A escola a falar para o cão ou como é que a escola que produz alunos inensináveis

| 9 Abr 19

Leio e analiso inúmeros Processos Individuais de Alunos das nossas escolas, sobretudo de crianças e jovens que fizeram percursos escolares marcados pelo insucesso, com problemas de assiduidade, comportamento e aproveitamento.

Entre vários aspetos que me surpreendem e questionam, existe um que quero sublinhar nesta crónica e que se relaciona com o tipo de informação e de comunicação que a escola produz.

Tomo o exemplo do aluno N e do discurso que a escola faz sobre ele, no ano letivo de 2016/17, enquanto ele está no sexto ano, já pela segunda vez:

“no ano transato apresentou um comportamento conflituoso e com falta de autocontrolo; tem dificuldade em interagir com os colegas e professores; revela muita falta de estudo e de concentração nas aulas, não realizando as atividades propostas; falta frequentemente às aulas, sem justificação, estando no recinto escolar; não é assíduo nem pontual; o comportamento do N é de desinteresse e desmotivação pelas atividades escolares; não acata as chamadas de atenção dos professores; pede insistentemente, perturbando o bom funcionamento das aulas, para sair por momentos da sala de aula, alegando que não se encontra bem (dores de cabeça, má disposição, …), mas nem sempre regressa à sala de aula; recusa-se a cumprir com as tarefas de aula (…)”

O N, com este rol de apreciações acerca do seu percurso escolar, por parte da sua escola e dos seus professores, vai reprovar nesse ano, a todas as disciplinas, e ficará pela terceira vez no 6º ano. No fim deste novo ano letivo, em que beneficia novamente de planos de apoio pedagógico e do mesmo currículo, a escola faz a seguinte apreciação global: “O N piorou o seu comportamento, tendo todos os níveis inferiores a três. O Plano deverá continuar a ser aplicado já que não houve cumprimento do mesmo da sua parte.” Nem mais, nem menos. A escola não tem mais nada para dizer e fazer? E poderia ter acontecido algo de diferente, com este tipo de postura diante das dificuldades, sem destacar qualquer potencialidade e sem referir o que é que a escola vai fazer de realmente diferente para ajudar o aluno diferente? O aluno acabará por abandonar a escola. Mas esta não é uma escola que o abandonou há muito?

Tomo agora o exemplo do aluno A.

No final do 1º ciclo, a sua avaliação global é a seguinte: “O A adquiriu as competências mínimas pretendidas para o final do 1º ciclo. No próximo ano terá de ser muito mais aplicado, trabalhador e estudioso. Se for um aluno empenhado que mostrou ser em anos anteriores, terá decerto melhores resultados”.

O dito “próximo ano” foi feito noutra escola. Há um alerta que é lançado: mas nada se diz acerca do que se quer dizer e a quem. Tem de ser muito mais aplicado, trabalhador e estudioso e empenhadoé uma orientação? E se é, a quem se destina? E o que se sugere? O aluno pode perder-se na mudança de ciclo…

No ano seguinte, o 5º da sua escolaridade, transitou com duas negativas, a História e a Matemática. A sua “apreciação global” do ano foi esta: “O A continua a revelar comportamentos irregulares, falta de atenção, de concentração e de estudo”. Mais nada. E entrou no 6º ano. E que é que era preciso acontecer de concreto para contrariar essas verificações de comportamentos irregularese de faltas de e de e de? Que ações, de que atores? Nada se diz. Reprovou. E não reprovou apenas, reprovou a tudo, exceto a Educação Física. No mesmo ciclo de estudos, de um ano para o outro, na mesma escola.

Mais, vai reprovar nesse ano e no seguinte. Quando frequenta de novo o 6º ano, pela quarta vez, a escola escreve: “O A não trabalha nem deixa trabalhar. Revela um total desinteresse pelas disciplinas. Não tem material e está sempre distraído e a conversar. Não realiza nada na sala de aula e perturba a mesma.” Um relatório do diretor de turma deste ano diz que “cumpriu um dia de suspensão na sequência de 16 repreensões escritas e de 12 ordens de saída da sala de aula”. E reprova de novo. Entretanto, a escola oferece-lhe sempre o mesmo currículo, sobrecarregado ou aligeirado e muitas “medidas de apoio pedagógico”, que representam a disponibilidade de avultados recursos públicos. Um ano depois, à sexta tentativa, oferece-lhe um “currículo alternativo”.

É apenas mais um caso, entre muitos milhares.

Procuro ouvir os alunos para tentar perceber como é que eles veem este penoso caminho dentro da instituição escolar. Vejamos, a título de exemplo, o que diz este mesmo aluno A.

“E aconteceu, faltava muito, quase não ia às aulas e reprovei. As aulas também não me diziam muito. Por isso é que faltava. Era a matéria. Quando você não gosta daquela matéria, estar ali a levar com aquilo não é nada bom. Não gostava de nenhuma. Física (educação física) é tudo na boa. Eu ia à escola, mas chegava à escola e não ia às aulas. Ficava cá fora. Brincadeiras de miúdos, depois fui avançando e foi sempre a reprovar, já não estava a ligar para aquilo, estava noutra onda… Mas nunca saí da escola. Sempre a andar na escola todos os anos.

Houve professores que falaram comigo, que diziam que podia ser diferente, que eu conseguia, que tinha possibilidades para isso, que tinha inteligência, só que eu não metia isso na minha cabeça (…). Só isso. Era sempre a mesma coisa, a mesma escola, as mesmas pessoas, as mesmas aulas. Tudo. Os professores, isso já variava de ano para ano, mas o resto era tudo sempre igual. Era muito tempo fechado dentro de uma sala, hora e meia de aula. (…). Era tudo igual. Também nunca fui muito de gostar da escola. Mas tem que ser… .  No fim fiz um PCA (Currículo Alternativo) e isso eu curti. Não fazíamos muita coisa, estávamos sempre a trabalhar. Também éramos poucos, só 5. Eu gostava era de trabalhar. Mas na escola não há trabalho. Gostava de EVT, porque também curto desenhar. Isso gostava. Se houvesse uma oficina, cozinha, estávamos ali a fazer as coisas, eu curtia essa experiência”.

A informação e comunicação gerada nas escolas, sobre cada aluno, atinge níveis de inadequação alarmantes, sobretudo nos casos em que ela deveria ser mais cuidada, revelando justamente o cuidado no acompanhamento dos alunos que são “diferentes”. Tantos anos perdidos, tanta “tortura escolar” aplicada a crianças, tantos recursos públicos desbaratados! E as perguntas surgem: porquê? para quê? Não é como se a escola estivesse a falar para o cão? Discursos e discursos sem fim, sem nexo, sem qualquer ação, sem qualquer eficácia, cheios de palavras ininteligíveis, em termos práticos, extensas listas de defeitos, quando, se ouvido cada um, sem catalogações, mas com o cuidado que a educação escolar de cada um requer, se compreende logo qual o caminho por onde seria possível “prender” o aluno, sem o atar (uso esta metáfora, porque conheço uma escola que adotou um cão e imagino o cão a ouvir os sermões dos professores, que nunca entenderá, a não ser quando a um breve som equivale uma ação concreta que implica o cão).

Cada vez que leio estas centenas de páginas e verifico que elas descrevem arcos escolares sem qualquer saída, em que crianças com pequenos problemas iniciais se transformam em alvos a abater, com o apoio destes discursos ocos e sem fim, que revelam atitudes e valores educativos concretos dos educadores, constato que é este o modo de produção de alunos inensináveis. Pergunto-me se não temos de recomeçar de novo e mudar profundamente o modo quer de olhar para as potencialidades de cada aluno em dificuldades quer de comunicar com ela/ele.

Isto se queremos abandonar esta face tão trituradora e violenta da instituição escolar, tão pateticamente cheia de boas intenções e que ata uma mó a tantos adolescentes como o N ou o A, em nome da lei, mas esquecendo a justiça e o amor.

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