A espiritualidade terá escapado à pastoral?

| 11 Mar 20

“A espiritualidade terá escapado à pastoral?” é a pergunta forte da teóloga canadiana Pierrette Daviau. Talvez seja verdade que a ação pastoral da Igreja que marcou o pós-Concílio em Portugal olhou com suspeita – e até com alguma rudeza – para âmbitos mais litúrgicos e espirituais. Depois de um certo experimentalismo reformador, tendo-se percorrido uma pastoral mais da ordem do “fazer”, talvez tenhamos olhado mais para a definição de conteúdos de fé, para um conjunto de regras morais e para a organização da nossa pastoral como resposta a inúmeras solicitações.

Passados mais de 50 anos do fim do Concílio Vaticano II, sentimo-nos como que no meio de uma espécie de crise que coloca em evidência uma carência óbvia que se expressa numa certa sede de espiritualidade. A espiritualidade está na moda, faz sucessos de vendas em livrarias, centenas de jovens encontram em Taizé um frescor contraditório na comunhão e no silêncio e existe um certo fascínio pelo Oriente e as suas filosofias e religiões. Os cristãos procuram fora das comunidades paroquiais um caminho espiritual para a vida, seja através de propostas de movimentos ou congregações religiosas, ou em propostas de centros de espiritualidade que, normalmente, nem são de programação diocesana. Não poucas vezes, uma certa cultura new age torna-se mais atrativa na forma e nos conteúdos, aparentemente com uma proposta mais assertiva para a vida desta Casa Comum e das pessoas.

Diante de uma certa carência espiritual, onde a catequese tem dificuldade em gerar um encontro vital, em que a liturgia tem dificuldade em ser celebração ativa e participativa da comunidade, em que o agir real nas opções de vida se distanciam de uma moral cristã, em que diante de realidades de vida se responde mais com regras e leis, em que a oração ainda é mais de fórmulas que de coração, em que os pastores ainda são mais dirigentes que acompanhantes de processos… será possível uma pastoral diferente?

O Papa Francisco faz, na exortação A alegria do Evangelhoum convite claro a que todo o cristão renove o encontro pessoal com Jesus Cristo (nº 3), desafiando a uma “conversão pastoral e missionária” (nº 25) que não pode deixar as coisas como estão e que ultrapasse a simples administração. O Papa também identifica esta dificuldade que se expressa numa tensão entre o espírito e a instituição, entre fechamento-sobre-nós-mesmos e atitude missionária. Não é por acaso que a exortação Alegrai-vos e Exultai procura dar o lugar primeiro e fundamental à espiritualidade que faz brotar no cristão o apelo à santidade no mundo atual.

No “hoje” da vida das comunidades necessitamos de aprofundar caminhos de uma autêntica, séria e profunda “espiritualidade pastoral”. A ligação fundamental entre crer, celebrar e viver é o apelo fundamental que talvez hoje só possa ser harmonizada numa conversão espiritual da nossa pastoral. Levar ao entendimento que a liturgia é princípio e cume da vida da Igreja porque é oração da Igreja e dos crentes; procurar mais aquilo que brota do silêncio e do encontro vital com Cristo que das religiosidades populares do espetáculo; viver a catequese mais como itinerário de fé para a vida e não tanto como um fardo de anos a suportar(mos); acolher o sacerdote no seu ministério mais como pastor que acompanha, aponta, guia e conduz do que o coordenador de ações ou diretor de estruturas; viver cristãmente a comunidade como comunhão a partir do que se celebra e se testemunha na caridade.

Necessitamos de viver uma espiritualidade pastoral que faça transparecer Deus na vida das comunidades e, só assim, estas se tornam verdadeiramente evangelizadoras. Propor a fé no mundo contemporâneo ou, no dizer de S. João Paulo II, viver uma “nova evangelização”, será sempre mais uma ação que brota do regresso às fontes da Fé do que uma técnica. A pastoral ter-se-á tornado uma técnica com receitas mais ou menos generalistas, mas desprovida de vida. Torna-se necessário propor Deus de uma forma atrativa, mas também experiencial, só possível numa espécie de pedagogia da iniciação que, em primeiro lugar, desenvolve uma abertura espiritual capaz de acolher um caminho de fé e santidade.

Vai sendo tempo de reaprendermos o caminho da espiritualidade pastoral, como alma da vida das comunidades cristãs.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

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