[Nas margens da filosofia (LXIV)]

A escola como o “umbral”

| 22 Jun 2024

Josep Maria Esquirol. Foto © Miquel Taverna, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Josep Maria Esquirol, autor de A Escola da Alma. Foto © Miquel Taverna, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

No dia da inauguração da Feira do Livro em Lisboa, as Paulinas pediram-me para falar do livro de Josep Esquirol A Escola da Alma1. É uma obra em que a espiritualidade e a filosofia se cruzam, ao ritmo das Bem-Aventuranças. Esquirol fala-nos da escola como instituição, mas também da relação que ela tem (ou teve) connosco, com a sociedade, com a ética e com a transcendência, seja ela social, cósmica ou divina. É um livro que todos deveriam ler pois nos transporta para um lugar pelo qual a grande maioria passou e do qual teve experiências diferenciadas. É um livro denso de conceitos, que permanentemente nos surpreende, nos desafia e que por vezes mesmo nos desconcerta quer pela originalidade da sua mensagem quer pelas recordações que nos desperta, levando-nos a revisitar o passado, ou mesmo a revivê-lo. Foi o que aconteceu comigo ao deparar com um conceito que Esquirol nos apresenta logo no início e que indelevelmente associa à instituição escolar – o umbral, um termo que apesar da sua beleza pouco usamos, substituindo-o por outros mais comuns como os de entrada ou de limiar. O livro estrutura-se em função das nove Bem Aventuranças e o seu primeiro capítulo tem como título “Felizes os que vão à escola: cruzarão o umbral”2.

Não sendo o objectivo deste meu texto fazer a recensão da obra de Esquirol — cuja leitura vivamente aconselho — irei deter-me nesta sua introdução, que particularmente me tocou, quer a nível teórico quer a nível vivencial, levando-me a recordar o modo como me iniciei nos estudos bem como as consequências que a originalidade da minha primeira formação tiveram no meu modo de ser. De facto, passei os primeiros quatro anos de escolaridade em casa, recebendo lições de uma professora particular e tendo como colegas as minhas irmãs. Posso dizer que para mim o umbral foi ultrapassado mais tarde, quando entrei no liceu, já com dez anos feitos. 

Hoje, ao rever o meu passado verifico a falta que me fez essa saída da casa nos primeiros anos de vida, onde teria encontrado um lugar diferente, sujeito a outras regras e promissor de novos contactos e amizades. Esquirol afirma que há lugares “onde não se deveria poder entrar de um modo indiferente” (pg. 25) sendo a escola um deles. Lembro a estranheza que senti ao ver-me inserida numa turma na qual era um mero número e onde não conhecia ninguém, em contraste com grupos já feitos de miúdas provenientes de diferentes escolas e colégios. Recordo também o sentido de estranheza perante as novas regras de disciplina, bem como o facto de me sentir sem chão e sem amigas. Esse sentido de não pertença tornou para mim dolorosa a passagem do umbral. Tudo então me era estranho — a colocação dos lugares obedecendo às idades e às alturas, a preferência dada às filhas das professoras da casa (tratava-se de um liceu feminino), o modo como me deveria dirigir às professoras, levantando-me da carteira e tratando-as por ” minha senhora”, o facto de sairmos da sala de aula numa forma e de nos pátios não se poder jogar à bola. Não posso dizer que sofri ao ultrapassar o umbral da escola, antes diria que foi uma surpresa pela novidade do mundo que então se me abriu, pelas novas regras a que tive que obedecer e, sobretudo pelas relações de amizade que então estabeleci.

A Escola da Alma, de Josep Maria Esquirol

A Escola da Alma, de Josep Maria Esquirol

Esquirol apresenta-nos a escola como lugar onde se cultiva a alma mediante a atenção às coisas do mundo. E na verdade a vivência que tive da escola secundária abriu-me portas para um outro mundo, não só pelo que me forneceu de bagagem intelectual mas sobretudo pela adaptação à diferença e ao modo de me relacionar com ela. O umbral que então transpus despertou a minha curiosidade e aguçou o meu sentido crítico, permitindo-me apreciar a diferença e a nunca abandonar a capacidade de espanto. Por isso posso dizer que foi esse o patamar que me levou a estar atenta ao mundo e, consequentemente, a estudar filosofia, fazendo do caminho a maneira de o habitar.

notas

1 – Josep Maria Esquirol, A Escola da Alma. Da forma de educar à maneira de viver, trad. Paulo Ramos, Prior Velho, Paulinas Editora, 2024.

 2 – Josep Maria Esquirol, ob. cit. pg. 23.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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