Senhor me ungiu / Enviou-me a levar a boa nova aos humildes / a curar os de coração despedaçado…» (Isaías 61)
O Senhor, o Filho amado de Deus

Ícone da Teofania: “É, na verdade, o mistério que nos faz viver e não desistir da esperança.”
Pelo seu despojamento [kénósis], o Pai elevou-o com o título de Senhor [kiúriós], o Filho amado de Deus. (8) E reergueu-se diante dos que ele amava, subindo para o Alto.
Na carta de Paulo à primeira comunidade que formou, em Phílipós, cidade da Macedónia, fundada após 25 anos da morte de Jesus (8), transcreve-se um poema muito antigo usado pelos que seguiram Jesus, depois de ter sido elevado aos Céus: «Ele que era de condição divina / não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. / Esvaziou-se a si mesmo / Para assumir a condição de um escravo… E foi mais humilde ainda / Aceitando até a morte, a morte na cruz / Por isso Deus o exaltou / E lhe deu o nome que está acima de todo o nome / para que ao nome de Jesus / Todo o joelho se dobre / Nos céus e na terra e nos infernos / E toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus».
Filho de Deus
É uma expressão que surge naturalmente nas culturas grega e também na judaica – «os antigos reis judaicos eram denominados «os filhos e/ou o servidor de Yahveh» – para destacar alguém cujas qualidades o elevam a um plano superior ao dos outros seres humanos (8).
«Para os judeus, a figura do Messias é um ser humano – profundamente humano – escolhido, eleito por Deus» (8).
A verdade é que só considerando Jesus como um ser humano, poderemos amá-lo, reverenciá-lo, admirar a sua profunda compaixão por todos os que sofrem, a coragem em enfrentar os seus inimigos, sem rancor, aceitando uma morte infame. E a sua profunda confiança em Abbá, o Pai do Céu.
«Os Evangelhos escritos entre 70 a 100 d.C. não apresentam uma base dogmática, tal como a Igreja nos apresenta agora: as referências ao pecado original, à Trindade e outras foram posteriormente elaboradas quando o cristianismo se implantou como religião do Estado» (8).
«Solo el mistério nos hace vivir. Solo el mistério.»
(Frederico Garcia Lorca)
De Deus só podemos saber o que não é. Mistério insolúvel, este.
É já muito antigo este conceito e comum a várias tradições religiosas: judaísmo, cristianismo, islamismo e religiões do Extremo Oriente.
É no Silêncio, no profundo interior da nossa consciência que se poderá experimentar o Inefável, como referem os místicos. «Explicaram-me o eco dos penedos, mas não o puro mistério de Deus», comentou frei Bento Domingues.
É, na verdade, o mistério que nos faz viver e não desistir da esperança, da luz e sombras que imergem dos mestres espirituais que nos visitam desde tempos imemoriais. Em contextos e culturas diferentes, os princípios referidos são semelhantes aos da era axial: o sentido da responsabilidade e da dignidade humana, a moral ou a ética, a compaixão por todos os seres.
Paulo de Tarso, pioneiro do cristianismo

Sarcófago no Vaticano representando Pedro e Paulo: “Paulo, o primeiro escritor cristão, foi sempre judeu e nunca foi antissemita”. Foto reproduzida da Wikimédia.
Paulo foi sempre judeu
Paulo, o primeiro escritor cristão, «foi sempre judeu e nunca foi antissemita: observou os rituais judaicos até à morte», dizia Daniel Marguerat numa entrevista conduzida por Christel Juquois ao jornal La Croix (Actos 23, 6-10).
Nos anos 40 e 50, o Evangelho era pregado na sinagoga. Não havia ainda uma diferença entre o judaísmo e o cristianismo.
A partir do século II, os Padres da Igreja decidem separar o que ainda unia as duas correntes ideológicas, alterando determinadas passagens das Escrituras (10).
Assim, segundo o autor citado, Paulo nunca escreveu que o judaísmo já não tinha nenhum estatuto face a Deus. O que aconteceu foi a alteração a certas passagens das Cartas aos Romanos e aos Gálatas, saindo até do seu contexto; «esqueceram» passagens em que Paulo afirma que «Israel será sempre um povo abençoado por Deus» (10).
Como investigador, o autor da obra citada, concluiu que Paulo fora sempre ligado ao judaísmo da Diáspora do século I e por isso diferente de Jesus, judeu palestiniano.
Paulo estudou com o rabino farisaico Gamaliel, neto do rabi Hillel que defendeu os discípulos de Jesus, após a sua morte, em pleno Sinédrio (Act. 2, 23; 5, 33-39). Simultaneamente, Paulo assimilou estudos da cultura greco-romana, em particular a filosofia estoica.
Paulo, judeu messiânico
Segundo o investigador e autor da obra citada em nota, a sua Palavra é um Evangelho fundamentado em Jesus, o Messias enviado por Deus [Krístós]; por estas razões, Paulo é um judeu messiânico e o seu objectivo é criar «uma nova Israel, aberta a toda a humanidade» (idem).
Assim, dirige-se aos não-judeus, sem necessidade destes se integrarem no judaísmo existente: considera-os também «Filhos de Abraão», sem necessidade de serem circuncidados. Do mesmo modo, nunca pediu aos judeus convertidos a Cristo para renunciarem aos seus rituais e à circuncisão.
Tudo estava por inventar

Harold Copping, Priscila, uma das mulheres da Bíblia: “Paulo sempre acolheu as mulheres e deu-lhes participação activa e responsável.” Ilustração reproduzida da Wikimédia.
Jesus, antes de ser condenado à morte, «vivia como um nómada», (10) acompanhado pelos seus discípulos e não organizou nenhuma comunidade.
«Por isso, tudo estava por inventar»: Paulo tem de responder às diversas comunidades greco-romanas que foram formadas: «se podem participar nas refeições os seus amigos pagãos; se têm de praticar os rituais judaicos; se as mulheres podem também participar no culto…» (10).
Face a uma situação tão nova, com uma grande heterogeneidade de pessoas nas várias comunidades, Paulo tem de ter um sentido prático e existem contradições. «Deveremos pensar, ao ler as Cartas de Paulo, num contexto bastante diferente, num determinado tempo histórico» (10).
Após o Baptismo, todos eram considerados «irmãos e irmãs»: com o mesmo valor e estatuto. «Podemos imaginar que não seria nada fácil lidar com algo tão sensível e diferente do contexto social existente nessa altura.» (10)
Acolhimento e participação activa das mulheres
É falso, segundo o autor, que Paulo rebaixasse as mulheres – uma ideia existente nas cartas aos Colossenses e Efésios. Fazem parte da sua herança, mas não são da sua autoria, segundo afirma Marguerat.
Pelo contrário, Paulo sempre acolheu as mulheres e lhes deu participação activa e responsável; sem dúvida, inspirado por Jesus. Encontramos em cada passo essas referências nas suas cartas.
Epístolas autênticas de Paulo
(Anos 50 e 60, século I d. C).
Segundo o autor, essas cartas testemunham a evolução do seu pensamento. São sete: Epístola aos Romanos; Primeira e Segunda aos Coríntios; Epístola aos Gálatas; Epístola aos Filipenses; Epístola aos Tessalonicenses; Epístola a Filémon.
O livro dos Actos dos Apóstolos, escrito por Lucas, é já de uma geração após a morte do apóstolo Paulo. As restantes cartas são consideradas pseudónimas e póstumas.
O autor sintetiza assim a sua obra sobre S. Paulo: «A visão que Paulo tem do cristianismo é o nosso futuro, não o nosso passado. Foi pioneiro do cristianismo, criativo e inovador. Abriu o cristianismo universalista.»
Para finalizar esta parte relativa ao budismo e à tradição judaico-cristã, apresentam-se estes dois textos, escritos em épocas e culturas tão diferentes, mas que não diferem nada – ou quase nada – um do outro:
Que todos os seres sejam felizes!

«Que todos os seres sejam felizes! / Frágeis ou fortes, de condição alta, média, baixa… » Foto: Direitos reservados.
«Que todos os seres sejam felizes! / Frágeis ou fortes, de condição alta, média, baixa / Pequeno ou grande, visíveis e invisíveis, de perto ou de longe / Vivos ou ainda por nascer…! que todos sejam felizes / Que ninguém minta a ninguém e não despreze nenhum ser em lugar algum / Que ninguém deseje o mal a ninguém, por ira ou por ódio! / Amemos todas as criaturas, tal como uma mãe ama o seu único filho! / Que os nossos pensamentos afectuosos encham o mundo inteiro / Por cima, por baixo e através… / Sem limites, uma boa vontade sem limites, o mundo inteiro / Sem restrições, libertos do ódio e da inimizade!».
(Buda Shakiamuni, Sutra da Compaixão)
Sobre a caridade [cáritás] ou amor universal [ágápê]
« (…). Ainda que eu distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.
(…) a caridade é paciente, benigna, não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa, não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; crê, tudo desculpa, tudo suporta.
(…) A caridade não acaba nunca.
Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.»
(Paulo de Tarso, Primeira Carta aos Coríntios, 13)
Islão

Oração de muçulmanos na Mesquita Abdurrahman Bin Auf, em Famões (Odivelas): Islam significa «submissão», ou seja, homens e mulheres rendem as suas vidas a Deus. Foto © António Marujo/7MARGENS
O islão nasceu na Arábia, na parte final da Era Axial – século VII d.C. na figura do profeta Maomé, levando o Alcorão, escritura de inspiração divina, ao povo de Higez. (8)
Segundo o islão, os árabes eram descendentes do filho de Abraão, Ismael, tal como os judeus e cristãos seguiam Isaac e Jacob, respectivamente.
O princípio da Compaixão
Maomé (Muhammad) era céptico em relação às discussões teológicas, mas desenvolveu o princípio e a prática da compaixão.
Maomé insistia que não vinha para substituir os profetas do passado, mas sim voltar à fé primordial de Abraão, antes da Torah e dos Evangelhos.
Islam significa «submissão», ou seja, homens e mulheres rendem as suas vidas a Deus (8).
Maomé pediu-lhes que se prostrassem várias vezes ao dia. Com isso, submeter o ego (eu, em latim) que gosta de se pavonear e de se exibir aos outros.
Também pediu aos seus discípulos e a quem o seguia para entregarem uma parte dos seus bens aos pobres. Tazakkah envolvia todos esses atributos.
Relação com as duas religiões do Livro
Um dos primeiros pedidos de Maomé aos convertidos foi que rezassem virados para Jerusalém, a cidade dos judeus e cristãos, cujo Deus iam adorar.
«No Alcorão, Deus disse aos muçulmanos que deviam tratar os ‘ahl al kitab, a gente de uma Revelação anterior, com respeito e cortesia. Na verdade, era frequente os árabes cristãos peregrinarem a Kaaba, geralmente considerada como santuário de Alá, juntamente com os pagãos» (8).
Conflito com a classe dirigente de Meca
Embora a península arábica fosse próspera – Meca era bem exemplo disso – travavam-se inúmeras guerras tribais.
A nova religião criticava a classe dirigente de Meca pela estonteante riqueza e os constantes combates internos. Por esse motivo, os poderosos procuraram assassinar o seu dirigente.
«Saíram então Maomé e os seus seguidores desta cidade – 70 famílias – e fixaram-se em Medina, a 400 quilómetros a norte.
Mas na Arábia, os laços de sangue são muito importantes: separar-se deles era considerado uma blasfémia. Nunca se deveria abandonar os seus.
Então, durante cinco anos, os muçulmanos combateram desesperadamente resistindo à ofensiva de Meca»(8).
Peregrinação para a paz [hayy]

Peregrinação (Hajj) a Meca. Foto © Zurijeta.
Em 628 d.C., Maomé anunciou que faria uma peregrinação a Kaaba, sem levar armas – hayy , convidando companheiros para o acompanharem nessa jornada. Mil muçulmanos acompanharam-no.
Os exércitos de Meca moveram-se para os matar durante o percurso, mas os beduínos ajudaram os peregrinos, ensinando-lhes um outro percurso.
Chegados a Kaaba, sentaram-se pacificamente; o lugar onde estavam era santo e não podiam lutar. Vieram então emissários de Meca e Maomé aceitou as duras condições para a paz, surpreendendo os seus companheiros. (8)
Maomé concluiu, no regresso da peregrinação, que sakinah, traduzindo-se por «paz interior», fora uma inspiração divina. (8)
«Sou como uma semente que brotava da terra e de tal modo se fortalecia que crescia, mantendo-se no fim, firme no talo, deleitando os que se abrigam à sua sombra» (Alcorão, 48, 29). (8)
Jihad
O vocábulo árabe Jihad, adoptado no islão, não significa «guerra santa», mas o esforço social, económico, intelectual e espiritual do ser humano.
Podia, por vezes, segundo a tradição islâmica, haver necessidade de lutar; no entanto, segundo a mesma autora, a tradição mais influente colocava a guerra «numa posição subordinada».
Posteriormente, somente se considerou a guerra defensiva.
Salvar vidas
Foi, na verdade, o que fez há poucos meses, Ahmed Al-Ahmed, corajoso comerciante australiano islâmico, que defendeu uma multidão de pessoas da religião judaica que se reuniram pacificamente numa praia e foram atacadas por dois terroristas islâmicos, pai e filho.
Tornou-se um herói pela paz entre as religiões. E disse: «Devemos ajudar-nos uns aos outros, todos os seres humanos, e esquecer o que há de mau; e continuar a trabalhar para salvar vidas, salvar vidas.»
A paz interior

“Até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz.” Foto © Joaquim Félix
(…) mas até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz e é bem possível que essa luz não venha tanto das teorias e dos conceitos como da chama incerta, vacilante e por vezes ténue que alguns homens e mulheres conseguem alimentar em quase todas as circunstâncias e projectar em todo o tempo que lhes foi dado viver neste mundo…», escrevia Hannah Arendt, em 1975 (1).
Independentemente de se ser ateu, agnóstico, budista, hindu, cristão ou de outra religião, é importante ter uma visão alargada, aberta em relação ao mundo e a outros modos de compreensão da realidade. Não estar arreigado a princípios rígidos, a uma visão dogmática de uma determinada religião.
Estar aberto ao desconhecido, ter respeito pelos outros e pelas suas religiões. Alargar os horizontes.
Todos deveríamos estar atentos à nossa reeducação interior que deverá ser constante, em todos os momentos da nossa vida.
O Mestre zen vietnamita Thich Nath Han (6 e7), fez renascer o budismo no Vietnam, durante a guerra entre o seu país e os Estados Unidos, nos anos 60. Posteriormente, veio para o Ocidente e teve de fazer um esforço para se adaptar a uma outra civilização e outra religião, o cristianismo – que era a religião dos colonos franceses no seu país e por isso não era muito bem vista pelos vietnamitas. Conclui ele: «ao ouvir os sinos de Praga, eu compreendi que começava a ter raízes na cultura europeia, além das minhas raízes culturais. É necessário estar enraizado na sua própria cultura para poder tocar profundamente noutra e enraizar-se. É muito importante» (7).
É possível? É claro, com a reeducação interior.
O lema é: não desistir; os resultados não são instantâneos; mas resulta, pela força de vontade.
Era esta a base da sabedoria da Era Axial, em latitudes e lugares tão distantes uns dos outros: questionar-se sempre a si mesmo; ter compaixão pelos outros.
Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.
Bibliografia e notas
- Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, Relógio D’ Água.
- Karen Armstrong, La Gran Transformación, Páidos, Barcelona.
- Shunryu Suzuki, Esprit Zen, Esprit Neuf, Seuil.
- Marc de Smedt, Elogio do Silêncio, Sinais de Fogo.
- Evelyn de Smedt, Catherine Mollet, Les Patriarches du Zen – une anthologie, Le Relié.
- Thich Nhat Hanh, Il n´ y a ni Mort ni Peur, La Table Ronde.
- (ibidem) Boudha et Jésus sont des frères, Le Relié, Pocket.
- Karen Armstrong, Uma História de Deus, Círculo de Leitores.
- Albert Nolan (frade dominicano), Jesus Antes do Cristianismo, Paulinas.
- Entrevista a Daniel Marguerat, conduzida por Christel Juquois, no jornal «La Croix»; Daniel Marguerat, Paul de Tarse, l’ enfant terrible du Christianisme (Éditions du Seuil). O autor foi pastor da Igreja Reformada, estudou em Lausanne e em Gottingen; professor reformado da Universidade de Lausanne, exegeta especializado no Novo Testamento, em particular: busca de Jesus na história, Paulo de Tarso, Actos dos Apóstolos.
- Shunryu Suzuki, Esprit Zen, Esprit Neuf, Éditions du Seuil.










