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A escultura que incomoda a Praça de São Pedro

| 09/12/2019

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro

by | 9 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

Escultura “Anjo Inconsciente”: à frente, uma mulher grávida, ladeada por um judeu ortodoxo, uma muçulmana e uma criança: “um sinal profético”. Foto © António Marujo

 

A Praça de São Pedro, em Roma, é um dos lugares mais impressionantes do mundo. Quem sobe a Via della Conciliazione não pode deixar de se perguntar como, há quinhentos anos, o engenho humano foi capaz de tal empresa. Ali tudo é grande, faustoso, imponente. A cúpula que se ergue a 140 metros de altura, a fachada sumptuosa da basílica, a matemática harmoniosa das linhas retas e curvas, os braços da colunata de Bernini que querem abraçar todo o mundo que possa caber dentro da praça.

Foi aí, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab. De perto, o conjunto parece imponente. De longe, dilui-se na grandeza indiferente da praça e da basílica. Mas está lá, bem visível, como uma pedra no sapato, a destoar do ambiente sagrado daquele espaço.

O pontificado de Francisco traduz em todos os modos a dimensão da misericórdia para com os mais pobres. E os mais pobres dos pobres, aqueles que só têm a roupa do corpo e os filhos ao colo, são os refugiados da guerra, da tirania, da fome. Já no século XIX a Igreja tinha esquecido, salvo raras exceções, a questão humanitária do proletariado (que também eram os que não tinham nada, a não ser a roupa do corpo e a prole). Acordou já tarde, com a Rerum Novarum, já essa luta tinha sido conquistada pelo marxismo. Agora não quer nem pode perder mais esta batalha humanitária. O futuro dirá dessa justiça.

É por isso que a iniciativa do Papa em colocar, no meio do coração da Igreja, esse memorial ao refugiado é um sinal profético. Está lá como trave diante dos olhos, ou melhor, como o pobre Lázaro da parábola. Lá dentro, na basílica, veste-se seda e linho fino, banqueteiam-se faustosamente rituais, é a mais imponente mansão. Mas à porta está o pobre Lázaro coberto de chagas. E, tal como foi a presença esquecida de Lázaro que condenou o homem rico, é também essa presença esquecida que pode condenar a consciência muitas vezes acomodada da Igreja.

O “Anjo Inconsciente” [do artista canadiano Timothy Schmalz] simboliza também essas hordas de milhões de refugiados que batem à porta da Europa ou já estão cá dentro, um fenómeno devastador a que o Velho Continente não soube dar resposta. Antes pelo contrário, optou mais uma vez por enterrar a cabeça na areia com a agravante de transformar o Mediterrâneo num enorme cemitério sob a Lua. Foi um espetáculo triste, mesquinho, ver, no Parlamento Europeu, a exultação dos eurodeputados que votaram contra o auxílio a embarcações de refugiados, porque, para eles, receber as embarcações é ajudar o tráfico de seres humanos. Muitos desses deputados eram católicos, talvez acérrimos defensores pró-vida na questão do aborto, mas que acham que a segurança e a paz podre da Europa são mais importantes que milhares de vidas, muitas delas crianças.

Francisco não tem meias medidas: “Eu desejei essa obra artística aqui na Praça São Pedro, para que recorde a todos o desafio evangélico do acolhimento”, afirmou. É certo que muitos ainda torcem o nariz àquela estátua profana no meio de tantas belezas santas que o Vaticano encerra. Parece uma profanação de terreno sagrado. Mas mais sagrado do que todas as obras de arte do Vaticano é o sangue dos inocentes que clama por justiça. A religião sem misericórdia não passa de uma mesquinha feira de vaidades.

A escultura está lá. Precisamente para incomodar.

Escultura “Anjo Inconsciente”, na Praça de São Pedro. Foto © António Marujo

 

Júlio Rocha é padre católico da diocese de Angra do Heroísmo (Açores) na Ilha Terceira e assistente da Comissão Diocesana Justiça e Paz. Contacto: josejuliorocha1968@gmail.com

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