Testemunho de Marta Luís, de Pemba

“A esperança de que um dia vamos reconstruir de novo a nossa vida”

| 6 Ago 2023

Na vigília de sábado à noite, Marta Luís, 18 anos, de Cabo Delgado (Moçambique) deu um testemunho sobre a situação de violência terrorista que se vive na sua região. Este é o texto.

Marta Luís, 18 anos, de Cabo Delgado (Moçambique): “Nunca perdemos a nossa fé,”  Foto © Jesus Huerta/JMJ 2023

 

Chamo-me Marta, tenho 18 anos. Venho de Moçambique, da província de Cabo Delgado, onde enfrentamos uma guerra que já dura há cinco anos. Sou do distrito de Muidumbe e duma região chamada Planalto do Povo Maconde. Participava na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, também conhecida como Missão de Nangololo.

Venho de uma família simples e pobre. Cedo perdi meu pai, tinha apenas 7 anos. Depois que meu pai morreu, continuamos na nossa missão, minha mãe com as quatro filhas. Estudava na comunidade da paróquia e participava na vida da paróquia, onde era acólita e também participava nos encontros para ser crismada.

Na região norte onde morávamos, ouvia falar dos ataques terroristas que aconteciam nas outras localidades perto do nosso distrito, mas não imaginávamos que também iríamos ser atacados. 7 de Abril de 2021, pela manhã, os terroristas atacaram a nossa aldeia. Fugimos com toda a família para o mato. Ficámos quatro dias escondidos. Quando soubemos que os terroristas tinham saído, voltámos para casa. Passávamos o dia em casa e, à noite, por medo, voltávamos a dormir no mato. Rezávamos muito pedindo a Deus que nos livrasse de todo o mal e para que o Senhor nos desse a força para superar aquele momento de dificuldade. Não dormíamos a noite toda, ficávamos a rezar Avé Maria e Pai Nosso, pedindo ao Senhor para que não acontecesse o pior nas casas das pessoas.

Depois do ataque do mês de Abril, continuámos as nossas vidas na aldeia, mas no dia 31 de Outubro de 2021 os terroristas voltaram a atacar novamente. Esse ataque foi muito grande e fugimos de novo para o mato. Caminhámos muito, sem saber o que fazer. Não tínhamos comida nem água. Passámos muita fome. Os terroristas encontraram-nos no mato e deram um tiro para cima. Não fizeram nada com a nossa família, mas sentimos muito medo e saímos correndo.

Com muita dificuldade, conseguimos chegar na província de Nampula, onde fomos acolhidos por alguns familiares. Quando estávamos no mato, rezávamos muito, em nenhum momento perdemos nossa fé. Pedi a Deus que nos ajudasse e tirasse toda a maldade do mundo, e que as pessoas que estavam provocando essa guerra mudassem de vida. Mas em meio de todo o sofrimento, nunca perdemos a nossa fé, a esperança de que um dia vamos reconstruir de novo a nossa vida.

 

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