A espiral da vida

| 27 Mar 21

Espiral Escadas

“Desde há muito comparo a vida de cada pessoa a uma evolução em espiral: a cada momento, tentamos subir e alcançar a plenitude do que mais profundamente desejamos e nos fará felizes sem sombra alguma.” Foto © Ludde Lorentz / Unsplash

 

No meu texto anterior, referi o doutrinamento como atitude ou vontade de impedir a todo o custo maneiras diferentes de pensar.

Nem os melhores argumentos podem abalar a crença do doutrinado. Radica-se nele o medo de “abrir os olhos”, a preguiça intelectual e dependência do doutrinador. Dá-se um atentado directo contra uma característica essencial do Homem educado: a insatisfação que levanta um contínuo porquê.

A libertação dessa venda nos olhos põe a descoberto como a nossa força racional tem a responsabilidade de criar alicerces com solidez dinâmica: provocadora de transformações que superem o nível anterior.

Assim é que desde há muito comparo a vida de cada pessoa a uma evolução em espiral: a cada momento, tentamos subir e alcançar a plenitude do que mais profundamente desejamos e nos fará felizes sem sombra alguma. E esse desejo profundo será como um eixo ou vector à volta do qual rodopiamos.

Há quem prefira andar agarradinho a esse vector, crendo que se tornaria feliz e perfeito mais depressa. Mas essa obsessão não o deixa apreciar a paisagem, viver experiências novas, relações humanas… sem tempo para sorrir e sem aventuras a partilhar. Ou tem medo de se perder. Pior ainda, se é gente que apenas tem por objectivo passar à frente dos outros – e se der jeito, transforma os outros em “matéria descartável”.

De modo geral, porém, somos atraídos por aventuras que nos desviam perigosamente. Se nos afastamos do campo magnético do vector, é muito provável que nos percamos no vazio. Aventureiros em tudo o que é droga para a vida nem sempre terão a sorte de serem recolhidos por uma boa nave espacial.

Com muitas ou poucas aventuras, a espiral da vida tem uma peculiaridade: para quem nos observe e para o próprio, não estamos sempre a subir: podemos voltar muito abaixo do nível alcançado. Mas se o desejo não morreu, esta sensação apenas indica que a riqueza das experiências vividas não está a ser devidamente digerida. Na realidade, estaremos a subir: em breve, a energia acumulada nos faz subir com mais força e resiliência. Também se pode aplicar o adágio: quem tropeça e não cai dá um passo em frente: transforma a sua experiência negativa em sabedoria.

Será possível um GPS para a vida? Comecemos por dois problemas: (a) se se pode falar de informação total; (b) como se pode dar uma informação de modo a não cair no doutrinamento.

A informação total é um ideal: seria o conjunto de todos os sistemas científicos plenamente desenvolvidos no seu conteúdo ou o conjunto das formas de conhecimento. É academicamente requerida para as “especialidades”, sectores de informação bem definida. Mesmo assim, não há a certeza de se cobrirem todas as relações, janelas e portas para outros campos do conhecimento. Como ideal, implica permanente abertura inquiridora quanto aos pontos cardiais, concretizada nas formas de conhecimento.

As formas de conhecimento lembram uma gigantesca rotunda com placas de orientação para todos os sítios. Podemos conhecer bem apenas dois ou três, mas sabemos o nome de todos os outros e a quem poderemos recorrer.

Pretende-se uma visão do mundo bem organizada, tanto no que diz respeito ao passado como na projecção do futuro. “Adquirir conhecimento é aprender a ver e a experimentar o mundo de uma maneira que nos seria desconhecida, e a desenvolver o nosso espírito da maneira mais plena”, dizia Paul H. Hirst, notável filósofo da educação.

Vê-se aqui a grave responsabilidade da planificação curricular e da introdução ao conhecimento em geral: apresentando os aspectos que mais tipicamente representam o pensamento científico e a sabedoria actuais, de um modo lógico e claro, e que suscite o espírito curioso de novas e novas relações. Essa introdução começará, portanto, pela compreensão do leque das formas de conhecimento básicas (as tabuletas da rotunda), capazes de nos encaminharem satisfatoriamente e com agrado. Não é verdade que a etimologia de “Enciclopédia” mostra claramente o significado de “cultura (e educação) em círculo”?

À educação que nos liberta pode-se chamar “educação liberal”: depende das formas de conhecimento eficazes para iluminar as alternativas que se oferecem ao sujeito. É pior não falar de uma posição alternativa do que atacá-la – pois assim, ao menos, ouve-se falar dela. Qualquer justificação, além de fornecer as razões pró e contra, deve manifestar a hipótese ou pergunta fundamental: a de que pode haver posições contrárias, igualmente bem fundadas ou ainda melhores. O erro está sempre presente, pois mesmo o que é tido como logicamente necessário depende de uma expressão sempre limitada, não adequada plenamente. As formas de conhecimento básicas impedem que sejamos instrumentalizados e vendados, na medida em que nos dão o maior alargamento possível da consciência de estar no mundo.

Porém, a espiral da vida encarrega-se de ir pedindo novas perspectivas e restruturações: exige educação permanente. Se a educação é crescimento, parar de crescer é morrer. Se alguém abandona o desejo de educação permanente, é porque já houve uma falha na educação fundamental.

Trabalho de casa: Que forma de conhecimento será a religião?

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário

 

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