Jovens confluem para JMJ

A festa, alegria e o acolhimento invadem o país e desaguam agora em Lisboa

| 30 Jul 2023

Festa dos Povos na Serra da Estrela, neste domingo, 30. Foto © Cristina Santos Pinto, cedida pela autora.

Festa dos Povos na Serra da Estrela, neste domingo, 30. Foto © Cristina Santos Pinto, cedida pela autora.

 

Está por todo o país, a festa da Jornada Mundial da Juventude. E nesta segunda-feira, 31, ela invadirá Lisboa de festa, cor e sorrisos: “Fomos muito bem recebidos pelas famílias de acolhimento” em São João da Pesqueira e depois em Lamego, dizia sábado à noite ao 7MARGENS o cabo-verdiano António Barreto, 32 anos, professor de matemática. 

Esta semana foi intensa e o grupo em que veio – 28 jovens e jovens adultos da ilha do Sal, mobilizados pelo padre José Abrunhosa, da diocese de Lamego – quase nem teve tempo para descansar da viagem. 

“Foram quatro dias [em São João da Pesqueira], um pouco intensos, porque chegámos sábado à noite e começámos logo no domingo. Na primeira noite dormimos cinco horas.” 

Provavelmente, muitos milhares pelo país fora contariam experiências semelhantes. Encontros, piqueniques, orações, danças e cantares, visitas a monumentos e a instituições sociais, celebrações da missa – esta semana multiplicaram-se as actividades, os contactos interculturais, o colorido, a alegria. Houve uma subida ao Pico, nos Açores [ver fotogaleria de Renato Goulart no 7MARGENS], mas também uma “festa dos povos” no alto da Torre, na Serra da Estrela, neste domingo. Houve um festival da comunidade Chemin Neuf no Algarve, orações ecuménicas, concertos, óperas…

 

Jovens da ilha do Sal à chega a Lisboa, no sábado, 22: António Barreto e Fernanda Silva seguram o cartaz amarelo; José Abrunhosa está no meio deles. Foto © António Marujo/7MARGENS

Jovens da ilha do Sal à chega a Lisboa, no sábado, 22: António Barreto e Fernanda Silva seguram o cartaz amarelo; José Abrunhosa está no meio deles. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Aos cabo-verdianos do Sal aguardava-os um programa também assim cheio. Entre turismo, partilhas de culturas e contactos com as populações, foi uma corrida: Penedono, Trevões, Vila Nova de Foz Côa, Lamego desde quarta-feira, são nomes que o jovem professor registou, entre monumentos, museus, capelas e igrejas incluídas, ou não estivessem eles a participar numa Jornada Mundial da Juventude (JMJ) promovida pela Igreja Católica. Mas também a gastronomia, as danças e cantares, a partilha em lares de idosos e pessoas deficientes. E não foi só ver: os do Sal também mostraram como cantam e dançam, por exemplo. 

“Uma bênção”, resume António, “um desafio” ao mesmo tempo, porque fisicamente foi muito exigente, sobretudo para os mais novos. Mas um “desafio superado. Na primeira etapa da semana, em São João da Pesqueira, houve uma “ligação instantânea, uma familiaridade sem precedentes, parecia que já todos nos conhecíamos”. A despedida, por isso, “foi emocionante”, e António distribuiu e recebeu abraços de pessoas com quem nunca falou. 

Essa foi uma das marcas desta semana, o “afecto que se criou: pelo menos um membro de cada família de acolhimento esteve presente em todas as actividades”, exemplifica ainda António Barreto. 

Ouvir a mensagem do Papa

Sim, a festa é uma dimensão importante da JMJ, diz o professor. Como o “clima de animação, o encontro entre diferentes culturas, a espiritualidade”. Barreto espera ver o Papa Francisco e “ouvir a mensagem que ele tem, muito enriquecedora” e espera até alguma “surpresa”. 

Fernanda Silva, advogada, também com 32 anos, veio no mesmo grupo. E também diz que a JMJ “é uma festa”, mas para ela é sobretudo uma “vivência”, para rezar, conhecer outras pessoas, outros modos de viver a fé – e tudo isso é “o mais importante”.

E o que espera da JMJ António Barreto, que regressa a Portugal depois de ter estudado durante oito anos no Instituto Superior Técnico, em Lisboa? “Levar uma bagagem vastíssima”, não com muito mais maturidade, que é pouco tempo, mas com uma “carga espiritual” que o leve a ser melhor, e partilhar com outros o que está a viver em Portugal estes dias. 

Se fosse para pedir duas coisas, o que pediria o jovem professor? Para o mundo, “paz”. Para a Igreja, “sinodalidade” – “temos falado disso [nas comunidades católicas de Cabo Verde], desligando da palavra, que não parece simples, mas que quer dizer apenas ‘caminhar juntos’”, justifica”. E acrescenta: “Temos de ter, na Igreja, uma centralidade horizontal, nada de o padre ser superior nas comunidades.”

Fernanda Silva está pela segunda vez numa Jornada Mundial – a primeira foi já com o Papa Francisco, no Rio de Janeiro, em 2013. “Uma experiência única” que ajudou Fernanda a “aumentar a fé”.

A presença deste grupo do Sal em Portugal tem uma história: o padre José Abrunhosa, de Almacave (Lamego) costuma fazer desde há uns sete ou oito anos férias de voluntariado missionário em Cabo Verde, quase sempre em Janeiro. “Eram quase todos miúdos quando os conheci”, conta. José Abrunhosa estava no Sal quando foi anunciada oficialmente a realização da JMJ em Lisboa, em Janeiro de 2019 – dois meses depois de o Religionline (antecessor do 7MARGENS) ter divulgado a notícia em primeira mão. 

“Logo no início, falei em arranjarem subsídios, fazerem bolos para vender… Eles são muito activos” e a paróquia onde vivem também. “Tem sido muito importante descobrirem a cultura portuguesa e perceberem que o que lhes demos com a colonização nem sempre foi o que eles queriam”, diz.

 

Cecília Afrâmio e Nívio Suave à chegada a Lisboa: desejos de “aprender sobre as culturas e a maneira de sermos solidários uns com os outros.” Foto © António Marujo/7MARGENS

Cecília Afrâmio e Nívio Suave à chegada a Lisboa: desejos de “aprender sobre as culturas e a maneira de sermos solidários uns com os outros.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Cecília Afrâmio, 19 anos, de Maliana (Timor-Leste), chegou a Lisboa pouco antes do grupo de Cabo Verde, no mesmo dia 22. Enquanto os africanos partiam para Lamego, o grupo de Timor-Leste tomava a direcção da Rebordosa (Porto). Cecília estuda no DIT, o Instituto de Tecnologia de Díli que tem o nome em inglês. E integra também a Comissão da Juventude Católica da Diocese de Maliana. “Não somos muitos, mas escolheram-me para vir representar os outros jovens.”

As expectativas de Cecília para esta JMJ são altas e passam também pelo desejo de partilhar com quem ficou do outro lado do mundo: “Espero poder levar esta experiência para partilhar em Timor-Leste.” E acrescenta, dizendo que talvez haja possibilidade de chegar junto de Francisco: “Se eu falar com o Papa, gostava de lhe agradecer o que tem feito pelos jovens de Timor, apoiando-nos tanto material como espiritualmente.”

Nívio Suave, 20 anos, estuda mecânica na Universidade Nacional de Timor-Leste, em Díli. Tinha já o “sonho” de estar numa JMJ, depois de ouvir outros mais velhos a contar experiências anteriores. “Espero fazer uma experiência de espiritualidade”, diz. E traduz o que significa isso: “Aprender muitas coisas sobre as culturas e sobre a maneira de sermos solidários uns com os outros”. 

 

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