AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A favor do argumento ontológico – evidência do Absoluto

| 19/06/2020

A favor do argumento ontológico – evidência do Absoluto

by | 19 Jun 20 | Cristianismo, Entre Margens, Igreja Católica, Últimas

A convicção que tenho de que a existência ou as existências particulares implicam inevitavelmente uma Existência Primeira necessariamente existente (Absoluta, Infinita, Eterna) não resulta apenas de derivação lógica por regressão dos efeitos às causas, do múltiplo ao uno. Isso seria muito pouco e ficar-se-ia pelo meramente esquemático. É mais do que isso: é uma forma de argumento ontológico. Tenho cada vez mais a convicção de que há verdade neste argumento clássico e de que algumas das críticas que lhe foram feitas, nomeadamente por Kant, são injustas.

O argumento ontológico, como é sabido, foi originalmente formulado por Santo Anselmo no séc. XI da nossa era. Segundo ele, se era possível pensar “algo acima do qual nada de mais elevado pode ser pensado”, então esse “algo” pensado teria necessariamente de existir. Pois esse “algo” – a própria Suprema Perfeição, isto é, Deus –, só poderia ser pensado enquanto existente. Por conseguinte, se pode ser pensado enquanto tal, tem necessariamente de existir, caso contrário pensar uma Perfeição Absoluta que não existe não seria, com efeito, pensar a Perfeição Absoluta, mas uma estranha imperfeição.

Descartes, uns quantos séculos mais tarde, formula-o de outro modo: Deus, ou seja, a Suprema Perfeição, pode ser pensado enquanto ideia clara e distinta e, como tal, tem de existir, pois é predicado da Suprema Perfeição a existência (eu acrescentaria, a Suprema Existência). Além do mais, ele não concebia que fosse possível que possuíssemos tal ideia de Perfeição sem que ela tivesse sido implantada em nós pela própria Perfeição, porquanto um ser imperfeito não pode gerar a ideia de Perfeição.

Ora, Kant, também uns séculos depois, vem criticar o argumento ontológico da seguinte forma (para alguns decisiva): não se pode inferir necessariamente a existência do Ser Perfeito a partir da própria ideia de Ser Perfeito, pois a existência não pode ser entendida como um predicado do Ser-Perfeito. Para Kant, o erro estava em atribuir à Perfeição o predicado da existência, como mais um predicado, em pé de igualdade com qualquer outro, como por exemplo o de Suprema Bondade.

Isto equivaleria a dizer que o Ser Perfeito é Sumamente Bom e, já agora, também existe, como se a existência não devesse ser, em qualquer Ser ou Ente, a própria substância ou condição inerente. Mas será que era isto mesmo que Santo Anselmo queria dizer? Ou Descartes? Será que eles pretendiam de facto que a existência que imputavam ao Ser Perfeito fosse um mero predicado, um acidente?

É que pensar a existência suprema (Absoluta, Infinita, Eterna) não implica derivar dela um atributo, digamos, acidental, como seja por exemplo a existência. Não se trata na verdade de uma inferência do tipo “se é Perfeito, logo existe” (tal como o famoso “Penso, logo existo” pode fazer supor), por natureza mediada. Trata-se, na verdade, e antes de tudo o mais, de uma intuição, uma apreensão imediata de uma realidade cuja natureza é a da própria existência-em-si, quer dizer, da Existência Primeira.

Sublinhe-se que aqui Existência não é predicado, mas a própria natureza, substância e ratio essendi dessa Perfeição. Tanto valeria para Santo Anselmo ou qualquer outro chamar-lhe “Perfeição Suprema” ou “Existência Suprema”. Iria dar ao mesmo – a Perfeição Suprema é a Existência Suprema. Consequentemente, se podemos pensar a Existência Suprema, tem de ser necessariamente como existente, até porque com essa ideia vem uma instante intuição de suprema necessidade, inexorabilidade, unidade absoluta. A sua existência surge-nos à consciência como absolutamente necessária. Diria até como a própria Necessidade.

A formulação discursiva e lógica vem depois. Daí que o argumento ontológico não possa ser resolvido apenas do ponto de vista lógico, nem possa, só por si, coagir seja quem for a acreditar na verdade que supostamente visa provar. Porque o salto que ele requer para ser compreendido é da natureza da evidência intelectual subjetiva. Em vez de um argumento, ela pode exprimir-se numa proposição simples (auto-evidente?): aquilo que pode ser pensado como existente-absolutamente-necessário existe necessariamente.

Faço também notar que São Tomás de Aquino criticava o argumento ontológico dizendo que sendo Deus essência e existência, e sendo a essência impossível de conhecer, não era, portanto, possível inferir da essência a existência. Mas repito: a essência da Absoluta Necessidade é a da própria Existência. Não há, portanto, distinção possível entre os dois domínios neste caso.

Não se trata de inferir um do outro, mas de apreender imediatamente a absoluta necessidade na sua verdadeira e inexorável natureza (já Heidegger, o homem da physis como totalidade em devir, avesso às dicotomias académicas e às categorizações escolásticas da metafísica tradicional, dizia que, no homem, essência era existência; se é assim no homem, como não o há de ser, por maioria de razão, no Ser-Absoluto, Deus, Existência Suprema?).

Em suma, a evidência radical de que me habito a mim mesmo, e de que portanto, existo, implica a evidência radical de que a existência é absoluta e necessária. O absoluto da minha existência conduz-me à evidência do absoluto de toda a existência. Tenho, por conseguinte, duas certezas: eu existo, e o Absoluto existe. Por outras palavras: eu existo, e o Infinito-Uno existe. O que quer que eu seja está sustentado num fundamento imortal, absolutamente necessário, absoluto.

Talvez ambas as evidências não passem afinal da mesma evidência radical, que, como um relâmpago, atravessa simultaneamente o meu próprio ser e a Totalidade do Ser. Somos uma expressão do Ser, parte do Todo; não há de ser uma tomada radical de consciência de um ser-para-si-próprio, uma tomada de consciência da própria Totalidade do Ser para si própria – isto é, do Absoluto? Não há de a mesma evidência de um ser irredutível, indissolúvel, absolutamente necessário e uno, que a si mesmo se habita, exprimir a unidade primordial, quer dizer, do Uno-Absoluto?

Se isto é verdade, as implicações são imensas, e não há como negar que existirá uma relação metafísica privilegiada entre a consciência individual e a realidade última, metafísica, do Todo. O mesmo é dizer: que somos dotados de alma – que é a condição necessária da nossa subjetividade individual – e que a Subjetividade Absoluta (chamemos-lhe Deus…) existe mesmo.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa)

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

A Paz à procura do Nobel

À Margem

A Paz à procura do Nobel

À hora a que este texto está a acabar de ser escrito – às 17h18 de quinta-feira, dia 8 – ainda não foi divulgado quem receberá, este ano, o Prémio Nobel da Paz. O leitor mais tardio, todavia, já saberá se a distinção foi, além de merecidamente atribuída a alguma pessoa ou organização, útil para chamar a atenção do mundo para algum conflito ou guerra que permanece por resolver, apesar dos esforços do laureado.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.

É notícia

Entre margens

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Cultura e artes

a importância que uma farda tem (1)

a importância que uma farda tem (1)

“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.

Sete Partidas

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Perseu declara-se vítima

Testemunho

Perseu declara-se vítima novidade

Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça. [Testemunho de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica].

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.