AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A exuberância da morte

| 01/11/2022

Jazigos no Cemitério de Benfica. Foto © Ricardo Perna

Jazigos no Cemitério de Benfica: é reconfortante perceber que, memso depois de mortos, os outros estão perto de nós, pela lembrança das histórias partilhadas. Foto © Ricardo Perna

 

Ainda que apenas num plano teórico, vale a pena pensarmos a morte como se se tratasse de um exercício de contemplação, quase ensaiando os elementos presentes no cenário da morte. Colocamo-nos de fora, vendo e analisando o que se passa ante a morte de alguém, identificando o próprio ou comum e descobrindo não uma estética, mas um movimento sedutor.

Sabemos que o perder alguém que amamos é expectável, ainda que nunca ninguém esteja propriamente preparado. Mas quando alguém vê um amigo que morre, descobre-se num cenário intenso, angustiante e perturbador, mas de uma forma incrivelmente verdadeira. A verdade da morte é transfigurada nas expressões de amor e de saudade. Sejam as lágrimas, o preto ou o branco, as flores, as velas, o ambiente incrivelmente pesado em que tudo rapidamente e profundamente se dá.

Num movimento inverso, surgem as palavras de conveniência que por essa altura se trocam. Nunca deixam de ser desajeitadas, às vezes incómodas e perfurantes. Porque ninguém sabe o que dizer e o silêncio é tão difícil de se respeitar. No fundo, é muito difícil ou quiçá impossível consolar quem perde, porque quem perde, perde, e apenas ganha um espaço que nada nem ninguém consegue preencher.

Então, surge o silêncio como o espaço sagrado daquele que perdeu quem amava. Este é o silêncio que se traduz na ausência de cor, tanto no branco como no preto, que nesse dia se torna predominante. É certo que parece ser um silêncio incomodativo, já que nunca gostamos de o ter por perto, muito menos quando esse espaço é habitado pelas memórias partilhadas com o defunto e, onde, subitamente irrompem as lágrimas.

A verdade no cenário da morte aprofunda-se no arrependimento, quando se recordam ou se celebram as palavras e os gestos não ditos ou não elaborados. Estes deixam de estar ocultados para serem desvelados. Tudo emerge: os encontros e os desencontros. De um momento para o outro, a morte é o lugar da verdade que se dá, frente à realidade que se vê e não se controla.

No entanto, tudo se parece reconciliar numa despedida não ensaiada, mas visceral, onde um beijo ao cadáver frio é mais quente do que a crueza daquilo que se toca. O toque e o beijo condensam a densidade humana de uma vida partilhada, dada ao outro e através do outro. Incrivelmente surge a necessidade tão humana de uma vez mais tocar e beijar. E nesse clímax tudo parece desabar, e despidos tudo desaba num choro incontrolado. Já não há horror ou morbidez, apenas a despedida intensa daquele que nunca mais se verá da mesma forma.

Somos mais corporais do que imaginamos, o nosso luto precisa de tocar. Vêm as partilhas e as heranças, onde cada um quer um pedaço daquele que perdeu e religiosamente guarda a sua memória numa fotografia, num objeto ou num pequeno pedaço de roupa. Pois, aí está o tal vazio que nada preenche, mas que necessita de ser afagado, ainda que simplesmente para recordar a nossa vida entrelaçada na vida daquele a quem perdemos. Perder alguém que amamos é também isso: é recordarmos que devemos muito mais do que podemos imaginar. Talvez dever não seja a palavra correta, seria mais a tal vida partilhada. Não vivemos sozinhos, vivemos em comunidade. As nossas vidas estão entrelaçadas em outras tantas vidas.

Creio que esta é uma das belas verdades que descobrimos na morte: os outros estão junto de nós e nós junto deles. É reconfortante.

Por isso, a morte é sedutora, na medida em que nos recorda esta vida partilhada. Por isso é que podemos falar numa exuberância da morte: ela própria fala-nos da exuberância das relações de amizade, paternidade ou filiação. Isto é, fala-nos da exuberância da vida.

 

Júlio Dinis Lobo é padre católico da Diocese do Porto e pároco de Loureiro e Ul (Oliveira de Azeméis).

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This