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Autobiografia do Papa, Esperança. Foto DR

Autobiografia do Papa

A Esperança segundo Francisco

| 02/03/2025

 

É a primeira vez na história que um Papa publica a sua autobiografia. O projeto deste livro arrancou em 2019, pois nasceu de longas conversas com o editor Carlo Musso, que completou a informação com numerosas leituras.

Tudo começa com os avós paternos e o pai do Papa que deixam a Itália e, numa viagem longa e arriscada de barco, atravessam o Atlântico e chegam à Argentina. A Europa foi fragilizada, durante a primeira metade do século XX, pelas duas guerras mundiais. Houve grandes surtos migratórios, muitas mortes, pobreza generalizada. Nas histórias sofridas dos avós e pais do Papa percebe-se porque Francisco tem particular atração pelas periferias, pede portas abertas aos migrantes, quer pontes em vez de muros e qualifica a guerra como derrota da humanidade. Este tema percorre todo o livro. O Papa fala de “uma irracionalidade criminosa”: “demasiados órfãos, demasiadas viúvas, demasiados deslocados e demasiados escombros”. São 59 focos de violência ferozes, a tal “terceira guerra mundial aos pedaços”. Insiste na urgência de pôr fim às guerras entre Rússia e Ucrânia, entre Israel e Palestina… Cita os temas da Via Sacra no Coliseu de Roma e, por fim, sugere a troca da produção de armas por alimentos.

 

Da química aos Jesuítas

Esta biografia é distribuída por 25 curtos capítulos, todos eles com um título desafiante. O Papa fala sempre com muita ternura da sua família, sobretudo dos pais e dos cinco irmãos que eles geraram e educaram na fé. O texto é vivo, corrido, descendo a pormenores relativos à infância e juventude do Papa, desvelando gostos culturais e desportivos (sempre a apoiar o grande clube do seu bairro popular, o San Lorenzo!). Colecionava selos, gostava muito de ler e de música clássica. Foi interno num colégio salesiano, uma escola de vida. Trabalhou nas férias. Estudou indústria química numa escola técnica, onde ganhou amigos para a vida. Não fazia férias fora de casa (tradição que manteve até agora). Finalmente, entrou nos jesuítas e desde muito cedo acompanha a política que, em muitos momentos da história da Argentina, é marcada pela violação frontal dos direitos humanos e responsável por assassinatos e torturas, sobretudo nos tempos de ditadura militar. Também ali se sente nascer um grande defensor dos valores da doutrina social da Igreja.

Contra a vontade da mãe, não iria para a faculdade de medicina, mas entrou no seminário diocesano. Esteve às portas da morte, durante um surto de gripe asiática. Depois, removeram-lhe o lobo superior do pulmão direito. Acabou por entrar nos jesuítas por causa da “vida em comunidade, do caráter missionário e a disciplina”. Convencido de que “ninguém se salva sozinho (nem mesmo um Papa!)”, viria a optar, depois de eleito, por viver na Casa de Santa Marta, junto com outras pessoas, e não sozinho no Palácio Apostólico.

 

‘Não te esqueças dos pobres!’

capa Autobiografia Francisco

O jovem Bergoglio. Foto: Direitos reservados.

Estudou na Argentina e no Chile, país que ele recordaria mais tarde, pois ali aconteceram graves abusos de menores, contra os quais o Papa luta implacavelmente. As bombas atómicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki “obrigam-no” a uma visita como Papa ao Japão, para mais uma condenação radical da guerra. Evoca o Concílio Vaticano II, as intervenções de Luther King, a ida à Lua… e a sua ordenação de padre em 1969. Seria eleito provincial dos jesuítas em 1973, com apenas 36 anos! Depois seria bispo, cardeal e, a 13 de março de 2013, Papa! É emocionante a narrativa que faz dos tempos de conclave em que ultrapassou os 77 (dos 115) votos necessários para ser eleito. E o nome Francisco foi-lhe sugerido pelo pedido do cardeal Hummes em plena Capela Sistina: “Não te esqueças dos pobres!” Foi à varanda da basílica, foi jantar com os cardeais e, quando lhe pediram um brinde, levantou o copo e disse: “Que Deus vos perdoe!” No dia seguinte foi a Santa Maria Maior confiar o pontificado à Mãe e de lá seguiu para a residência Paulo VI, a fim de pagar a estadia! Decidiu não ficar a morar no apartamento pontifício, mas no quarto 201 da Casa Santa Marta. Decidiu ser sepultado em Santa Maria Maior.

Ao falar da sua terra, confessa: “O continente latino-americano é marcado por duas realidades: a pobreza e o cristianismo; é um continente com muitos pobres e muitos cristãos’. Daí a espiritualidade popular de que fala o Documento de Aparecida (2007).

 

Limpar, abrir e desmasculinizar

O Papa Francisco defende que a Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai, “não uma alfândega, mas a casa paterna onde há lugar para cada um (…) deve chegar a todos, sem exceções”. Porque a Igreja é mulher, é decisivo que as mulheres tenham cada vez mais voz na Igreja. Devemos “‘desmasculinizar’ a Igreja, com a convicção de que ‘Maria é mais importante que Pedro, e o carácter místico da mulher é maior que o ministério”. “Não há razões que impeçam as mulheres de assumir papéis de liderança na Igreja.”

Os bispos e padres têm de ser pastores com o cheiro das ovelhas, não tradicionalistas ou fundamentalistas, ostentação de clericalismo. Recebeu de Bento XVI a “caixa Branca”: “Está tudo aqui dentro… Eu cheguei até aqui… agora cabe-te a ti!” Francisco testemunha: “Bento XVI foi para mim um pai e um irmão (…); ajudou-me, aconselhou-me, apoiou-me e defendeu-me até ao fim.”

Mas a abertura da Igreja a todos tem encontrado muitas resistências. O mesmo se diga das reformas da Cúria Romana e da Diocese de Roma. Nomeou o Conselho de Cardeais e iniciou a caminhada sinodal, mudou a lógica da escolha de novos cardeais…

 

Pela paz, pela vida

O Papa partilha momentos muito dolorosos, como a escuta das vítimas da guerra na República Democrática do Congo ou a visita ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Beijou os pés dos líderes do Sudão do Sul. Há que lutar contra a globalização da indiferença.

As duas encíclicas sociais, Laudato Si’ e Fratelli Tutti, assentam no princípio de que tudo está interligado. A pandemia do coronavírus confirmou-o. Morreram mais de 20 milhões de pessoas, uma guerra mundial. Por isso, o Papa foi a Santa Maria Maior e a São Marcelo e, depois, levou o ícone de Nossa Senhora e o crucifixo da Igreja de São Marcelo para a grande oração, à chuva, sozinho, na Praça de S. Pedro, difundida em todo o mundo pelos media. Todos na mesma barca a enfrentar a mesma tempestade!

As viagens papais tiveram sempre escolhas cirúrgicas. O Papa quis ir, ainda em tempos de pandemia, ao Iraque, “visitar o avô Abraão”, lá onde os cristãos sobreviventes são de uma coragem à prova da fé. Visitou campos de refugiados e migrantes, denunciando um Mediterrâneo transformado em “frio cemitério sem lápides”.

Sobre os seus limites de saúde, o Papa assume-os. Diz que eles são mais visíveis na locomoção mas defende que “a Igreja se governa com a cabeça e o coração, mas não com as pernas!”

 

O humor, os jovens e a Esperança

Deus é humor e um cristão triste é um triste cristão. Por isso, o Papa convidou ao Vaticano cem artistas humoristas. Conta diversas anedotas que envolvem papas e defende que o mau humor nunca é sinal de santidade.

Os jovens são presente e futuro. A educação é um ato de esperança que do presente olha o futuro. O Papa recorda as quatro jornadas mundiais que presidiu: Brasil, Polónia, Panamá e Portugal: “Cresço sempre em esperança quando encontro os jovens!” e estamos já debaixo das asas da Inteligência Artificial que é a trincheira avançada da inovação tecnológica. Mas as mudanças climáticas lançam desafios ecológicos enormes, implicando uma mudança de estilo de vida. Mas – para o Papa é claro – “a IA não pode construir um mundo sem coração”.

A Igreja tem raízes no futuro, na promessa de Cristo. São as testemunhas que movem os corações, é por atração que se cresce. Uma Igreja fechada, assustada, é uma Igreja morta. Também a indiferença mata. A esperança nunca desilude. É a esperança que mantém em pé a vida, que a protege, a guarda, a faz crescer. A esperança é uma âncora. Vivemos o Jubileu que nos oferece a experiência que suscita no coração a esperança certa da salvação. Quando estamos um pouco cansados, o Senhor sabe mesmo levar-nos ao colo.

Conclui e resume o Papa: “Para nós, cristãos, o futuro tem um nome e esse nome é esperança!”

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.

 

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