“Numa época que tem por maximamente virtuosa a afirmação do que se é, sob a máscara da «autenticidade», escandaliza falar no combate contra nós próprios. A tradição cristã, contudo, consciente de que somos criaturas feridas, sempre insistiu em que há uma longa batalha a travar contra as tentações que nos assediam, isolando algumas como especialmente poderosas.” A sugestão é do novo livro do padre Mário Rui de Oliveira, canonista e poeta a trabalhar em Roma, que será apresentado no próximo dia 5 em Lisboa e no dia 30 em Braga.
A Estrela e o Espelho: compreender hoje os pecados capitais (Paulinas Editora) revisita a “primeira lista do tipo, compilada por Evágrio (†399), procurando atualizar “para o nosso tempo, sem os esvaziar do seu incómodo, cada um dos oito «pensamentos» (logismoi) elencados pelo monge do Ponto”. Ao mesmo tempo, procura acolher “contributos de outras disciplinas (como a psicologia) e outros autores (como o Papa Francisco), para mostrar que é pelo combate contra si mesmo que, afinal, o ser humano se afirma na sua dignidade plena, alcançando a liberdade desejada” por Deus.
O livro é acompanhado de um conjunto inédito de nove tábuas verbo-visivas do artista italiano Giancarlo Pavanello, que propõem um caminho complementar para pensar os designados pecados capitais.
Fruto de dois retiros espirituais na Suíça e nos Açores, o livro tem prefácio do bispo auxiliar de Lisboa, Alexandre Palma, e posfácio de Teresa Bartolomei, que comenta as obras de Pavanello e estarão, com o autor, na apresentação em Lisboa (Capela do Rato, dia 5, 21h00). Em Braga, será na Capela da Imaculada Conceição, do Seminário Menor (30 de Março, 19h00), no âmbito do programa da Semana Santa e participam o médico gastroenterologista Guilherme Macedo (sobre a gula), José Teixeira (sobre os pecados capitais na arte e literatura) e o bispo psicólogo Nélio Pita (sobre os pecados capitais antes de Freud).
Em ambos os locais (em Braga, entre 14 de março e 7 de abril), poderá ser vista a exposição Os Logismoi e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello.
Algures entre as estrelas e os espelhos
Mário Rui de Oliveira

Conjunto inédito de nove tábuas verbo-visivas do artista italiano Giancarlo Pavanello, que propõem um caminho complementar para pensar os designados pecados capitais: Tristeza. Foto: Direitos reservados.
Muito antes de os sete pecados capitais figurarem nos púlpitos, nos catecismos e nas consciências dos fiéis, eles nasceram como murmúrios no silêncio abrasador do deserto. Não como doutrina, mas como combate. Não como moralismo, mas como sobrevivência espiritual. Antes de serem pecados, foram pensamentos. Antes de serem vícios, foram vozes. Sussurros. Imagens. Pensamentos. Sugestões.
Lá, entre pedras e escorpiões, nos desertos do Egito e da Síria, os primeiros monges cristãos – homens como Antão, Macário, Amónio de Nítria (diz-se que se queimou com ferro em brasa na orelha para evitar ser ordenado bispo, tal era o seu horror à vanglória) – descobriram que a verdadeira batalha não se travava contra o mundo exterior, mas contra o turbilhão interior. Era no coração que os demónios se revelavam mais subtis. Não vinham com garras, mas com ideias. Não brandiam lanças, mas semeavam dúvidas, desejos, comparações, medos.
O tema dos pecados capitais ou dos pensamentos malignos parece hoje muito démodé, mas, ao arrepio do convencionalismo, decidi mergulhar no passado, provocadoramente, e retirar desse tesoiro tão maltratado coisas novas e coisas velhas, coisas muito importantes, desde logo, para a vida espiritual e para a nossa cultura.
Ao pensar o que poderia ser um bom desafio para os cristãos, em geral, e para os sacerdotes que vivem o seu ministério e a sua vida sacerdotal na contemporaneidade, em particular, ponderei: nada melhor do que falar de «paixões», de «vícios e tentações», de «combate espiritual», de «mortificação», de «descida aos infernos», de «kenosis», que era o dia-a-dia dos Padres do Deserto, dos que viviam cercados de silêncio e de Deus.
Mas, refleti ainda, o que poderia ser verdadeiramente provocador e, ao mesmo tempo, estimulante seria o tema dos pecados capitais hoje. São desde sempre muito sugestivos, os pecados capitais: quem não se lembra do filme Se7en, com Brad Pitt, filme que no ano passado celebrou 30 anos com uma nova reedição? (…) Até ao Papa Francisco não passou despercebida a atualidade do tema, dedicando-lhe várias semanas nas catequeses das audiências de quarta-feira, na Praça de São Pedro, reunidas depois sob o título Catequeses sobre os vícios e as virtudes.

Um dos designados pecados capitais: Avareza, do artista italiano Giancarlo Pavanello. Foto: Direitos reservados.
II.
Mas o que mais surpreende é o fascínio que o tema provocou no mundo da arte. Pensemos na iconografia monástica medieval e nos manuscritos iluminados dos sécs. XII-XV, codificando os pecados em diagramas morais, árvores de virtudes e vícios, rodas, psicomaquias; pensemos em Giotto, na Capela Scrovegni, em Pádua (c. 1305), pintando vícios e virtudes como figuras alegóricas, autênticas catequeses em pedra e cal; pensemos, sobretudo, nesse marco genial que é a Mesa dos sete pecados capitais e das quatro últimas coisas de Hieronymus Bosch (1500), presente no Museu do Padro, em Madrid, com cenas do quotidiano atravessadas pelos pecados capitais e em que a moral entra pela retina com humor negro. (…)
No seguimento desta grande tradição se justifica o aparato ilustrativo expressamente encomendado ao mestre Giancarlo Pavanello (n. 1944), artista contemporâneo da poesia visual, poeta e escritor, combinando assim a sua escrita com uma contribuição artística concebida não como simples complemento, mas como integração nuclear da reflexão desenvolvida, como se poderá ler no posfácio de Teresa Bartolomei.

Um dos designados pecados capitais: Luxúria, do artista italiano Giancarlo Pavanello. Foto: Direitos reservados.
III.
Se o tema parece mais atual que nunca, não podemos esquecer que o primeiro a sistematizar os pensamentos malignos (logismoi) foi o Padre do Deserto Evágrio Pôntico (345-399), iniciando uma tradição que confluiu, mais tarde, na elaboração da doutrina dos sete pecados capitais inserida no Catecismo da Igreja Católica.
Evágrio Pôntico, discípulo de Basílio de Cesareia e de Gregório de Nazianzo e herdeiro da tradição de Orígenes, foi o primeiro a nomear este fenómeno espiritual: logismoi, os pensamentos malignos que assaltam a alma. Evágrio não era apenas um místico: era um psicólogo da alma, um anatomista e cartógrafo do espírito. E desenhou um mapa interior com espantosa lucidez. Listou oito pensamentos fundamentais, que considerava genéricos, isto é, contendo em si todos os outros desvios. A sua preocupação não era condenar, mas iluminar. Não era punir, mas discernir.
Oito são, no total, os tipos de pensamentos [οἱ γενικώτατοι λογισμοί, hoi genikotatoi logismoi] que compreendem todos os outros: o primeiro é o da gula [γαστριμαργία, gastrimargia]; depois, o da fornicação [πορνεία, porneia]; o terceiro, o da avareza [φιλαργυρία, philargyria]; o quarto, o da tristeza [λύπη, lype]; o quinto, o da ira [ὀργή, orge]; o sexto, o da acédia [ἀκηδία, akedia]; o sétimo, o da vanglória [κενοδοξία, kenodoxia]; e o oitavo, o do orgulho [ὑπερηφανία, hyperephania].

Um dos designados pecados capitais: Orgulho, do artista italiano Giancarlo Pavanello. Foto: Direitos reservados.
Com Evágrio, a batalha espiritual ganhou estrutura. O inimigo tornou-se identificável; a alma, campo de batalha. Mas essa sabedoria permaneceu, durante um tempo, confinada ao Oriente grego, escondida nos mosteiros e nas celas dos anacoretas.
Foi então que surgiu João Cassiano († 435), um homem entre mundos. Ele é o ponteiro da bússola: orientou a tradição oriental na direção do Ocidente. Mas foi Gregório Magno († 604), papa e Doutor da Igreja, quem selou o mapa. Inspirado por Cassiano, Gregório reduziu os oito pensamentos a sete, eliminando a tristeza como pecado isolado e incorporando-a em outros. Organizou-os numa estrutura hierárquica, colocando a soberba como raiz e os outros como seus ramos. Assim nasciam os sete pecados capitais como os conhecemos na tradição latina: soberba, inveja, ira, acédia (ou tristeza espiritual, ou preguiça), avareza, gula, luxúria.
Com Gregório, os logismoi transformam-se numa doutrina moral: pedagógica, pastoral, clara. Deixam de ser apenas sugestões interiores para se tornarem categorias espirituais organizadas em torno da confissão, do exame de consciência, da homilia. A batalha espiritual passa do deserto para os púlpitos, dos monges para os fiéis, da cela para o confessionário.

Um dos designados pecados capitais: Ira, do artista italiano Giancarlo Pavanello. Foto: Direitos reservados.
IV.
Eis aqui, então, muito sinteticamente, as origens silenciosas e ardentes dos logismoi e a sua viagem através dos séculos, até à sua cristalização nos pecados capitais. Do sopro demoníaco ao diagnóstico teológico. Do drama interior ao discurso moral. Sempre com uma certeza: que esta luta invisível, longe de ser apenas um fardo, é a via pela qual a alma pode reencontrar-se com a sua verdade, com a sua liberdade – e com Deus.
Algures entre as estrelas e os espelhos trava-se o combate mais antigo do universo. As estrelas falam da luz que nos chama, da graça que nos visita, do alto que nos atrai. Mas os espelhos… Ah, os espelhos falam do ego. São armadilhas brilhantes. Neles, vemo-nos, ou melhor, julgamos ver-nos. Mas não é o rosto que ali aparece, é uma imagem, uma parecença, um reflexo curvado pelo desejo de ser mais, de ter mais, de parecer mais. E é justamente aí que nasce o primeiro sussurro, o primeiro engano: o pensamento que nos separa de nós mesmos.

O livro é acompanhado de um conjunto inédito de nove tábuas verbo-visivas do artista italiano Giancarlo Pavanello, expostas na Capela do Rato, em Lisboa. Foto © António Marujo/7MARGENS.










