Há uma fenda entre a Igreja e as pessoas que o Papa Francisco quer fechar

| 19 Jul 19

“Divórcio, o mal menor”, ilustração de Udo J. Kepler (1872-1956) reproduzida da Wikimedia Commons, a partir de uma obra na Library of Congress dos EUA.

 

Há uma fenda entre a Igreja Católica e a vida de muitas pessoas e é essa fenda que o Papa Francisco quer fechar, com iniciativas como os dois sínodos sobre a família e a publicação de um documento como a Amoris Laetitia(A Alegria do Amor). A consideração é do jornalista inglês Austen Ivereigh, autor de Francisco – O Grande Reformador, numa conferência na noite de ontem, 18 de Julho, em Lisboa, acerca do Papa e do seu pensamento sobre a família.

Jornalista, antigo porta-voz de assessor do arcebispo emérito de Westminster, cardeal Cormac Murphy-O’Connor, Ivereigh esteve acompanhado pelo teólogo norte-americano James Keenan, padre jesuíta e um nome destacado da teologia moral, que tem dedicado a sua investigação ao tema das virtudes. Ambos sublinharam a importância da carta pastoral do arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, para a recepção da Amoris Laetitia, no caminho que propõe de acompanhamento dos divorciados recasados.

Na sua intervenção inicial, o jornalista sublinhou que a Igreja Católica tem estado ausente das vidas e histórias de muita gente nas últimas décadas. “Ser católico não protege do divórcio” e o casamento “não foi salvo pelas condenações” duras do divórcio que a hierarquia católica foi fazendo.

 

“Durante muito tempo…”

A propósito, e diante de centenas de pessoas que encheram o auditório do Colégio São João de Brito, em Lisboa, o jornalista citou aquele que considera o parágrafo mais importante (o nº 37) da exortação apostólica publicada em Abril de 2016: “Durante muito tempo pensámos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimónio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las.”

Ivereigh defendeu que o pensamento do Papa se pode entender a partir do documento final da assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano, realizada em Aparecida (Brasil), em 2007. O então arcebispo de Buenos Aires, cardeal Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, foi um dos seus principais redactores e ali estão plasmadas algumas intuições fundadoras do actual pontificado: a importância de enfrentar os desafios da secularização; a leitura de que se está perante “uma mudança de época”; o foco da fé cristã no “encontro fundador” com Jesus e não, como também viria a escrever o Papa Bento XVI, numa qualquer “decisão ética ou grande ideia” (encíclica Deus Caritas Est, nº 1).

“O que Deus quer” é que a Igreja assuma os verbos que o Papa sugere na exortação: “acolher acompanhar, discernir e integrar”. E as pessoas devem ver a Igreja como um hospital onde podem sarar as suas feridas e não um clube selecto do qual se sentem excluídas acrescentou Ivereigh.

“As pessoas devem ver a Igreja como um hospital onde podem sarar as suas feridas.” Foto © Agnes Monkelbaan/Wikimedia Commons

 

As sete palavras do Papa

James Keenan, doutorado na Universidade Pontifícia Gregoriana, onde tem estado actualmente a ensinar, escolheu sete palavras que, na sua perspectiva, definem a linguagem da exortação do Papa: pastoral, já que o texto liga o Vaticano II e Francisco; local, porque a Igreja continua a ser universal, mas a expressar-se com as línguas, liturgias e textos locais; sínodo, porque uma Igreja à escuta nasce dessa dinâmica.

Outra palavra-chave é a consciência, porque o catolicismo deve “formar as consciências” e não “substituí-las”, como diz o parágrafo citado antes. A consciência implica reconhecer a própria culpa, a capacidade de julgar, a liberdade e a humildade. “A consciência não é infalível, mas só podemos chegar à verdade através dela”, disse o padre Keenan, que sublinhou que o coração da Amoris Laetitia“ é o respeito da Igreja pela consciência das pessoas”.

Já no período de debate, sobre este mesmo tema, James Keenan diria que o tema da consciência começou a ser aprofundado, em teologia moral, pelos teólogos europeus do pós-II Guerra Mundial. “No meu país, os Estados Unidos, não temos uma consciência da culpa”, afirmou. “Não há um único memorial dedicado aos escravos ou ao genocídio dos povos nativos, não pedimos desculpa por Hiroshima ou Nagasaki.”

As outras três palavras do “léxico do Papa” na exortação são o discernimento moral, o acompanhamentoe a misericórdia. A propósito do discernimento, recordou os monges da Irlanda que, como São Patrício no século V, começaram a promover a confissão individual (até aí ela era pública): a palavra que designa os monges que acompanhavam as pessoas significa “amigos da alma” e todos os casais deveriam encontrar esse amigo da alma” na Igreja, disse James Keenan.

O teólogo americano referiu ainda sete momentos e iniciativas que, pelo mundo fora, confirmam que a AL está a ser posta em prática: houve dúvidas de cardeais; nomeação de padres com a missão de acompanhar as pessoas; bispos e teólogos a estudar juntos o documento; guiões de leitura; bispos ajudando outros bispos; e bispos a promover a realização de sínodos nas suas dioceses; e o exemplo da carta de Braga, que pode servir de referência não só para Portugal como para outras partes do mundo.

Ambos os intervenientes concederam entrevistas ao 7MARGENS que serão publicadas oportunamente.

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