A favor do argumento ontológico

| 9 Jul 20

Evidência do Absoluto (II)

(O primeiro texto sobre este tema foi publicado no Sete Margens em 19 de Junho)

 

Perante Deus – o Absoluto-Ilimitado-Uno – só nos resta assumir que nada sabemos. Nada senão o essencial, que é tudo – que Ele existe, conquanto reconheçamos a evidência ontológica como evidência. O resto – escrituras, revelações, doutrinas, profetas, preceitos, sistemas –, se não se fundamenta numa experiência singular, pessoalíssima, de conhecimento interior, de gnose, não pode senão ser objeto de fé. E está bem que se tenha fé numa qualquer doutrina, numa qualquer “revelação” posta por escrito, sistematizada, com os seus profetas, preceitos e dogmas, desde que se reconheça que não é aí que está a última palavra, não é aí que reside a evidência, não é aí que está a verdade absoluta; que isso é só o princípio de um longuíssimo caminho, e não o fim.

A verdadeira fé é irmã da dúvida, não como dúvida que paralisa e destrói, mas como janela sempre aberta para o Aberto que é o Ilimitado-Deus, que é quem, em todos os casos, detém sempre a última Palavra. A verdadeira fé não se satisfaz jamais com o literal, não presta culto cego a qualquer doutrina estabelecida, a qualquer tradição oral ou escrita, mas mantém viva e desperta a procura que tem por horizonte apenas uma e uma só certeza – a de que a Verdade existe, a de que o Mistério é real e está vivo.

Se a palavra mata o mistério, amesquinhando-o, tornando-o em mais um instrumento reles ao serviço da ganância ou do poder, da exaltação pessoal ou de grupo, dos jogos vãos do que de mais vil existe na natureza humana, então essa está longe de ser a Palavra. Se a palavra – ou a interpretação que dela se faz – serve para acabar com o silêncio, espezinhá-lo de uma vez para sempre, ao invés de ser uma entrada e um promontório que nos põe diante dele e da visão fascinante, tremenda e infinitamente sublime e comovente do mistério que está para além de qualquer palavra, então essa não é a Palavra.

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Esse Tudo, não podendo estar limitado senão por si próprio (caso contrário só poderia estar limitado pelo que é absolutamente diferente de si próprio, que é o Nada [e esse já vimos que é pura não-existência], só pode portanto ser Infinito. Como poderia o Todo terminar naquilo que não existe de todo? E se, por absurdo, o Nada existisse ou tivesse de ser (o que é por si só uma contradição lógica), então o Todo terminaria na mesma em si próprio, pois qualquer espécie de existência seria ainda parte da existência do Todo. Em qualquer caso, o Todo não pode ter limites, se é de facto o Todo, quer dizer, a Existência onde cabem todas as existências. Se o seu limite está no Nada, então não tem limite, pois este é Nada. Se o seu limite está noutra existência, então esse não é na verdade um limite, pois não constitui uma descontinuidade entre coisas fundamentalmente distintas, mas uma continuidade entre aquilo que é, exatamente e na essência, a mesma coisa.


Se existo, é evidente e necessário que alguma coisa exista

Pode esta Existência Absoluta que eu penso, pura e simplesmente não existir, ser um fruto da minha fértil mas pueril imaginação? Suponhamos que sim. O que resta? Resta aquela existência da qual, como Descartes, não posso de todo duvidar – a minha própria, qualquer que seja a sua natureza. Essa evidência radical, a de que existo, a de que, de uma forma ou de outra, existo enquanto interioridade subjetiva, não posso em absoluto negar, embora desconheça quer a sua real natureza, quer a sua real extensão. Que não está definida e não é facilmente definível, limitável, disso estou certo.

Em todo o caso, o que importa aqui é que existo, e se existo, então é evidente e necessário que alguma coisa exista. Ora, se algo existe, a existência enquanto tal é então um facto incontornável. Quer dizer, é mais do que evidente que entre o Ser e o Nada, o Ser é prevalecente em absoluto e, portanto, o Nada absoluto não só não prevalece como não existe pura e simplesmente. Mas será esse facto, apesar de incontornável, uma mera contingência, o fruto de um acaso?

Poderia a existência nunca ter existido; poderá um dia, tal como por acaso surgiu, por acaso desaparecer, ser obliterada, nadificada? Estará o Ser à partida condenado por conter em si mesmo o gérmen da sua precariedade e morte? Ora, isto só seria assim se o Ser, i.e., se a Existência pudesse admitir dentro de si mesma o vazio absoluto e a descontinuidade, mas já vimos que dificilmente é assim. O Ser é, em princípio, pleno, o mesmo é dizer, Absoluto. A sua existência não é fruto de nenhum acaso, mas de uma absoluta e inexorável necessidade.

Mas respondamos às questões:

Mas será este facto, apesar de incontornável, uma mera contingência, o fruto de um acaso? Poderia a existência nunca ter existido; poderá um dia, tal como por acaso surgiu, por acaso desaparecer, ser obliterada, nadificada?”

Se a nossa resposta for “Sim” a estas duas questões, temos então de admitir que o Nada, que é coisa nenhuma, criou esta existência; e que uma vez esta criada, ela pode voltar ao Nada. Admitimos, por conseguinte, que o nada absoluto é criador de existência, e que a existência – que é a própria negação absoluta do Nada –, pode voltar a essa mesma absoluta não-existência (estranho num universo em que se diz que nada se perde…).

Neste caso, portanto, o Nada seria a norma, e o Ser a estranha exceção. Mas, se como vimos, o Nada é a própria não-existência absoluta – isto é, pura impossibilidade ontológica –, então de onde virá a ideia de que o Nada, num universo onde o que prevalece é a sua absoluta negação (a Existência), possa ser a norma criadora ou nadificante de todas as coisas? Como se pode alguma vez afirmar com verdade e justiça científica, por exemplo, que o universo veio do nada, senão em termos estritamente figurativos ou metafóricos!?


“Estará o Ser à partida condenado por conter em si mesmo o gérmen da sua precariedade e morte?”

Nesta questão, como vimos, a própria impossibilidade da existência da absoluta não-existência (i.e. do Nada) descarta qualquer possibilidade de descontinuidade ou vazio absoluto na natureza do Ser. Logo, não pode haver, no seio do ser-absolutamente-contínuo, qualquer gérmen de dissolução, fragmentação ou decadência na não-existência. “O ser persevera no ser”, escreveu Hegel.

Em face disto, é ou não lícito afirmar que pensar a Existência Absoluta – Una, Perfeita, Infinita – implica necessariamente que ela exista, ao invés disso ser apenas uma fantasia da imaginação? Não é isso afinal que defende o antiquíssimo argumento ontológico?

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa)

 

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