Temos três imperadores numa única Terra que se estilhaça na “terceira guerra mundial aos pedaços”.
Enquanto os EUA encaram a Terra como um jogo de póquer onde cada mão deve ser ganha a qualquer custo, a China encara-o como um jogo de Go, onde a chave não é tanto eliminar o adversário, mas sim controlar a maior parte do território. Entretanto, a Rússia encara-o como um jogo de xadrez, onde interessa dar o xeque-mate ao adversário, mesmo que seja preciso sacrificar todos os peões, torres e cavalos, e arriscar que o tabuleiro se transforme em cinzas nucleares.
É nesta dissonância de regras que se revela a promessa da Europa: num século XXI, que já se imaginou pós-histórico e racional, o seu papel é contrariar os primitivos instintos imperiais de que já fomos cultores.
Os EUA, instalados como Império da democracia após 1945, jogam póquer ao acreditar que o poder se resume a bluffar melhor e a ter mais fichas na mesa. Cada guerra – Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão, agora o Irão – é uma mão que tem de ser ganha. Se o custo for a credibilidade global, a dívida pública astronómica ou a fragmentação da NATO, pouco importa: o próximo dealer já vem aí. Em vez da paz através do comércio, Washington responde com 12 porta- aviões e sanções que se põem e tiram (o milionário secretário das Finanças Scott Bessent é especialista). O resultado? Um mundo exausto de tanta “vitória” imediata.
A China joga Go com a paciência de quem construiu a Grande Muralha. Quer que o adversário acorde um dia e descubra que todas as interseções do tabuleiro – portos em África, estações 5G na Europa, minas de lítio na América Latina, sistema financeiro sem dólares, universidades em todo o lado – já estão rodeadas por pedras brancas silenciosas.
A Iniciativa Cinturão e a Rota da Seda são um cerco lento. Enquanto a Europa debate direitos humanos, Pequim constrói estradas, instala câmaras e assina contratos de 99 anos. O país que mais se beneficiou da globalização liberal está a usá-la para a enterrar. A modernidade sonhava com um “mundo plano”; a China tenta torná-lo chinês.
A Rússia joga xadrez como um czar do século XIX que descobriu mísseis hipersónicos e drones de última geração. O objetivo não é controlar território nem ganhar fichas: é matar o rei, neste caso, a soberania ucraniana. Por isso a Ucrânia não é um “conflito regional”; é uma tentativa de xeque-mate à Europa. A Síria, a Líbia, o Sahel, mesmo o Irão, são peões sacrificados para abrir linhas de ataque. Putin não procura a vitória económica; procura o momento em que o adversário se rende ou morre. As sanções? São para serem suportadas como o frio siberiano. As perdas humanas brutais? Aceitam-nas como o preço do império.

Vivemos a Terceira Guerra Mundial aos pedaços, com o regresso do irracional no coração da era da razão. Imagem aérea do funeral das crianças da Escola Primária Feminina de Minab, no Irão, que morreram no bombardeamento da escola, a 28 de fevereiro de 2026. Foto © Tasnim News Agency, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
Vivemos a Terceira Guerra Mundial aos pedaços, com o regresso do irracional no coração da era da razão. Sem Pearl Harbor, sem Dia D, sem Hiroshima, sem reconquista de Nambuangongo. Em vez disso, mil pequenas explosões sincronizadas: drones, chips, ciberataques, navios afundados no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz, eleições manipuladas de Washington a Budapeste, inflações provocadas por decisões tomadas pelos três imperadores que até por vezes se conluiam, como sucede com o tráfico de navios no estreito de Ormuz.
Se após 1945, julgámos ter superado a guerra através do direito internacional, da interdependência económica e da dissuasão nuclear, descobrimos agora que esses três instrumentos se tornaram armas: o direito tornou-se sanção seletiva, a interdependência é chantagem energética, a dissuasão ou posse de armas nucleares tornou-se sombra permanente.
Os EUA querem que o mundo continue a jogar póquer, com eles como banca. A China quer que o mundo aceite o Go como única regra. A Rússia quer que o jogo acabe com o novo rei morto e o velho czar no trono. São estas teimosias imperiais – disfarçadas de estratégia racional – que transformam a nossa época numa das mais exasperantes da história: aquela em que a humanidade, mais rica, mais informada e mais interligada do que nunca, se vê arrastada para guerras em cadeia.
Uma mão de póquer mal calculada, um cerco de Go precipitado ou um xeque-mate que exige o sacrifício final – e o jogo acaba para todos.
E a Europa? A União Europeia – é o primeiro Estado pós-moderno: sem soberano, ou com soberania partilhada entre 27 ou 28 capitais. Não é um império, nem uma nação clássica; é um experimento de cooperação transnacional contra os jogos dos três imperadores.
Enquanto os EUA mentem no póquer, a China cerca no Go e a Rússia busca o xeque-mate, a UE joga sem tabuleiro fixo, fora da geopolítica: respeito das normas em vez de força bruta. Um modelo que é tanto do programa Erasmus, como do futebol, como da governação de Bruxelas.
Este modelo de gerir ambições humanas sem recorrer ao império, defende a “terra” (soberania, direitos, dignidade) como pode: para a Ucrânia envia armas e financiamento; no Irão condena os ayatollahs; denuncia a repressão dos Uigures, do Tibete, a sinicização em Hong Kong; as ameaças no Mar do Sul da China.
O continente que criou o direito internacional e os direitos humanos no século XVI com o padre António de Montesinos e frei Bartolomeu de Las Casas, vê-se obrigado a ganhar força própria num mundo que regressa ao poder bruto.
A postura europeia é frágil: divide-se entre realpolitik energética, dependência comercial da China e receios de escalada. Em 2003, capitulação perante Bush na guerra do Iraque; agora, maior resistência a Washington com Sánchez e Dinamarca a marcar distâncias. Que assim continue!
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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