A Face Feminina de Deus (1)

| 17 Out 2023

Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Fátima

Foto: Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Fátima © Vitor Oliveira, Torres Vedras / Wikimedia Commons

 

Quando se fala de religião com portugueses, quase inevitavelmente fala-se de Fátima. E muito naturalmente os Bahá’ís são questionados: “Mas vocês acreditam em Fátima e nas aparições?”. Costumo dizer que este é aquele tipo de pergunta onde devemos evitar respostas simplistas, pois há várias formas de olharmos os cultos marianos.

Para contextualizar a resposta a esta pergunta, é importante ter presente que a Fé Bahá’í considera o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão como religiões com origem divina. Além disso, nos ensinamentos Bahá’ís, “a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido”.

No entanto, os ensinamentos Bahá’ís estabelecem uma “diferença fundamental entre a Revelação Divina, conforme é transmitida por Deus aos Profetas, e as experiências espirituais e visões que indivíduos possam ter. Esta última não deve, sob qualquer circunstância, ser considerada como constituindo uma fonte de orientação infalível, nem mesmo para a pessoa que a experimenta.

 

A religião dos portugueses

Seis milhões de portugueses visitam anualmente o santuário de Fátima. As peregrinações de Maio e Outubro são consideradas o maior evento religioso em Portugal, em número de crentes. Independentemente do que possa ter acontecido na Cova da Iria em 1917, a fé de todos aqueles peregrinos merece o meu respeito.

Várias gerações de portugueses deslocaram-se ao Santuário e dirigiram as suas preces à Virgem de Fátima. E tivemos momentos de aflição nos últimos 100 anos da nossa história recente que justificaram essas manifestações de fé.

Na minha família, o culto da Virgem estava presente. Na casa da minhas tias-avós, local de encontro da família mais alargada, além do terço rezado diariamente e da participação regular nas actividades da paróquia, a parede exterior ostentava um azulejo com a imagem da Virgem, ladeada pelo símbolo das Quinas e a data 1940, e ainda uma frase evocativa. Outras casas da aldeia já renovadas preservam azulejos semelhantes.

Era assim na minha família, e em muitas outras famílias portuguesas. E foi assim que a fé na Virgem Maria foi sendo transmitida de geração em geração.

Por outras palavras, podemos dizer que várias gerações de portugueses acreditaram que houve uma intervenção divina por intermédio da Virgem Maria. E que essa intervenção divina, agora com um rosto feminino, seria uma fonte de conforto nos momentos de aflição.

 

Um catolicismo onde se impôs o fenómeno de Fátima.

O fenómeno de 1917 tem sido estudado e investigado. Mas não obstante os muitos livros e trabalhos publicados, com toda a diversidade de estudos e análises, percebemos que não existe um consenso sobre o que realmente aconteceu.

Independentemente do que possa ter ocorrido, a verdade é que o culto da Virgem de Fátima se foi impondo à Igreja, e foi gradualmente assimilado pela sociedade portuguesa. Em 1930, a Igreja Católica considerou as aparições dignas de fé. E depois não faltaram momentos de crise em que o conforto da Virgem parecia ser o último recurso de muitas famílias portuguesas. Aconteceu durante a guerra civil espanhola, nos anos da 2ª guerra mundial, da guerra colonial, das crises económicas…

Posteriormente, o atentado contra João Paulo II em 1981, e a sua visita a Fátima no ano seguinte ampliaram a visibilidade do santuário e deram força à fé dos milhões de crentes na Virgem de Fátima.

Não obstante tudo isto, a hierarquia católica manteve sempre uma cautela prudente em relação ao fenómeno. Para a Igreja Católica, acreditar nas aparições é uma questão de fé pessoal; as aparições não são dogma (não é necessário acreditar nas aparições para ser Católico). E não faltam vozes que alertam para o facto de o culto de Fátima se poder vir a tornar um substituto do Cristianismo. Algumas afirmações de prelados católicos foram assertivas: Anselmo Borges afirmou que não houve aparições em Fátima. D. Carlos Azevedo e D. Januário Torgal insistiram que em Fátima não houve aparições, mas visões.

A própria forma que a “religião de Fátima” foi assumindo – com a conhecida dimensão do culto das promessas e pedidos de intervenção divina – levou mesmo o Papa Francisco a questionar as motivações dos crentes na Virgem de Fátima, recordando que Maria não é maior ou igual que Cristo, afirmando ela deve ser vista como um exemplo de fé, e advertindo que Maria não deve ser reduzida a uma “’Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço”.

 

A experiência mística

No mundo Católico, uma das análises mais interessantes sobre o fenómeno das visões de Fátima encontra-se no comentário teológico do cardeal Ratzinger. Além de desvalorizar muito habilmente as especulações sobre os “segredos de Fátima”, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, recorda a diferença entre “revelação pública” e “revelação privada”, reafirmando que o fenómeno é acima de tudo um “apelo à fé e à conversão”. Esse mesmo comentário salienta que neste tipo de experiências místicas/espirituais, o vidente faz naturalmente uma interpretação de algo que o transcende.

Apesar de interessantes, as análises de Ratzinger pecam por ser Cristocêntricas. Na sua perspectiva, a revelação divina está confinada ao mundo judaico-cristão, e o Cristianismo é considerado como a derradeira revelação de Deus à humanidade (um tema poderia ser abordado noutro artigo); e, de igual modo, Ratzinger ignora as experiências místicas vividas por crentes de outras religiões. E é precisamente o facto de a experiência mística estar presente em todas as culturas e religiões, que nos deveria fazer reflectir sobre o valor das mesmas.

Sobre a diversidade das experiências místicas, Moojam Momen, investigador e historiador Bahá’í, afirma:
…vale a pena notar que as experiências religiosas tendem a possuir uma conformidade com as expectativas culturais e religiosas. As raparigas da aldeia em Portugal têm visões da Virgem Maria e não da deusa indiana Kali. Os nativos norte-americanos nas suas transes têm visões de animais norte-americanos e não de animais africanos. Assim, parece que as experiências religiosas, por muito intensas e arrebatadoras que sejam, estão sujeitas a constrangimentos por parte das normas culturais e religiosas da pessoa a quem ocorre. (The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, p. 114)

Em todas as religiões há crentes que afirmam ter tido uma “experiência mística”, seja com sonhos, visões ou qualquer outra coisa. São – acima de tudo – experiências pessoais, que poderão ter validade e importância para quem as vive. Mas quando partilhadas com outras pessoas, devem ser vistas com alguma reserva e não ser motivo de especulações.

Independentemente de as visões dos pastorinhos terem sido experiências espirituais condicionadas pelo seu enquadramento cultural, a realidade é que o culto da Virgem de Fátima – mesmo descrito depreciativamente como “religião popular portuguesa” – continua vivo na sociedade portuguesa.

E como Bahá’í devo deixar bem clara esta distinção entre o fenómeno de 1917 e a fé de seis milhões de portugueses – que acreditam que Deus se manifestou com uma face feminina – antes de tentar responder a perguntas do género, “Mas vocês acreditam em Fátima e nas aparições?”.

 

Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal

 

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