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autores - José Centeio

A face invisível dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos

| 27/08/2024

Os organizadores prometem uma cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos audaciosa mesmo no centro de Paris: Place da la Concorde. Fonte: https://presse.paris2024.org/ 

 

Decorreu a primeira parte dos Jogos Olímpicos e agora é tempo de começar a fazer o balanço, embora parcial. Seguem-se, de 28 de agosto a 8 de setembro, os Jogos Paralímpicos, mas esses, infelizmente, estão longe do mediatismo que foi dedicado aos primeiros. Os heróis querem-se esculturalmente gregos e de comportamento espartano! Quanto à inclusão, venham as medalhas e logo se verá. Esta segunda parte dos jogos mereceria da parte de todos, nomeadamente comunicação social, um outro olhar. Veja-se a este propósito a excelente entrevista feita por Clara Raimundo à atleta Carla Oliveira [ver 7MARGENS]. Quanto ao balanço, que não apenas o financeiro, em devido tempo esperamos seja divulgado.

Em 6 de maio de 2020, o 7MARGENS publicou um texto, e a propósito de Yunus (atualmente chefe do governo provisório do Bangladesh) se escrevia: “Pode duvidar-se do otimismo quase desmesurado de Yunus, mas ele não desiste de estabelecer pontes entre margens que se diria impossíveis de aproximação, tentando lançar sementes de transformação em terrenos à partida pouco propícios. Uma dessas pontes ficou bem evidente na sua proposta para que os Jogos Olímpicos previstos para 2024, em Paris, fossem económica e socialmente responsáveis.

No início, poucos acreditavam na ideia: propor um novo modelo de jogos, aberto a todas as empresas, mesmo as micro, as mais atípicas, as mais inovadoras, onde as pessoas mais afastadas do mercado de trabalho pudessem ser integradas. A verdade é que nasceu uma parceria entre a sociedade Paris 2024 (responsável pela organização), a Solideo (responsável pelas obras), o município, o Yunus Center (Centro mundial de recursos no domínio da Economia Social e Solidária) e a associação Les Canaux (que apoia atores da Economia Social e Solidária, em França e outros países). Foi essa a candidatura vencedora que, assim se propõe, dará origem aos primeiros Jogos Olímpicos inclusivos e solidários.”

E foi assim que, com a devida gala, Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris e presidente da Solideo, Tony Estanguet, presidente de Paris 2024, Muhammad Yunus, prémio Nobel da Paz 2006 e Eric Pliez, presidente de Canaux, assinaram em Saint-Denis uma convenção que visava a organização dos primeiros Jogos Olímpicos e Paralímpicos inclusivos e solidários.

Jogos Olímpicos. Assinatura

Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris e presidente da Solideo, Tony Estanguet, presidente de Paris 2024, Muhammad Yunus, prémio Nobel da Paz 2006, e Eric Pliez, presidente de Canaux, assinaram (23.05.2018) em Saint-Denis uma convenção que visava a organização dos primeiros Jogos Olímpicos e Paralímpicos inclusivos e solidários. Fonte: https://presse.paris2024.org/ 

 

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos (JOP) de 2024 em Paris foram anunciados como os primeiros de uma nova era, os jogos da economia social, para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. Foi assinada uma Carta Social que tinha como objetivo determinar e promover os compromissos sociais visando deixar uma forte herança social. De acordo com o plasmado na Carta Social eram três os seus principais desafios os quais se devem manter após os jogos:

  1. Permitir o acesso ao mercado dos JO a todas as empresas, fossem elas micro e médias (TPE-PME), empresas da Economia Social e Solidária (ESS), setor da inserção
  2. Promover a inserção de públicos mais frágeis, afastados do emprego ou ainda pessoas com deficiência.
  3. Garantir o respeito pelas condições de trabalho e sua qualidade, combater o trabalho ilegal, discriminação e o trabalho precário.

A resposta a estes desafios será o verdadeiro património herdado.

Foi mesmo criada uma plataforma de informação que acompanhasse as empresas da ESS que pretendessem contribuir para o sucesso dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

É verdade que nesta etapa de preparação foram várias as críticas, as dúvidas, e nem tudo terá sido fácil. Tanto mais que o formato dos jogos está desde há muito definido e qualquer alteração introduzida cria problemas sobretudo a quem está habituado a ser dono e senhor destes eventos: as grandes empresas. Nesse seu formato, raramente obedecem a uma lógica económica racional, inserindo-se sobretudo numa lógica de propaganda, afirmação de poder e de prestígio, o que é terreno fértil para conluios. Mas, tal como afirmou Tony Estanguet, presidente do Comité Organizador; “Não escolhemos a facilidade, mas sim a excelência social como modelo de sucesso”.

Entre as várias críticas, Youssef Achour, presidente da Câmara regional da economia social e solidária d’Île-de-France (CRESS-IDF), François Henrion, presidente do Movimento associativo de d’Île-de-France (Madif) e Marie-Lucie Sciarli , copresidente de InserEco 93, publicaram,  em 18 de agosto de 2022, no jornal Les Echos um artigo em que sublinhavam sobretudo três aspetos:

Primeiro, trata-se de mercados de grande dimensão para as estruturas da ESS, o que as obriga a aliarem-se a grandes empresas sem a garantia de continuidade ganho o concurso público.

Segundo, prazos demasiado curtos para as estruturas da ESS para que possam formar as pessoas em processo de inserção de acordo com as tarefas propostas.

Terceiro, as estruturas da ESS foram chamadas no final do processo e aquelas que se mostraram interessadas foram postas de lado solicitando às grandes empresas que as acomodassem. E isto sem qualquer garantia ou indicador de verificação dos compromissos assumidos.

O envolvimento de cerca de 45 000 voluntários também mereceu discussão e críticas. Contudo, à exceção da CGT, os sindicatos primaram pelo silêncio. Alguém disse que isto era a institucionalização do trabalho gratuito, sem o qual os JOP não teriam lugar. A própria Carta do Voluntariado, publicada pelo Comité dos JOP mereceu diversas críticas nomeadamente quanto ao nível de subordinação, obrigações e descrição das missões. Há quem defendesse que, do ponto de vista jurídico, o contrato de voluntário se assemelha a um contrato de trabalho. Acresce ainda o facto de estarem previstas sanções para quem não cumpra o que dele se espera. Como diria o sociólogo americano Andrew Ross, “é o sonho de qualquer capitalista” [ver artigo escrito há 10 anos, mas tão atual].

Foram muitas e diversas as críticas ao processo e certamente elas continuarão após o balanço, mas em vez de servirem de argumento para denegrir o processo, elas deveriam juntar todos os envolvidos à volta da mesa para refletirem sobre as aprendizagens e o legado. Só assim terá sentido esta aposta tentada pela primeira vez. Sublinhe-se que a França é um dos países europeus mais evoluídos no que respeita à Economia Social e Solidária, nomeadamente ao nível da legislação.

Apesar de nem tudo ter sido perfeito, importa sublinhar que foram mobilizados mais de 500 atores da Economia Social e Solidária, ou seja, 25% dos contratos olímpicos, alguns deles combinando na perfeição o conhecimento técnico com o modelo cooperativo. Uns envolvidos na construção e planeamento de estruturas, sendo um dos exemplos a aldeia olímpica que utilizou técnicas inovadoras de sustentabilidade e cujos edifícios após os jogos serão convertidos em habitação para famílias.

Uma última nota sobre o combate ao desperdício nestes Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Várias associações de recolha de alimentos (Chaînon manquant, Les Restos du Coeur, bem como a Federação Francesa dos bancos alimentares) foram mobilizadas pela organização para a luta contra o desperdício alimentar. A sua missão consiste em recolher diariamente o excedente de alimentos nos diferentes locais para depois, graças à rede das associações, o redistribuírem pelas associações de apoio às populações. Este trabalho de redistribuição é coordenado pelo Chaînon manquant. Numa altura em que houve um aumento da população fragilizada e das suas necessidades os JOP foram um boa ajuda.

Serão estes jogos o início de uma nova era? Veremos, revelado o balanço, se eles corresponderam ou não às expectativas dos envolvidos! Mas, como disse Cyril Cosme, diretor da Organização Internacional do Trabalho (OIT): “ O primeiro elemento do balanço social do qual estamos certos é a existência de uma Carta Social e que pela primeira vez o mundo do trabalho, através dos representantes dos parceiros sociais foi formalmente associado e implicado a montante na organização dos Jogos Olímpicos.”

É um passo, esperemos que seja de esperança.

Chama Paralímpica

Chama Paralímpica atravessando os vários territórios de França. Fonte: https://presse.paris2024.org/ 

 

José Centeio é editor de opinião no 7Margens e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); contacto: jose.centeio@gmail.com 

 

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