Rodrigo Leão em concerto

A estranha beleza da música

| 25 Dez 2021

Rodrigo Leão e o ensemble Cinema Project

 

Rodrigo Leão é o mais cinéfilo dos compositores portugueses, e não apenas pelas bandas sonoras que assinou – A Gaiola Dourada e The Butler, por exemplo – nem pelo óbvio título de Cinema que deu ao seu quinto álbum de originais. É pelas paisagens sonoras que percorre, em cada um dos discos que, cada vez mais, o universo do cinema se cola ao músico que passou antes pela Sétima Legião e pelos Madredeus.

De novo na estrada, apesar da pandemia, Rodrigo juntou-se a um pequeno ensemble que – não engana – se intitula Cinema Project (e que vimos na primeira data em Lisboa, no dia 3 de dezembro, no Museu do Oriente). Para esta digressão, que deveria chegar ao Porto neste domingo, 26 de dezembro, mas cujo concerto foi adiado, Rodrigo Leão convoca os seus três mais recentes trabalhos, O Método, Avis (ambos de 2020) e A Estranha Beleza da Vida (2021).

E é o compositor-músico que traça a linha com que teceu estes seus últimos trabalhos: “Comecei a pensar neste trabalho em outubro de 2020, o mês em que regressei a Lisboa depois de meses de confinamento no meio do campo. Senti diferença logo nos primeiros temas, algo mais positivo, mais feliz, diferente dos ambientes do disco anterior. Alguns remetiam-me para uma época algo distante da que vivemos agora. Talvez não fosse por acaso e até resultasse de uma tentativa inconsciente de esquecer o presente…”

Ao ouvir a sequência das composições é impossível não mergulharmos na cinefilia de que falámos e não vermos projetadas as inóspitas montanhas de westerns, os boulevards parisienses ou as frias terras de fogo e gelo. Algures entre Aconteceu no Oeste, O Fabuloso Destino de Amélie e A Guerra dos Tronos, Rodrigo Leão tece uma sonoridade que não se fragmenta, plano a plano, tema a tema, seguindo uma linha coerente na sua narrativa musical.

O próprio Rodrigo Leão assume que o seu trabalho de composição em alguns dos seus álbuns é pensado como se de filmes se tratassem, uma história que se quer contar. E essa história transpõe-se para um palco com teclas, percussões, cordas, guitarras e vozes.

E das impossibilidades, Rodrigo e o seu ensemble aguçam o engenho. Sem poder contar em palco com a voz do primeiro single do seu mais recente disco, Friend of a Friend, que é da cantora-compositora canadiana Michelle Gurevich, a aposta passa por Ângela Silva, cuja delicadeza e classicismo não é comparável aos tons rugosos e quentes de Gurevich. Mas também é diferente da dramaticidade do flamenco de Martirio que dá vida a Voz de Sal – ou de outros temas recuperados da sua discografia, como por exemplo Pasión ou Lonely Carousel.

Desengane-se quem leia aqui uma menorização desta opção, como voz principal, de Ângela Silva, que já há muito acompanha Rodrigo. Há mais uma vez um sopro cinéfilo que resgata também paisagens sonoras muito próprias com o desenho destas vozes. E há a surpresa dos coros assegurados pelos filhos de Leão, num contraponto polifónico grave que se desconstrói pela presença leve e descontraída dos jovens.

É a estranha beleza da música que se descobre a cada tema do percurso de Rodrigo Leão e, por isso, escutar Ave Mundi, dessa fulgurante estreia a solo, do já longínquo ano de 1993, a rematar o concerto, é apenas mais uma confirmação de como cada plano se encaixa de forma irrepreensível e bela neste cinema de sons e que ainda nos espanta.

 

Rodrigo Leão

O Método (2020), BMG
Avis 2020 (2020, EP), disponibilizado em streaming
A estranha beleza da vida (2021), BMG
Reunidos numa edição única com o nome de Liberdade (2021), BMG

 

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