Livro "Caros Fanáticos"

A esperança de Amos Oz: “Não estamos sozinhos nesta terra”

| 23 Out 2023

Amos Oz

Amos Oz define o fanatismo como «a essência perene da natureza humana, o gene mau». Não é característica de um povo ou de uma etnia; é comum a todos os seres humanos. Tudo o que seja diferente do que ele, fanático, pensa, é para demolir, esmagar, matar.

 

Amos Oz (1939-2018), conhecido escritor israelita, com uma vasta obra [1], foi também um grande activista político e defensor da Paz no Médio Oriente. Caros Fanáticos, publicado um ano antes da sua morte, é um conjunto de três ensaios, baseados em conferências dadas pelo autor, constituindo o seu testamento cultural e político.

 

«Caros Fanáticos»

Neste primeiro ensaio, define o fanatismo como «a essência perene da natureza humana, o gene mau». Não é característica de um povo ou de uma etnia; é comum a todos os seres humanos. Tudo o que seja diferente do que ele, fanático, pensa, é para demolir, esmagar, matar.

O grito tristemente conhecido viva la muerte explicita bem este conceito: «A morte, a sua ou a dos outros… se possível muitos, excita e agita a imaginação do fanático». Opõe-se assim à vida, considerando o mundo com desprezo. Pretende reabilitá-lo, sonhando com um paraíso aqui ou noutro mundo, através dessa louca eliminação.

A infantilização da sociedade, a vida levada «como um entretenimento, o seguidismo, a obediência sem reflexão, o desejo de pertencer a um bloco humano muito coeso…» estão relacionados com o fanatismo. Mas há também o «fanatismo antifanático»: exemplo disso é todo o fervor em Israel e no Ocidente, toda a espécie de cruzadas para travar a jihad e toda a espécie de jihades destinadas a vencer os novos cruzados. É provável que o único factor capaz de conter a ascensão do Islão radical seja justamente o Islão moderado.

A literatura, segundo o autor, é um «antídoto» contra o fanatismo, pois aí encontramos a beleza das diferenças de carácter nas personagens; viajamos através da imaginação, não esquecendo o humor. Rir-se de si mesmo, reflectir e apreciar as contradições…

Confessa não se identificar nem como um pacifista nem com a violência. Para ele a agressividade é que é «a mãe da violência».

O homem é «uma península». Segundo o autor, os povos, as etnias, as pessoas, devem «estar por perto, por vezes muito perto, mas sem se apagarem as diferenças, sem se fundirem, sem se anularem».

 

Luzes e não uma única luz

No segundo ensaio, o escritor analisa a personalidade judaica. Tradicionalmente, esta adora a discussão, a altercação, interrogando, lutando, negociando, mesmo com Deus, tal como se encontram inúmeros exemplos na Bíblia. «Santifica-se a controvérsia, em nome de objectivos espirituais».

Segundo o autor, esta atitude «não constitui uma situação de fraqueza incómoda», mas é sinal de vivacidade, de criatividade. Amos Oz critica fortemente a situação a que chegou o judaísmo ortodoxo: não discute; recusa em adaptar-se a novas situações, a analisá-las, a reconhecer a existência de uma situação nova.

«Deus vingará o seu sangue!» – repetem os ortodoxos ao referirem-se às vítimas do nazismo. Mentalidades fechadas, fanáticas acompanham sempre um Deus sanguinário que afasta os jovens da cultura e religião judaicas. Citando o escritor Micha Y. Berdichevsky, define assim o judeu e o judaísmo: «o homem vivo é mais importante do que o legado dos nossos antepassados», embora ache que a santificação da vida judaica está muito clara nos seguintes passos, por exemplo: «Não causarás dor»; «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti».

 

Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente

É neste último ensaio que o autor põe claramente a questão «de vida ou de morte» para o Estado de Israel:

Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, é muito possível que, para retardar a criação de um estado árabe do mar até ao Jordão, se erga aqui, temporariamente, uma ditadura de judeus fanáticos… de características raciais, que subjugará com mão de ferro quer os árabes quer os seus opositores judeus. Uma ditadura destas não terá uma vida longa.

Palavras proféticas de Amos Oz. O seu libelo para as gerações futuras. Critica os que apregoam expressões como «conflito insolúvel» ou a anexação dos territórios por Israel é «irreversível» e por isso defendem «gestão do conflito», isto é:

Continuação das guerras, até à queda da Autoridade Palestiniana e a ascensão do Hamas ou de um factor mais radical e fanático do que o Hamas.

Critica os vários pontos de vista erróneos dos seus patriotas e exclama:

Não estamos sozinhos em Jerusalém. Digo o mesmo aos meus amigos palestinianos. Vocês não estão sozinhos nesta terra. Não temos outro remédio senão de dividir esta pequena terra em dois apartamentos ainda mais pequenos… sim ao compromisso entre Israel e a Palestina.

Neste momento, não sei se o sonho de Amos Oz se realizará. Esperança, não sejas uma palavra vã!

 

[1] Amoz Oz, Caros Fanáticos, ed. Leya/D. Quixote; do autor, além deste, estão publicados em Portugal: Contra o Fanatismo; A Caixa Negra; Conhecer Uma Mulher; A Terceira Condição; Não Chames Noite à Noite; Uma Pantera Na Cave; O Meu Michael; O Mesmo Mar; Uma História de Amor e Trevas; Cenas da Vida de Aldeia; Entre Amigos; e Judas.   

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

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