Quarto e último artigo de análise das respostas ao inquérito sobre a sinodalidade.
A transformação da Igreja Católica numa Igreja sinodal é um desejo partilhado por uma esmagadora maioria (96,49%) dos que participaram no inquérito do 7MARGENS, mas menos de um terço antevê que tal aconteça à Igreja em Portugal. Ao mesmo tempo, só um quinto dos inquiridos supõe que Igreja vai ter cada vez maior importância na sociedade portuguesa. A nível internacional as expectativas são, porém, de feição: dois terços das respostas transmitem a certeza de que o Papa Leão XIV vai dar um impulso decisivo ao aprofundamento da sinodalidade.
A descrença num futuro sinodal para a Igreja Católica em Portugal é enorme. Apenas 29,62 por cento dos inquiridos acreditam que “em breve a Igreja em Portugal vai ser muito mais sinodal”. Descrentes nesse futuro são 63 por cento, enquanto 7,18 por cento não consegue pronunciar-se.
Entre os que partilham da opinião de que as alterações introduzidas até agora foram nada, muito pouco ou pouco significativas, a convicção de que o futuro não será muito diferente tem sempre valores superiores a 74 por cento. Mesmo entre aqueles que opinam ter a Igreja “mudado alguma coisa” quase metade (48,82%) descrê de que a progressão em direção à sinodalidade possa vir a marcar o futuro próximo.
Mais inesperadamente, são os padres quem menores espectativas têm quanto ao advento de uma Igreja sinodal em Portugal. Entre os clérigos, a percentagem dos que afirmam que tal não acontecerá (72%) supera inclusive os valores (62,86%) apurados para o grupo dos leigo(a)s. Só nos religioso(a)s reina a confiança num futuro sinodal: ‘apenas’ 38,10 por cento duvida de que tal aconteça em breve.
Descontados os que respondem “não saber”, a fotografia torna-se ainda mais negra: só 26 por cento dos clérigos se mostra confiante de que em breve a Igreja Católica em Portugal vai ser muito mais sinodal, no que são acompanhados por 30,56 por cento dos leigo(a)s e 42,86 por cento dos religioso(a)s. Ou seja, em média, é preciso juntar cinco padres para que haja um que acredita em tal cenário. De igual modo será necessário reunir três leigo(a)s para se encontrar um que partilhe dessa expectativa.
Independentemente do balanço que faziam dos progressos sinodais na Igreja portuguesa e universal e para além das expectativas sobre a ação futura de leão XIV nesta matéria ou da evolução da Igreja Católica em Portugal [ver 7Margens], os leitores do 7MARGENS foram ainda inquiridos sobre que importância atribuíam à transformação da Igreja Católica numa Igreja sinodal.
As respostas a esta pergunta foram taxativas: apenas 3,51 por cento considerava tal transformação como “pouco importante” ou “nada necessária”; pelo contrário, 61,40 por cento classificava-a de “muitíssimo necessária” e 21,53 por cento de “muito importante”. O facto de quatro em cada cinco dos participantes no inquérito conferir tão elevada importância à consolidação de uma Igreja verdadeiramente sinodal, contrasta fortemente com o balanço que fazem do processo até hoje vivido na Igreja do seu país.
Avanço virá de Roma

“Dois em cada três (64,07%) não têm quaisquer dúvidas que o Papa Leão XIV vai dar um impulso decisivo ao aprofundamento da sinodalidade.” Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Mas contrasta também com o que esperam que venha a acontecer num futuro próximo. De facto, entre todos os que opinam ser “muitíssimo necessário” que a Igreja viva de forma sinodal dois terços (68,57%) não espera que tal venha a acontecer em breve na sua Igreja, opinião que é partilhada por 69,57 por cento dos que a consideram “importante”. Já aqueles que classificam a sinodalidade como algo “muito importante” são menos descrentes (47,41%) que ela possa vir a caracterizar a Igreja em Portugal.
Uma certeza têm os participantes no inquérito do 7MARGENS: O Papa Leão XIV vai dar um impulso decisivo ao aprofundamento da sinodalidade. Dois em cada três (64,07%) não têm quaisquer dúvidas de que isso vai acontecer. Os que mais confiam que assim seja são os padres (74%) e os religioso(a)s, (71,43%). Entre os leigo(a)s, são exatamente 64,02 por cento os que acreditam que Leão XIV vai continuar a aprofundar o carácter sinodal da Igreja Católica.
As respostas a esta pergunta mostram que, quanto mais positivo é o balanço que se faz do enraizamento sinodal na Igreja Católica em Portugal, maior a convicção de que o bispo de Roma vai dar um impulso decisivo nesta matéria. De facto, um pouco mais de metade (52,36%) dos que acreditam que o Papa vai promover a sinodalidade de forma significativa afirmam também que a sua Igreja nestes últimos anos “sofreu transformações profundas”, “mudou muito”, ou “mudou alguma coisa”.
Por outro lado, quatro em cada cinco (80,57%) dos que têm esta última perceção (“mudou alguma coisa”), estão muito convictos quanto à qualidade e intensidade da intervenção de Roma nesta matéria. Os que sentem que a sua Igreja “mudou muito” estão ainda mais seguros (86,49%) de que assim acontecerá. Pelo contrário, apenas 60,44 por cento dos que dizem que a Igreja Católica em Portugal “mudou muito pouco” partilham da mesma ideia. Percentagem que baixa para menos de metade (46,00%) quando respondem a esta questão aqueles que dizem estar a sua Igreja “na mesma”.
A Igreja em Portugal vai ter cada vez maior importância na sociedade portuguesa? A esmagadora maioria pensa que não. Menos do que um em cada cinco dos inquiridos (24,56%) concorda com esta afirmação. Ventilando o que responde cada um dos grandes grupos, fica-se a saber que só 26 por cento dos padres crê no crescimento da importância da sua Igreja neste país, enquanto apenas 24,76 por cento dos leigo(a)s partilha de tal opinião. Entre os religioso(a)s a esperança é maior: um terço (33,33%) antevê um crescimento da importância da Igreja Católica em Portugal.
Ficha Técnica
O inquérito aos leitores do 7MARGENS decorreu durante o mês de maio e recolheu 629 respostas válidas. Mais de metade (52%) dos que responderam são homens, 96 por cento dizem-se católico(a)s, sendo os restantes “de outra confissão”, “crentes sem religião” e “não crentes”. Entre os católicos, a esmagadora maioria (88%) são leigos e leigas, 3,5 por cento religioso(a)s e 8,5 por cento padres; a maioria vai à missa (63,62%) todos os domingos a que acrescem os 20,10 por cento que a celebram, ou nela participam, todos os dias. Além de serem mais “praticantes” do que a maioria da população que se diz católica, os participantes neste inquérito são também muito mais ativos nas suas comunidades do que a generalidade dos católicos: 75 por cento está envolvido em algum movimento ou estrutura católica, ou desempenha algum serviço na comunidade em que se integra.
A amostra obtida, que não permite extrapolações fidedignas para todo o universo por não ter base científica e ser de autorresposta voluntária, conta com católicos e católicas de todas as 20 dioceses do país, à exceção das de Portalegre-Castelo Branco e de Viana do Castelo. Naturalmente, Lisboa (43,8%) e Porto (16,5%), seguidas de Braga (7,0%), Coimbra (6,4%) e Setúbal (4,6%) são as mais representadas. A média de idade dos participantes é de 63 anos, superior em oito anos à média de idade da população portuguesa maior de 18 anos (55 anos).










