
Vitral de José Escada na Igreja de Santo António em Moscavide (Loures): “Querer copiar formas artísticas doutras épocas será arqueologia artística, não é seguramente obra de arte”, escreveu o cardeal Cerejeira. Foto © João Alves da Cunha, cedida pelo autor.
O congresso internacional sobre a problemática dos seminários católicos que decorreu em Braga até ao último sábado foi todo ele permeado pela dimensão estética, tomada quer como tema de reflexão e debate quer como experiência vivida pelos participantes.
Dentro dessa linha, inscrevem-se múltiplas iniciativas que aconteceram desde outubro de 2021, entre concertos, exposições, ciclo de cinema, etc.
Já durante o congresso, fez o concerto inaugural o grupo vocal Cupertinos, com músicas dos séc. XVI e XVII, atribuíveis a Pedro de Cristo, logo no primeiro dia, na Capela da Imaculada.
O ponto alto terá sido alcançado na noite deste sábado, 19, com o concerto Paixão e Morte do Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas, de Joaquim dos Santos, em estreia absoluta, interpretado pela Orquestra do Distrito de Braga e Coro do Distrito de Braga, com a duração de quase duas horas e que aqueceu o ambiente fresco da bracarense Igreja de São Paulo, no centro da cidade. Fechou assim, com entusiasmo, o congresso de quatro dias que se centrou no passado, presente e futuro da formação de presbíteros, na Igreja Católica.

Nossa Senhora com o Menino, obra de Maria Do Carmo D’Orey para a Igreja do Seminário Dominicano, Olival, Ourém, hoje no Convento Dominicano de Lisboa. Foto © João Alves da Cunha, cedida pelo autor.
Em declarações ao 7MARGENS, um dos mais cotados convidados deste Congresso, o veterano professor Hervé Legrand, do Instituto Católico de Paris e vice-presidente da Academia Internacional de Estudos Religiosos, salientou sentir-se positivamente surpreendido pela qualidade e aprofundamento das problemáticas que veio encontrar neste evento. “Do que conheço, não estou a ver iniciativas deste nível em Espanha ou em França”, observou o padre dominicano.
O último dia dos trabalhos abriu com uma conferência de João Alves da Cunha, da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.
Alves da Cunha fez uma apresentação do itinerário da arte religiosa em Portugal – e concretamente na região de Lisboa – nos últimos cem anos, com especial incidência na vertente arquitetónica. Identificou três períodos nesse percurso, pondo em evidência não apenas as obras de arte (mais ou menos conseguidas), mas também as ideias, conceções e debates que estiveram por detrás das construções de raiz e adaptações.
No primeiro período, que cobre no essencial os anos 30 e 40 do século XX, esteve em destaque, entre outros, o processo de construção da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, e o papel impulsionador e legitimador que sobre ele teve o cardeal Gonçalves Cerejeira. O patriarca, cujas posições no campo político são conhecidas, ao lado de Salazar, surge, na arte religiosa, a defender a beleza das linguagens da contemporaneidade. “Querer copiar cegamente formas artísticas doutras épocas – escreveu ele – será fazer obra de arqueologia artística, mas não é seguramente obra viva de arte.”
O cardeal Cerejeira publicou mesmo, em 1953, uma carta pastoral sobre a Arte Sacra, na qual, recordando que as obras consagradas foram “modernas em seu tempo”, observava que “nunca a Igreja oficializou um estilo como seu” e que “não só ela não condena o moderno, mas o acolheu em todos os tempos”. Ao mesmo tempo, surgiam alertas, nomeadamente na imprensa, para o facto de, no terreno, a arte sacra ser considerada tabu, e até produto de inimigos dos católicos. “O santeirismo campeia com rútulos de nobreza e ninguém lhe corta o passo”, queixava-se Manuel M. Atanásio, no jornal A Voz, em 1954.

Sacrário desenhado por Luiz Cunha para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Lisboa. Foto © Hugo Casanova, cedida pelo autor.
O período seguinte, recortado por João Alves da Cunha, estendeu-se de 1953 a 1969 e foi marcado pela ação e pensamento do MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa, que surgiu com espírito aberto, apoiado no estudo, no conhecimento do que se estava a fazer noutros países, e com uma preocupação abrangente de multidisciplinaridade. Conseguiu envolver nomes como Nuno Teotónio Pereira, Manuel Cargaleiro, José Escada ou Vitorino Nemésio. [ver notícia no 7MARGENS]
Num esforço que denotava visão estratégica, o MRAR procurou envolver o Seminário dos Olivais, através de estudantes que viriam a ser mais tarde bem conhecidos: os futuros bispos José Policarpo e Albino Cleto, ou os padres Henrique Noronha Galvão e Avelino Rodrigues. A revista do seminário começou a publicar artigos sobre a matéria, debatendo e propondo caminhos novos para a arte sacra.
Um marco deste período foi a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia, que incentivava ao uso da arte moderna e aconselhava a que “o uso das imagens nos templos fosse em número comedido”. O conferencista proporcionou aos participantes no congresso a visualização de uma ampla quantidade e diversidade de exemplos quer de arquitetura quer de escultura, decoração, etc., onde os artistas começaram a ensaiar as novas sensibilidades e linguagens.
A terceira fase, a partir dos anos pós-conciliares, afirma a consciência de uma relação entre a vitalidade das comunidades cristãs e o tipo de arte a que recorre e que valoriza. Mas, paulatinamente, começaram-se a identificar sinais que Alves da Culnha caraterizou como de “hesitação” ou mesmo “rejeição”, manifestadas inclusivamente na retirada de obras da fase anterior ou de alteração significativa desses trabalhos.
A diocese de Braga, referiu, manteve-se ao longo de todas aquelas décadas como se tivesse parado no século XVIII. Ninguém ali conseguia penetrar. Deste ponto de vista, o processo que levou à construção da capela Árvore da Vida e Capela da Imaculada, a partir de finais da primeira década do século XX, revela que esse retrato se foi alterando.
Mas, alertou o conferencista, a experiência mostra que tudo é reversível e que avanços que se julgavam adquiridos podem regredir.
No debate foi salientada a importância do diálogo entre todas as partes que se veem envolvidas em projetos inovadores.

Crucifixo de Lagoa Henriques na Igreja de Santo Antonio em Moscavide Loures. Foto © Joao Alves da Cunha cedida pelo autor.










