
Jazigos no Cemitério de Benfica: é reconfortante perceber que, memso depois de mortos, os outros estão perto de nós, pela lembrança das histórias partilhadas. Foto © Ricardo Perna
Ainda que apenas num plano teórico, vale a pena pensarmos a morte como se se tratasse de um exercício de contemplação, quase ensaiando os elementos presentes no cenário da morte. Colocamo-nos de fora, vendo e analisando o que se passa ante a morte de alguém, identificando o próprio ou comum e descobrindo não uma estética, mas um movimento sedutor.
Sabemos que o perder alguém que amamos é expectável, ainda que nunca ninguém esteja propriamente preparado. Mas quando alguém vê um amigo que morre, descobre-se num cenário intenso, angustiante e perturbador, mas de uma forma incrivelmente verdadeira. A verdade da morte é transfigurada nas expressões de amor e de saudade. Sejam as lágrimas, o preto ou o branco, as flores, as velas, o ambiente incrivelmente pesado em que tudo rapidamente e profundamente se dá.
Num movimento inverso, surgem as palavras de conveniência que por essa altura se trocam. Nunca deixam de ser desajeitadas, às vezes incómodas e perfurantes. Porque ninguém sabe o que dizer e o silêncio é tão difícil de se respeitar. No fundo, é muito difícil ou quiçá impossível consolar quem perde, porque quem perde, perde, e apenas ganha um espaço que nada nem ninguém consegue preencher.
Então, surge o silêncio como o espaço sagrado daquele que perdeu quem amava. Este é o silêncio que se traduz na ausência de cor, tanto no branco como no preto, que nesse dia se torna predominante. É certo que parece ser um silêncio incomodativo, já que nunca gostamos de o ter por perto, muito menos quando esse espaço é habitado pelas memórias partilhadas com o defunto e, onde, subitamente irrompem as lágrimas.
A verdade no cenário da morte aprofunda-se no arrependimento, quando se recordam ou se celebram as palavras e os gestos não ditos ou não elaborados. Estes deixam de estar ocultados para serem desvelados. Tudo emerge: os encontros e os desencontros. De um momento para o outro, a morte é o lugar da verdade que se dá, frente à realidade que se vê e não se controla.
No entanto, tudo se parece reconciliar numa despedida não ensaiada, mas visceral, onde um beijo ao cadáver frio é mais quente do que a crueza daquilo que se toca. O toque e o beijo condensam a densidade humana de uma vida partilhada, dada ao outro e através do outro. Incrivelmente surge a necessidade tão humana de uma vez mais tocar e beijar. E nesse clímax tudo parece desabar, e despidos tudo desaba num choro incontrolado. Já não há horror ou morbidez, apenas a despedida intensa daquele que nunca mais se verá da mesma forma.
Somos mais corporais do que imaginamos, o nosso luto precisa de tocar. Vêm as partilhas e as heranças, onde cada um quer um pedaço daquele que perdeu e religiosamente guarda a sua memória numa fotografia, num objeto ou num pequeno pedaço de roupa. Pois, aí está o tal vazio que nada preenche, mas que necessita de ser afagado, ainda que simplesmente para recordar a nossa vida entrelaçada na vida daquele a quem perdemos. Perder alguém que amamos é também isso: é recordarmos que devemos muito mais do que podemos imaginar. Talvez dever não seja a palavra correta, seria mais a tal vida partilhada. Não vivemos sozinhos, vivemos em comunidade. As nossas vidas estão entrelaçadas em outras tantas vidas.
Creio que esta é uma das belas verdades que descobrimos na morte: os outros estão junto de nós e nós junto deles. É reconfortante.
Por isso, a morte é sedutora, na medida em que nos recorda esta vida partilhada. Por isso é que podemos falar numa exuberância da morte: ela própria fala-nos da exuberância das relações de amizade, paternidade ou filiação. Isto é, fala-nos da exuberância da vida.
Júlio Dinis Lobo é padre católico da Diocese do Porto e pároco de Loureiro e Ul (Oliveira de Azeméis).










