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A família tradicional estará em risco?

| 29/04/2024

Família

 “É bom lembrar aos arautos da família tradicional que esta se erguia como única forma admissível de organização da vida familiar, excluindo todos os homens e mulheres que nela não conseguiam enquadrar a sua vida afetiva.” Foto © Josue Michel / Unsplash

A família tradicional já não é o que era. Na verdade, nunca foi essa realidade homogénea que os seus supostos “defensores” querem fazer crer. Basta conhecer a história da família e a sua constante reinvenção nos últimos dois mil anos (o tempo do cristianismo) para verificar como o conceito e a prática foram mudando, adaptando-se a novas circunstâncias.

Os autointitulados defensores da família tradicional (ou família natural, que é outro conceito a necessitar de aclaração) parecem não entender que a família monogâmica, heterossexual e com filhos não precisa absolutamente nada dos seus esforços para se manter incólume no conjunto de ofertas disponíveis nas atuais sociedades plurais e seculares. Está aí de boa saúde e sem que ninguém tenha a mais pequena vontade de a abolir ou sequer desvirtuar. É inútil que se ergam em paladinos daquilo que não precisa da sua tão palavrosa defesa.

Suspeito, porém, que não é esta a família a que se referem quando afirmam estar em risco nas sociedades modernas. Até há poucos anos, o modelo de família que imperava não se incluía apenas na descrição que dela fiz acima. Gozava também de algumas propriedades que, felizmente, têm vindo a perder terreno. Refiro-me ao patriarcalismo, à indissolubilidade legalmente imposta e ao facto de ser a única forma de organização familiar admitida pelo contexto social, jurídico e político. Neste modelo vigente durante séculos, o macho dominava a ferro e fogo o ambiente familiar. Todos os seus elementos, de uma forma geral, dependiam financeiramente dele, o que os fragilizava enormemente. A mulher, reduzida ao labor doméstico, sem qualquer possibilidade de intervenção pública, tinha de se dobrar, de modo subserviente, à vontade implacável do seu marido. Em muitos casos, o autoritarismo tóxico masculino derivava em violência e morte. Infelizmente, os resquícios dessa masculinidade tóxica, evidentes no poder abusivo do macho relativamente à mulher, ainda fazem, nos tempos que correm, os seus estragos.

Além deste aspeto hediondo da organização familiar tradicional, havia ainda a proibição absoluta do divórcio, obrigando a mulher a viver eternamente sob o poder discricionário do seu marido, mesmo quando tal poder se revelava violento para si e para os filhos. Felizmente, vimo-nos livres de tão grande injustiça que condenava o elo mais fraco a uma vida submissa, muitas vezes infeliz e sem redenção.

Por último, é bom lembrar aos arautos da família tradicional que esta se erguia como única forma admissível de organização da vida familiar, excluindo todos os homens e mulheres que nela não conseguiam enquadrar a sua vida afetiva. Os homossexuais estavam obrigados a viver a sua vida íntima de forma oculta, como se fossem criminosos. Nenhuma proteção jurídica lhes era facultada. Viviam clandestinamente os seus laços de amor, longe do olhar inquisitorial, discriminatório e odioso da restante comunidade.

“A família tradicional gozava também de algumas propriedades que, felizmente, têm vindo a perder terreno. Refiro-me ao patriarcalismo, à indissolubilidade legalmente imposta e ao facto de ser a única forma de organização familiar admitida pelo contexto social, jurídico e político.”

As sociedades modernas vieram abrir as janelas ao bafio de séculos. Contrariamente àquilo que os conservadores afirmam, tais mudanças não fazem parte de nenhuma teoria da conspiração com o objetivo de fazer ruir os alicerces da chamada família tradicional no seu conceito mais benigno. Defendem, pelo contrário, justamente, que outros modelos familiares tenham igualmente direito à proteção legal, no contexto plural das sociedades democráticas, e que o modelo familiar tradicional se liberte do seu hediondo patriarcalismo, reconhecendo à mulher igual dignidade e poder relativamente ao homem, sem qualquer discriminação nem assimetria. Tal justa pretensão veio a confluir colateralmente num aumento do número de divórcios. Mas, ao contrário do que se se tem dito, a causa de tais divórcios não deve ser encontrada na mudança jurídica e nas ideias de igualdade entre homem e mulher, mas na profunda violência exercida secularmente sobre as mulheres. Num tempo em que a sua liberdade era diminuta, tinham de conviver com o perigo e até com a morte. Hoje, porém, assumindo a sua plena autonomia em relação ao homem, a mulher pode desembaraçar-se da alienação a que era condenada. A alteração do sistema legal veio apenas tornar manifesta a milenar injustiça do sistema. A liberdade e autonomia da mulher e a sua igualdade face ao parceiro conduziram justamente à recusa de toda a relação tóxica, fundada no domínio e na violência.

É por isso que tenho enormes reservas quando oiço os discursos dos “defensores” das chamadas famílias tradicionais, porque raramente definem a que família se referem. E sob o conceito de família tradicional podem subsistir as maiores barbaridades, até há bem pouco tempo aceites como “naturais”.

A este propósito, há quem use o conceito de família natural para se referir a uma realidade não claramente definida, mas excludente, como se as famílias homossexuais não fossem igualmente naturais. Só mesmo um enraizado preconceito pode defender a naturalidade da heterossexualidade e a inaturalidade da homossexualidade. O que é realmente “natural”? O conceito de natureza inclui necessariamente tudo quando existe tanto no mundo da realidade inorgânica como no mundo orgânico, incluindo os complexos fenómenos das sociedades humanas. Assim sendo, não há nada de “não natural” na homossexualidade. A atração por pessoas do mesmo sexo é um facto indiscutível na natureza humana. Faz parte da diversidade com que a natureza nos brinda incessantemente. É, portanto, para quem tem fé, um dom de Deus, como o é também a orientação heterossexual.

Poder-se-ia contrapor que há realidades existentes na natureza que toda a consciência moral recusa. É verdade! Mas o que distingue, neste campo, o bem do mal não é a orientação sexual, mas a forma com que cada indivíduo usa a sua pulsão sexual nas relações recíprocas. Se o faz como mera forma de domínio, subjugando o outro ou exercendo sobre ele violência, o ato perpetrado é seguramente imoral. Mas uma tal situação tanto acontece em relações heterossexuais como em relações homossexuais. Não é a orientação sexual que define o caráter ético da relação, é a forma como cada indivíduo respeita ou não a liberdade e a dignidade alheias.

Infelizmente, a Igreja mantém ainda oficialmente, em relação a este assunto, a sua posição teórica fundada no preconceito multissecular, dando assim cobertura a todo o discurso conservador que parece pretender o regresso a formas de organização familiar profundamente imorais. Para além disso, as palavras inenarráveis com que o Catecismo da Igreja Católica se refere à homossexualidade são dignas de um texto medieval, mas não de um texto dos primórdios do século XXI. Revelam, assim, um total desrespeito pela condição das pessoas homossexuais, ainda que paradoxalmente convidem as comunidades a acolhê-las sem qualquer tipo de discriminação. É tempo de rever a linguagem e a prática. É tempo de dar lugar ao respeito pela diversidade humana e ao princípio fundamental do evangelho de Cristo como tão bem o definiu S. Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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