O Papa que visita Portugal em Agosto está à beira do fim: pressente-se o crepúsculo do pontificado; mas está também a dois meses de um dos fins da sua revolução. Esboço do legado de Francisco a partir de algumas das suas palavras essenciais.

Papa Francisco: “sinodalidade” entrou no léxico católico há dois anos. Foto © JMJ Lisboa 2023
Há preocupações de saúde que se avolumam e até há já quem conte em Roma que, mal o Papa foi hospitalizado no final de Março, logo alguns cardeais se apressaram a viajar para o Vaticano. Vontade de picar o ponto e fazer-se notados na linha de partida para a sucessão que se sente próxima? Certo é que em alguns média já há artigos a propor ou a “queimar” nomes para a sucessão e este pontificado começa a aproximar-se do fim, percebe-se. Mas Francisco está também à beira de um dos fins principais a que se propôs: debater a necessidade de uma Igreja mais participada e inclusiva para todos, processo que terá em Outubro uma etapa importante, a partir de uma palavra estranha (sinodalidade) e de palavras e gestos que, pela primeira vez, são aceites em documentos e assembleias oficiais do Vaticano.
Na realidade, “sinodalidade” entrou no léxico católico desde há dois anos; a palavra quer dizer “caminhar juntos” e traduz a ideia de pôr todos os crentes (católicos, no caso) a participar na vida da Igreja – e nos seus processos de decisão. Uma pequena-grande revolução. Em Roma, a assembleia do Sínodo dos Bispos estará reunida durante todo o mês de Outubro. Pela primeira vez, haverá mulheres com direito a voto; pela primeira vez, um grupo alargado de não-bispos (um quarto dos participantes, de facto) estará na assembleia; pela primeira vez um texto oficial da Igreja – o “documento de trabalho” para debate– fala em pessoas LGBT, entre outros temas não muito fáceis para alguns meios católicos; e pela primeira vez, fala-se explicitamente, também no mesmo texto, de “abuso de poder”, de abusos espirituais e de consciência.
Massimo Faggioli, teólogo e historiador, que lecciona entre Itália, Estados Unidos e Austrália, um dos mais argutos leitores do pontificado de Francisco (escreve no La Croix International), observou já que “os passos de bebé decisivos que Francisco deu em direcção a uma ‘Igreja sinodal’ constituem a mais importante reforma institucional do seu pontificado”. E o jornalista inglês Austen Ivereigh, um destacado biógrafo do Papa, nota no seu livro O Pastor Ferido (talvez o mais completo retrato de Francisco e do seu pensamento): “A sinodalidade é o coração da reforma de Francisco.”
Cristina Inogés Sanz é a teóloga espanhola que foi nomeada há dias, por escolha directa do Papa, como membro da assembleia do Sínodo com direito a voto, depois de há dois anos ter feito, também a convite de Francisco, a conferência de abertura do processo do Sínodo, em Roma. E alinha pela mesma opinião: “A sinodalidade é o grande legado deste pontificado”, nota, em declarações à revista E. “Este momento é empolgante”, diz. Desde o II Concílio do Vaticano que, entre 1962-65, pôs em marcha a reforma da Igreja, esta “é a primeira vez que se assume seriamente esta realidade da comunhão eclesial”. E antecipa a teóloga: “Já estamos à beira do Sínodo do Povo de Deus, graças à decisão de Francisco de permitir que 25% da assembleia de Outubro sejam não-bispos. Temos de continuar nesta linha.”
A assinatura do 7MARGENS é gratuita. Basta carregar aqui.
“Aleluia!”

Numa conferência em Abril, na Universidade Loyola de Chicago (EUA), também o bispo John Stowe, franciscano, manifestava a sua esperança de que “sinodalidade” se tornasse a contribuição mais duradoura de Francisco para o “vocabulário católico”. A sua intervenção, entretanto publicada na página digital da revista Commonweal, tinha o título significativo de “A visão do Papa Francisco para a Igreja – Em busca de uma Igreja ao serviço do mundo” e lembrava outras duas palavras que marcaram (ou ainda marcam) o actual pontificado: periferias e alegria.
Se fizermos a exegese dos textos, gestos e pronunciamentos de Francisco, poderemos catalogar outras palavras igualmente importantes que traduzem o que têm sido estes dez anos de pontificado “franciscano”. Palavras que também nos falam dos desejos de Francisco e do que já se pode ver como o legado deste Papa para o pensamento católico do século XXI: misericórdia, ecologia integral, cuidado ou fraternidade.
Cristina Inogés refere ainda a desclericalização da Igreja e a ideia da evangelização: na Praedicate evangelium, a constituição apostólica com que Francisco reformou há um ano o funcionamento da Cúria, a evangelização passou a ter “precedência sobre a doutrina – aleluia”, exclama Cristina Inogés. “É preciso voltar ao essencial. Há muitos anos que andamos a experimentar formas e meios em tudo: catequese, acompanhamento, Jornada Mundial da Juventude… No final, nada funciona. Talvez seja necessário voltar ao mais simples e mais profundo, que é o Evangelho. E eu entendo que a evangelização deve ser feita dentro da própria Igreja e fora dela.”
Descentramento

O léxico franciscano condensa-se, de facto, na ideia da sinodalidade – e esta, á semelhança do pensamento circular de Francisco, traduz também as restantes realidades. Mas retomem-se algumas das palavras, começando por aquela que marcou a sua eleição: em 2013, Francisco foi o primeiro Papa a ser escolhido fora do eixo euro-mediterrânico (além dos europeus, e mesmo sabendo que a centralização do papado só se consolidou no segundo milénio cristão, houve apenas meia dúzia de bispos de Roma oriundos do Norte de África e do Médio Oriente, todos nos primeiros mil anos de cristianismo). A opção de Bergoglio enquanto Papa foi a de um governo da Igreja menos euro-centrado e mais atento às diferentes realidades do mundo. E também acentuando a ideia de participação de todos naquilo que a todos diz respeito – precisamente a experiência que o catolicismo latino-americano tinha desenvolvido nas décadas de 1960-90, antes de sofrer vários golpes infligidos pelo centralismo defendido precisamente por João Paulo II e Bento XVI.
O próprio Francisco apontara esse descentramento nas reuniões pré-conclave: “Evangelizar supõe para a Igreja a ousadia de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não só geográficas, mas também existenciais”, afirmou, perante os seus pares, o então cardeal Jorge Bergoglio, dias antes de ser eleito. Explicando a seguir o que cabia dentro da frase: “As periferias do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desprezo relativamente à religião, do pensamento e de toda a miséria.”
Para essas periferias assim colocadas no centro, a Igreja (os cristãos) deveria ser um “hospital de campanha”, como também já referiu em diversas ocasiões. Por isso, essa ideia esteve presente na escolha do seu nome papal – “lembra-te dos pobres”, dissera-lhe o cardeal brasileiro Claudio Hummes, no momento em que Bergoglio foi eleito Papa. Por isso também a primeira viagem do pontificado foi a Lampedusa, para homenagear os refugiados que atravessam o Mediterrâneo ou nele ficam sepultados e para chorar a “globalização da indiferença”; por isso levou consigo, para Roma, várias famílias de refugiados que esperavam na Grécia ou em Chipre a possibilidade de recomeçar a vida; por isso o mapa-mundo das suas viagens inclui tantos dos países que menos contam na geoestratégia internacional; por isso, dentro desses países, ele se encontra com as populações mais marginalizadas; por isso ele vai às prisões lembrar aqueles que as sociedades escondem; e a lista poderia continuar…
“Alegria” foi outra dimensão que o Papa tentou tornar mais presente no léxico católico. “Quando é que alguma vez se ouviu falar tanto da alegria do Evangelho? A alegria do amor, especialmente do amor conjugal e familiar? A alegria do chamamento à santidade?”, perguntava o bispo Stowe na conferência citada, referindo “a alegria que Francisco exprime em cada encontro com os refugiados, os migrantes, os presos, os que vivem nos guetos, os hospitalizados e os que estão em lares de idosos”.
Aliás, pela primeira vez, um Papa repete “alegria” no título de vários dos seus documentos mais importantes. Desde a primeira exortação apostólica, A Alegria do Evangelho, onde regista o célebre diagnóstico “esta economia mata” e apela a um novo dinamismo dentro das comunidades católicas. A mesma palavra nas exortações A Alegria do Amor, sobre a família (onde abria a hipótese da comunhão a pessoas divorciadas que voltaram a casar) ou a Alegrai-vos e Exultai, acerca do modo como todos os crentes podem ser “santos” no mundo actual.
A assinatura do 7MARGENS é gratuita. Basta carregar aqui.
Misericórdia
Apesar da “alegria” ser uma palavra muito presente na Bíblia – culminando com o apelo do apóstolo Paulo na Carta aos Filipenses: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: Alegrai-vos” – o cristianismo sacrificial e barroco acabou por triunfar, revestido de uma forte carga moralista. O rosto dos cristãos passou a revelar que eles “parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa”, como diz o Papa no primeiro dos textos citados, o seu documento programático.
As imagens do Papa numa cadeira de rodas ou hospitalizado duas vezes em pouco mais de dois meses podem impressionar. Mas Bergoglio ressuscita cada vez que contacta com as pessoas: nas audiências-gerais das quartas-feiras, em encontros mais restritos, com pessoas mais pobres, com refugiados ou com detidos em prisões, ele aparece revigorado, animando os que precisam.
Misericórdia foi outra palavra que condensou o pensamento bergogliano. Entre 2015 e 2016, Francisco proclamou o “Jubileu da Misericórdia”, com ele pretendendo colocar toda a Igreja num movimento que tornasse “visível e palpável a verdade profunda do Evangelho”, como escreveu na carta Misericordia et misera, com que assinalou o final desse ano especial. A misericórdia não tem a ver com um simples sentimento de pena, mas, a partir da raiz latina da palavra – miserere (compaixão) + cordis (coração) – remete para a ideia de assumir o sofrimento ou os sentimentos da outra pessoa. Indo mais além do gesto solidário, misericórdia é empatia, assunção plena das dores, necessidades e anseios do outro.
A ecologia integral ganhou direitos de cidadania “franciscana” com a encíclica Laudato si’ (“Louvado sejas”, a expressão com que Francisco de Assis iniciava o seu Cântico das Criaturas). A expressão veio explicitar e alargar o conceito de cuidado a que Francisco se referiu logo na missa de início do seu pontificado; cuidado e misericórdia estão, no vocabulário papal, umbilicalmente ligados; a natureza e as pessoas devem estar no centro do cuidado dos crentes: não se trata de uma qualquer divinização ou humanização da natureza; antes tem a ver com a interdependência entre os seres humanos, os restantes seres vivos e a “casa comum”.
Falando da ecologia integral, resume o Papa na Laudato si’: “Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente.” Não é por acaso que Francisco relaciona estes temas não só com questões culturais (chamando a atenção para o papel dos povos indígenas e o seu respeito pela terra, como fez na exortação Querida Amazónia), como também com a economia, o direito à habitação, a pobreza extrema, as alterações climáticas, os refugiados, a corrida aos armamentos e a eclosão de guerras.
No livro O Que Vos Peço, em Nome de Deus, que acaba de ser publicado em Portugal (ed. Presença), Francisco justifica ainda, a propósito deste tema, que “a Criação não é uma propriedade de que possamos dispor a nosso bel-prazer”. Antes “é uma dádiva maravilhosa que Deus nos deu para que cuidássemos dela e a gozássemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão”.
Voz quase solitária

E desembocamos na ideia da fraternidade, tema da sua última encíclica, Fratelli tutti (“Todos irmãos”) que, com a Laudato si’ e a Querida Amazónia, se podem considerar a síntese do pensamento “sócio-político” do Papa. “Uma dose saudável de espiritualidade franciscana”, dizia o bispo Stowe sobre aqueles documentos, que destacam “a inter-relação de toda a criação e a necessidade de viver em fraternidade com toda a humanidade e com toda a criação”.
Na encíclica, Francisco faz um diagnóstico vasto sobre o que se passa em temas como as migrações e os refugiados, os populismos e o racismo, as novas escravaturas e o tráfico de pessoas, a violência sobre mulheres e crianças. Para resolver esses problemas, propõe as ideias da amizade social e da fraternidade, onde se incluem o respeito pelos direitos humanos, a função social da propriedade, a dimensão política do perdão (lembrando exemplos como os da África do Sul, no que ele designa o “artesanato da paz”) e a luta por um mundo pacífico. Neste âmbito, está o desejo de acabar com a invasão e a guerra da Ucrânia e a sua insistência em não esquecer as outras guerras, como fez ainda no primeiro domingo deste mês.
Não se trata, no entanto, apenas de lembrar tais situações: entre outros exemplos que concretizam o que diz, o Papa visitou o Iraque destroçado pela guerra e pelo terrorismo, e esteve no meio das guerras civis do Congo, Sudão do Sul e República Centro-Africana – neste país, abriu a “porta santa” do jubileu da misericórdia, em 2015, e visitou um bairro muçulmano cercado por milícias cristãs.
Neste tema, Francisco é uma voz quase solitária – António Guterres é dos poucos líderes mundiais que insiste e trabalha pelas mesmas ideias –, num tempo em que os governos continuam a alimentar o discurso belicista (mesmo com uma argumentação defensiva) e em que o investimento em despesas militares cresce exponencialmente: entre 2019 e 2021, apesar da pandemia, elas aumentaram 2,6 por cento para quase dois milhões de milhões de dólares, de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute, da Suécia. E em Abril, o mesmo SIPRI contabilizava para 2022 o valor astronómico de 2,24 mil biliões de dólares, o equivalente a perto de 10 vezes o PIB desse ano, correspondente a um aumento da despesa mundial de 3,7 por cento. Por via da guerra na Ucrânia, a Europa registou o maior aumento anual (13%) das últimas três décadas.
A constituição de um fundo contra a fome financiado pelo dinheiro que se gasta precisamente em despesas militares é uma das propostas concretas do Papa na encíclica. A par do fim das armas nucleares, da eliminação da pena de morte e da prisão perpétua, e da reforma “quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”.
A assinatura do 7MARGENS é gratuita. Basta carregar aqui.
Liberdade, igualdade, fraternidade

A Fratelli tutti, publicada em Outubro de 2020, quando o mundo ainda chorava os milhões de mortos da pandemia da covid-19, foi publicada meses depois daquela que ficou como uma das imagens-ícone do pontificado. Em Março, Francisco atravessou sozinho a Praça de São Pedro, disse que as pessoas verdadeiramente indispensáveis eram os médicos, enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, transportadores, forças policiais, voluntários, religiosos… E lembrou: “Estamos todos no mesmo barco. É o tempo de reajustar a vida. Só o conseguiremos juntos.”
Relacionando, na encíclica, a trilogia da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade –, o Papa diz que nenhum dos três ideais pode acontecer sem os outros: se não houver fraternidade, a liberdade reduz-se à solidão e à autonomia da posse; se não houver fraternidade, a igualdade será uma abstracção ou uma parceria de alguns. “O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade”, escreve o Papa na encíclica.
Muitos dos seus críticos apontam a estas ideias apenas uma deriva ideológica. Quando publicou a Laudato si’, o então candidato republicano às presidenciais nos Estados Unidos, Jeb Bush, disse que Francisco deveria preocupar-se mais com uma religião que “faça as pessoas melhores e menos com questões que têm a ver com aspectos políticos”.
O comentador espanhol Miguel Angel Belloso, que nessa altura mantinha um artigo semanal no Diário de Notícias apresentava-se como católico, mas considerava que Francisco chegava “a ser ofensivo ao assegurar que a propriedade privada não pode estar acima do bem comum”. Ignorava o articulista outra das insistências do Papa: que, desde os primeiros séculos, o pensamento social católico coloca precisamente o bem comum acima da propriedade privada. O insuspeito João Paulo II escreveu, na sua encíclica sobre o trabalho humano, em setembro de 1981, que a tradição cristã “sempre” defendeu que “o direito à propriedade privada está subordinado ao direito ao uso comum, subordinado ao destino universal dos bens”.
Tal enunciado é desenvolvido no Compêndio da Doutrina Social da Igreja: nos primeiros séculos do cristianismo, os chamados “padres da Igreja” chegam a defender que é legítimo um pobre roubar para comer e não ser condenado por isso. A constituição Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo, aprovada no II Concílio do Vaticano [1962-65], recordava e reafirmava esses ensinamentos: “Todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias. Assim pensaram os Padres e Doutores da Igreja, ensinando que os homens têm obrigação de auxiliar os pobres e não apenas com os bens supérfluos. Aquele, porém, que se encontra em extrema necessidade, tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita.”
“Ícone iluminador”

Francisco situa o seu pensamento nesta tradição e sustenta as suas afirmações sempre a partir do Evangelho e da hermenêutica bíblica. No caso da Fratelli tutti e da fraternidade, fazia-o a partir da parábola do bom samaritano, contada por Jesus no evangelho de São Lucas: a história do homem vítima de assaltantes e que depois recebe ajuda de um samaritano – ou seja, um proscrito pelos judeus –, depois de dois religiosos do tempo terem passado ao largo, sem ajudar.
“Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo”, escreve o Papa. “Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano”, escreve o Papa.
O bispo John Stowe recordava que “Francisco vê a missão da Igreja muito mais externa do que interna: ele quer que a Igreja lidere o mundo inteiro no reconhecimento de que todos fazemos parte da família de Deus e temos de viver como irmãs e irmãos com todas as pessoas e com toda a criação.”
O próprio Papa defende que os crentes devem “sujar” as mãos, intervindo politicamente para resolver os grandes problemas do mundo. Num encontro com alunos de escolas jesuítas, em 2013, o Papa Francisco respondeu a uma pergunta sobre o compromisso político e social dos crentes: “Para o cristão, é uma obrigação envolver-se na política. Nós, cristãos, não podemos ‘jogar a fazer o Pilatos’, lavar as mãos. Devemos envolver-nos na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum.” E acrescentava: “A política está muito suja; e ponho-me a pergunta: Mas está suja, porquê? Não será porque os cristãos se envolveram na política sem espírito evangélico? É fácil dizer que ‘a culpa é de fulano’, mas eu que faço? É um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever do cristão! E, muitas vezes, a opção de trabalho é a política.”
Abuso de poder, a grande crise
No seu recente Dicionário do Papa Francisco (ed. Farol), o filósofo catalão Francesc Torralba propõe, a par de algumas das chaves já referidas neste texto, também outras expressões que, não sendo sínteses do pontificado, traduzem algumas das suas ideias principais: o “alzheimer espiritual”, a “autorreferencialidade ou a “mundanidade espiritual” são algumas das que remetem para as pragas do clericalismo e dos abusos – de poder, de consciência, sexuais…
A luta contra os abusos acabou por se constituir também uma característica essencial deste pontificado. “São aviltantes para as pessoas e mostram como estávamos longe da evangelização”, diz Cristina Inogés. “A grande crise não é o secularismo, nem a indiferença religiosa. É o abuso de poder e todas as formas de abuso que dele derivam. É a evidência de uma forma muito corrupta e doentia de entender o poder que precisa de ser curada para tentar recuperar alguma da credibilidade perdida.”
O próprio Papa Francisco, no citado O Que Vos Peço… começa por pedir “que a cultura dos abusos seja extirpada da Igreja”. E acrescenta outros temas nos quais sintetiza o seu pensamento: a protecção da Casa Comum, uma política que trabalhe para o bem comum, a abertura aos migrantes e refugiados, a facilitação do crescimento dos países pobres e o fim da “loucura da guerra” e que esta não seja feita em nome de Deus. Mas acrescenta ainda o combate às fake news e aos discursos de ódio na comunicação social, a garantia do acesso de todos à saúde, e o encorajamento à participação das mulheres na sociedade.
A sinodalidade tem tudo a ver com isto, resumindo a visão de Francisco para a Igreja, também na sua relação com o mundo dilacerado e como forma de curar uma Igreja gravemente ferida. Ela pretende colocar todos os crentes a debater os caminhos para a experiência de fé, também na relação com a sociedade. Ou seja, a palavra diz respeito desde logo à organização interna: privilegiando a misericórdia sobre as regras ou a disciplina; combatendo as pragas do clericalismo, dos abusos de poder e abusos sexuais; promovendo a participação das mulheres; revendo a moral sexual; fomentando a transparência na administração dos bens económicos; e incluindo quem se sente marginalizado na Igreja, como as minorias étnicas, os pobres ou as pessoas LGBT. Depois, tudo isto se articula com o papel da Igreja no campo social.
O futuro

Estes temas estão presentes, aliás, em muitos milhares de textos que foram redigidos por grupos, paróquias, movimentos ou estruturas católicas nas fases de preparação do Sínodo que decorreram até agora – primeiro a nível local e diocesano, depois a nível nacional e, finalmente, no âmbito regional ou continental.
“Se o Papa Francisco estava esperançado de que o Espírito Santo iria fornecer as questões a serem discernidas, o Espírito está a falar”, observava o bispo Stowe, para quem o documento de trabalho da assembleia de Outubro traduz “o desejo de uma Igreja menos fechada em si mesma e mais acolhedora” e de “de uma Igreja mais missionária, mesmo que não tenhamos a certeza de como lá chegar”.
Cristina Inogés coloca a sinodalidade na charneira entre o debate interno da Igreja e a resposta católica às questões sociais que atravessamos: “É o que nos vai permitir viver no cenário que já está a ser claramente delineado, o da Agenda 2030, que tem algumas coisas que são complicadas, outras que são muito complicadas, e outras que são aceitáveis, mas é o cenário em que já estamos a viver. Se não fizermos da sinodalidade e da mudança na forma como nos relacionamos uns com os outros na Igreja algo de vital, não teremos grande futuro.”
Na Igreja, “já não é compreensível que muitos não tenham voz, que alguns falem por todos e que um só decida no fim”, diz ainda a teóloga espanhola. “O que diz respeito a todos deve ser decidido e aprovado por todos. Somos uma Igreja que nasceu sinodal. Somos uma Igreja que tem voz em todos os seus membros. A sinodalidade ajudar-nos-á a ir ao encontro de muitos cristãos que já vivem fora da Igreja, daqueles que acreditam sem saber que acreditam, e a trocar o poder pela autoridade. Para nos re-situarmos como uma Igreja dos baptizados em oposição a uma Igreja dos [padres] ordenados.”
Democracia e escuta

John Stowe recordava, na conferência já referida, que os sínodos, como o Papa esclarecera, “não devem funcionar à maneira parlamentar: não há partidos e não se trata simplesmente de ganhar a maioria para o seu lado de uma discussão”. Antes, “se as pessoas não estão abertas a uma mudança de opinião através do diálogo, ainda não aprenderam o método sinodal”.
Essa é a diferença em relação à democracia, diz ainda Cristina Inogés: “Na Igreja, vota-se para eleger o Papa, o presidente da Conferência Episcopal e até os abades e abadessas dos mosteiros, e isso não é democracia”. Esclareça-se, então: “Não decidimos por maioria, mas decidimos depois de ouvir o Espírito, depois de nos termos escutado uns aos outros e depois de termos dado tempo para reflectir.”
Tão pouco está em causa, como também referem alguns críticos, uma espécie de “protestantização” da Igreja Católica, embora “a reflexão e a experiência protestante possam ajudar” também a Igreja Católica. Na abertura ecuménica a outras confissões cristãs, os ortodoxos também têm de entrar na equação: em 2008, quando o Papa ainda era Bento XVI, o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla, falou no Sínodo dos Bispos precisamente sobre a sinodalidade, pedindo à Igreja Católica que equilibrasse “o ministério petrino” – ou seja, o poder do papado – com a “redescoberta da sinodalidade”. Esta, para os ortodoxos, é estrutural e constitui uma “espinha dorsal do governo e da [sua] organização”, como refere o bispo Stowe.
Tais ideias foram retomadas pelo Papa em 2015, num discurso em que assinalou os 50 anos da criação, por Paulo VI, do Sínodo dos Bispos. Disse que também o Papa é um membro da Igreja, que não está acima de ninguém, e o Sínodo está com o Papa “não para ditar, mas para garantir a unidade”.
Uma decisão tomada na semana passada confirma o desejo de aproximação ecuménica, já tantas vezes concretizado por Francisco: o Papa criou a “Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé” para identificar todos os cristãos que morreram por causa da sua fé já neste século. O grupo irá ter em conta também os cristãos de todas as denominações – ortodoxos, protestantes, anglicanos, evangélicos, coptas e todos os outros – que foram mortos nesse “ecumenismo de sangue”, como tem referido o Papa.
Um longo caminho

No livro O Que Vos Peço…, Francisco admite que no tema do papel das mulheres na Igreja “ainda há um caminho a percorrer”, apesar dos “progressos” já feitos. Não se deve “cair na armadilha de confundir papel e cargo”, avisa Francisco, numa questão que “transcende o que o Vaticano ou a estrutura da cúria romana representam”. É preciso um “trabalho cultural” no sentido de valorizar, respeitar e reconhecer as mulheres, depois de uma longa tradição em que elas eram “encaradas com desconfiança”.
Este é um dos temas que continua a merecer críticas ao Papa. Em Abril, a teóloga colombiana, Isabel Corpas de Posada (a primeira mulher no país a doutorar-se em Teologia, professora de Moral Sexual na Universidade Javeriana de Bogotá), contestava as últimas afirmações de Francisco para negar a possibilidade da ordenação das mulheres e manifestava a esperança de que o processo sinodal também interfira nesse tema.
Se há quem conteste o Papa por não abrir determinadas matérias, os mais críticos continuarão a acusar Francisco de não ser fiel à fé e tradição verdadeiras, à liturgia e moral autênticas. No final de Maio, uma sondagem do La Croix em França, revelava que nove em cada dez dos 30 mil jovens franceses que participarão na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa são oriundos de famílias com estatuto social e económico superior, politicamente conservadores (52% dizem-se de direita ou de extrema-direita, apenas 8% se consideram de esquerda) e não sentem necessidade de grandes mudanças na sua Igreja. Dois em cada três também é contra a ordenação de mulheres e a maioria prefere a missa tridentina (só 12% a encaram como um regresso ao passado). Ou seja, muitos destes jovens aplaudirão Francisco, mas estão nos antípodas de muitas das suas ideias.
Esse é o drama deste Papa à beira do fim – e dos seus fins: um homem sozinho não muda a estrutura e por isso o Sínodo é a revolução possível – e necessária. E se muitas das suas ideias estão a fazer caminho e a mudar claramente a Igreja em diferentes latitudes (com pouco entusiasmo consequente em países como Portugal ou os Estados Unidos), outras terão porventura de esperar a assembleia de Outubro e um futuro conclave para poderem continuar a fazer caminho – ainda mais com a incógnita sobre quem será o seu sucessor.
Francisco devolveu a esperança e a alegria a muitos católicos (e não católicos) e marcou já a evolução da Igreja Católica para o futuro próximo. Mas as ameaças de divisão abundam, as tensões e os conflitos aumentam. Depois da emoção, e como o próprio admitia em relação às mulheres, há ainda um (longo) caminho a percorrer.
O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoie-o-7-margens/
Inscreva-se para receber a nossa newsletter: https://bit.ly/3qH8gYv
Sugira a uma pessoa amiga que subscreva a nossa newsletter: https://bit.ly/3qH8gYv
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com
Texto publicado inicialmente na revista do Expresso de dia 14 de Julho. Corrigida a nacionalidade da teóloga Isabel Corpas de Posada e acrescentados novos subtítulos em relação à versão inicial.