A estranha teoria da educação de Edir Macedo

| 23 Out 19

É estranho como um país que gerou educadores notáveis como Paulo Freire (1921-1997) esteja hoje refém de indivíduos com mentalidade obscurantista como Edir Macedo.

O “evangelho segundo Macedo” é contra a educação da pessoa humana, em flagrante contradição com a essência do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, que é o princípio da libertação do ser em todas suas dimensões, incluindo a libertação das trevas da ignorância, tal como Lucas escreve no livro de Actos dos Apóstolos: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (17:30). E S. Paulo alertava igualmente a comunidade cristã de Éfeso contra os perigos da ignorância: “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” (Efésios 4:18).

A teoria da educação de Edir Macedo [líder da IURD – Igreja Universal do Reino de Deus] é paternalista, controladora e opõe-se à autonomia da pessoa. Segundo Herbert Spencer: “A educação deve formar seres aptos para se governarem a si mesmos e não para serem governados pelos outros.” (A Educação Intelectual, Moral e Física, 1861). Parece mentira, mas isto foi dito pelo líder religioso neopentecostal: “Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio, nada de faculdade, porque se elas forem mais inteligentes que o homem, o casamento está fadado ao fracasso.”

Esta postura começa por evidenciar abuso de poder (“Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio.”) O pai é que determina até onde as filhas estudam ou não, em vez de lhes dar liberdade para, querendo, prosseguirem os estudos e aperfeiçoarem a sua formação. De acordo com o “evangelho segundo Macedo” as mulheres não podem continuar os seus estudos a partir do secundário, de modo a prepararem-se para a vida profissional. Porquê? Porque o pai não quer! E porque ele não quer pressiona os pais do seu rebanho para que façam o mesmo na sua casa.

Depois revela um preconceito inqualificável contra o ensino superior (“Nada de faculdade.”) Ao vedar o ensino superior às suas filhas Macedo revela insegurança (por receio de que elas tenham melhor preparação intelectual do que ele), mas também preconceito, por receio de que, ao aprenderem a exercer pensamento crítico possam questionar os métodos do pai ou a trapalhada teológica do seu círculo religioso.

Também é notória a confusão conceptual que vai na cabeça de Macedo, entre conhecimento e inteligência (“Porque se elas forem mais inteligentes que o homem.”), como se conhecimento fosse a mesma coisa do que inteligência, como se acumular conhecimentos tornasse a pessoa mais inteligente, o que, desde logo, revela pouca inteligência. Revela igualmente uma atitude machista (“Quero que casem com macho”), ou seja, o receio de que as mulheres sejam mais inteligentes do que os maridos, e que passem a mandar na relação. Será que a IURD vai passar a pedir um teste de QI aos noivos antes de celebrar casamentos, para comprovar que os delas são mais baixos do que os deles?

Macedo parece ligar o sucesso do casamento a uma sujeição ao sistema patriarcal. No seu entender, o sucesso da relação conjugal passa obrigatoriamente pela condição de os maridos serem sempre mais inteligentes do que as suas mulheres… Quando condena ao fracasso toda a relação na qual a mulher é eventualmente mais inteligente do que o marido, está não apenas a menorizar as mulheres, mas a impor-lhes uma sujeição arcaica em flagrante atropelo aos direitos da pessoa humana…

Finalmente, mas não menos grave, Macedo defende que quem obtiver uma licenciatura irá “servir a si mesmo” em vez de servir a Deus… Portanto, para a personagem, só os ignorantes, os iletrados e os menos preparados para a vida poderão servir a Deus. Que teologia é esta, feita à martelada, que contraria não só o bom senso mas toda a base bíblica e a tradição cristã, sendo em si mesma um atentado à inteligência?

Que se saiba, Saulo de Tarso – a grande figura do Novo Testamento a seguir ao próprio Jesus Cristo – era dos homens mais cultos do seu tempo, mas também altamente preparado no judaísmo da época, tendo aprendido aos pés de Gamaliel, o rabi mais famoso em Israel, falava várias línguas, conhecia profundamente a cultura helénica e ainda era cidadão romano. Nada disto o impediu de servir a Deus com todo o fervor.

O discurso obscurantista deste líder religioso revela bem a influência perniciosa que as lideranças neopentecostais estão a exercer sobre as populações, mas revela ainda mais sobre a falta de espírito crítico destas, que não sabem fazer como os bereanos, que “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Actos 17:11b).

“A linguagem nunca é neutra” dizia o professor, pedagogo e filósofo Paulo Freire, que perante tal discurso deve estar a dar voltas na tumba…

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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