A espiritualidade em tempo de pandemia

| 4 Dez 20

“Parece que vivemos o Tempo suspenso. Ao olhar para a vida que vivemos, mais confinada e, ao mesmo tempo, mais desgastada, há um misto de angústia entre os dias que passam”. Foto © José Centeio

 

Parece que vivemos o Tempo suspenso. Ao olhar para a vida que vivemos, mais confinada e, ao mesmo tempo, mais desgastada, há um misto de angústia entre os dias que passam. Os números de infetados e mortos aumentam, a solução parece ser um vislumbre de esperança coletiva e uma certeza de um esforço comum e longo para não deixar ninguém para trás. Olhamos também para a vida que levávamos e até parece que éramos felizes, tudo corria bem, ou pelo menos melhor, e sentimos saudade desse tempo que já começa a parecer distante. O que fica na alma entre o tempo que passa?

A fé tornou-se hoje mais decisiva e a espiritualidade que a alimenta uma dimensão da vida que pode correr o risco de poucos a alcançarem. Quanto não terá ajudado a viver o isolamento e confinamento imposto? Sempre podemos descobrir este período de maior solitude como aquele espaço pessoal e tempo disponível para preencher de sentido e significado. O risco será fazer coisas, não pensar, fazer dispersar a memória e a mente para as recordações de felicidades passadas; contudo, esta forma inesperada de vivermos o Tempo no presente pode dar-nos a capacidade de compreender o valor do que se faz e do que se tem, entre a fragilidade da vida e a possibilidade de continuar a olhar para o futuro.

Quem conseguir ler profunda e espiritualmente este Tempo, descobrirá uma forma e um meio de transformação pessoal que o fará ser diferente, talvez cuidando mais a criação, o outro e a própria vida; quem viver este período na solidão, na incapacidade de reler o sentido da própria existência, poderá não ir além daquela atitude primária de quem volta à prepotências das agendas, à escravidão das reuniões, aos horários indisciplinados e velozes, à displicência com a família e à arrogância sobre o ambiente e a Criação.

Viver a partir da fé faz olhar para a crise presente sem fugir dela. Talvez possamos aprender a estar na própria dor e na dor dos outros sem fugir. É um amigo doente, um familiar que partiu, um jovem desesperado… mas cada um com a sua cruz, a sua dor. Viver a própria dor como caminho de Páscoa será uma aprendizagem difícil, mas testemunhada por tantos que o viveram neste tempo. Viver o sofrimento dos outros sem fugir só pode ser merecedor de uma sociedade que se comprometa ainda mais por uma cultura da vida. Talvez a dor e sofrimento nos façam descobrir a beleza da palavra ‘cuidar’. Biblicamente o amor de Deus é compassivo, capaz de entrar no sofrimento entranhado no outro, abraçando-o.

Dizem que crises são também novas oportunidades. Pelo menos trazem novas opções de vida a partir da capacidade de ajuizarmos sobre ela. ‘Discernimento’ e ‘escolha’ entram no nosso novo léxico humano e espiritual, sejam nas decisões meramente práticas, mas também nas orientações mais profundas que poderemos empreender.

Talvez seja por aí a novidade que a espiritualidade poderá trazer neste tempo: habitar o Tempo presente, moldando o coração para empreender uma novidade-de-mim-mesmo. Não podemos querer que a pandemia passe depressa para voltarmos à nossa vida anterior quando essa tem que se transformar. Que mundo, que família, que sociedade, que Igreja somos chamados a empreender desde já? Temo que ainda não tenhamos vivido a pandemia de tal forma que nos faça olhar profundamente para a vida ao ponto de não desejar mais voltar ao antigamente. Um tempo novo deve surgir, já o vês? A espiritualidade permite ver um rebento novo onde muitos veem apenas cinzas. Se não cuidamos dessa forma de ver, não deixaremos de ser cinzas que se espalharão em novas tempestades.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

 

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