A atividade filosófica tem, por tradição, a marca do recuo. A sua dimensão reflexiva coloca-a numa plataforma distante do desenrolar empírico da vida e do viver, de tal modo que parece não ter nada a ver com esse desenrolar.
Não creio que seja assim.
Pelo contrário, penso que o recuo filosófico permite perspetivar os acontecimentos e, nessa medida, vê-los com o afastamento crítico que os redimensiona.
Para ilustrar o que disse, gostaria de trazer o contributo possível de um filósofo e de uma filósofa contemporâneos para algumas das dimensões perigosamente críticas que estamos a viver. Trata-se de trazer para o debate aquilo que se poderia designar como o pensamento da incompletude de Paul Ricoeur e a perspetiva de Martha Nussbaum sobre o valor das humanidades para a democracia. Infelizmente, nem um nem outra fazem parte do mainstreaming académico português e, por isso, não são incorporados no imaginário coletivo que contextualiza o pensar e o viver de uma cultura. No meu entender, as razões da sua ausência são, nos dois casos, preconceituosas: ele por se ter afirmado cristão, ela por ser mulher.
Nesse sentido, creio que pode ter utilidade desenvolver algumas linhas gerais sobre o seu pensamento relacionado com a crise em que a nossa vida coletiva está mergulhada.
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Paul Ricoeur e o valor do diálogo e do confronto racional

O filósofo Paul Ricoeur, em 1999. Foto Juerg Mueller / Scanpix., CC0, via Wikimedia Commons
No contexto da filosofia heideggeriana, Jean Grondin afirmou que, depois daquele pensador, a finitude era o único universal da filosofia. Penso que, no pensamento de Ricoeur, esta finitude se configura como incompletude e que esse desenho aponta para a necessidade de que a atividade do pensar se abra, necessariamente, à alteridade. Deste modo, e no contexto da afirmação ricoeuriana de que o ser humano é ‘a alegria do sim na tristeza do finito’, a incompletude da sua filosofia representa, de modo positivo, a finitude da racionalidade humana que só poderá cumprir o seu desígnio se se abrir ao diálogo e ao debate com o diferente de si, nomeadamente se tal diferente a obrigar a um confronto interpretativo.
Toda a vasta obra deste filósofo é a ilustração deste ponto de vista, na medida em que é constituída por uma textualidade dialógica, onde cada pensamento e posição do autor se configura a partir do diálogo e do confronto com outras posições, mesmo as rivais.
O exemplo mais paradigmático dessa sua prática filosófica é o seu diálogo com Freud para pensar a problemática do mal.
Em 1960, na sua obra A simbólica do mal, Ricoeur aborda a questão do mal, através da confissão da culpa da consciência religiosa inscrita nos textos da tradição e, no final, reconhece a unilateralidade da sua abordagem, considerando que teria de se deixar interpelar por uma hermenêutica oposta à sua, sobre a mesma problemática, para alargar a sua visão sobre ela e, assim, conseguir uma perspetiva mais consentânea com a sua complexidade. Por isso, dedicou quase uma década a ler e a interpretar o pensamento de Freud, confessando, no final desse diálogo, que tinha sido obrigado a re-situar a sua posição sobre o mal. E a verdade é que Paul Ricoeur, que tinha começado a sua reflexão sobre o mal no contexto da culpa, a prossegue no quadro da categoria de sofrimento.
É igualmente no contexto do seu diálogo com Freud que o filósofo reconfigura a sua perspetiva hermenêutica e constrói a categoria de conflito de interpretações que, por um lado, representa o limite da racionalidade e, por outro, preconiza e legitima a fecundidade do confronto entre hermenêuticas rivais, dando ao conflito uma dimensão positiva e dinâmica e geradora de mais saber e de melhor compreensão.
O conflito de interpretações supõe o valor de cada hermenêutica, mas, simultaneamente, as suas limitações constitutivas, sublinhando a impossibilidade de um saber total e completo em si mesmo, seja qual for a área da experiência a que se refira. Mas, por outro lado, essa incompletude de cada hermenêutica, para a qual o conflito de interpretações aponta, representa, também, um apelo ao confronto com o seu oposto com quem está em tensão intrínseca, confronto esse que, sendo dialógico, configurará uma reelaboração das perspetivas iniciais, alargando-as e enriquecendo-as.
Penso que este ponto de vista da necessidade e da fecundidade do conflito de interpretações poderia ajudar-nos a viver estes momentos de crise ao nível da nossa vida pública, onde o debate é pouco porque cada parte se entrincheira em posições absolutas, fechando-se na defesa dos seus pontos de vista, sem nunca considerar o sentido possível de quem está em posições diferentes. A todos os níveis, se configuram situações em que há um ‘nós’, portador de verdade e de razão, que se opõe aos ‘outros’ destituídos delas, definindo zonas cerradas e encerradas, sem qualquer hipótese de troca e de comunicação. Não há, portanto, qualquer discussão efetiva, apenas defesa e ataque.
Não estou a querer dizer que todas as posições se equivalem. E também não sou ingénua a pensar que todas as vozes que falam querem chegar a um entendimento que tenha em vista o bem comum. Nem uma coisa nem outra. Creio, contudo, que quem quer viver a democracia e em democracia, nesta crise em que ela está a ser posta em causa, e tem voz pública, ou seja, capacidade de intervir no espaço público, tem de contribuir para a construção de uma cultura de debate efetivo, onde as ideias e os argumentos sejam apresentados e cruzados e não só esgrimidos.
Gadamer, outro grande filósofo contemporâneo, disse que ‘a hermenêutica é a arte de pensar que o outro também pode ter razão’. Penso que as sociedades pluralistas e democráticas, para poderem continuar a sê-lo, têm tanta necessidade de interiorizar esta ideia como de pão para a boca.
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Martha Nussbaum e a necessidade das humanidades para a democracia

A filósofa Martha Nussbaum. Foto © Jerry Bauer (Wikicago at en.wikipedia), CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
A entrada sistemática das designadas novas tecnologias da comunicação nas nossas sociedades veio acompanhada de uma ideia educativa pragmática e utilitarista, que o neoliberalismo potenciou, defendendo que a educação se deveria orientar pela empregabilidade e a investigação pela aplicabilidade, princípios que instrumentalizam quer os processos educativos quer a prática investigativa, desvalorizando ou mesmo suprimindo o valor das humanidades. Entre nós, neste momento, esta perspetiva tem particular acuidade porque o discurso oficial está centrado na ligação das empresas às universidades e às escolas, potenciando um horizonte que articula, diretamente, a educação ao emprego e à especialização e a investigação à sua utilidade prática.
Martha Nussbaum dedicou uma parte importante da sua vasta obra filosófica a denunciar esta situação que classificou como um cancro, porque atuava silenciosamente. No seu livro de 2010, Sem fins lucrativos. Porque é que a democracia necessita das humanidades, o seu diagnóstico sobre a situação educativa assume um tom quase apocalítico e, de alguma maneira, a sua análise entrelaça constitutivamente humanidades e democracia.
Importa esclarecer dois aspetos, para uma melhor compreensão da posição da filósofa. Em primeiro lugar, o valor determinante que ela atribui à educação não só como estruturante da formação humana, mas, igualmente, como um processo de empoderamento das pessoas e dos povos, capacitando umas e outros para criarem dinâmicas de vida coletiva mais justas e mais igualitárias. Em segundo lugar, a sua posição sobre o papel das emoções no discernimento ético, bem como a defesa da educabilidade das emoções.
A sua posição sobre a importância das humanidades para a democracia explicita-se, por um lado, na manutenção das artes e das humanidades nas estruturas curriculares, mas, por outro, e mais significativamente, na configuração de uma atitude filosófica-metodológica, que designa por ‘espírito das humanidades’, e que deveria ser transversal a todo o sistema educativo. Esta transversalidade do espírito das humanidades em todos os processos educativos é defendida com base na convicção de que a sua presença originará duas consequências fundamentais para a vida democrática e para o seu aprofundamento: (1) o desenvolvimento do espírito crítico e (2) o cultivo da imaginação narrativa.
Para Nussbaum, espírito crítico é mais do que uma mera ideia geral e já desgastada pelo uso. Ela associa-a ao crescimento intelectual, ao amadurecimento moral e à construção da autonomia, especificando-a em três capacidades fundamentais e interconectadas:
- a capacidade de autoexame e de reflexividade;
- a capacidade de desenvolver uma atitude interpretativa e crítica perante a tradição;
- a capacidade de desenvolver um pensamento argumentativo, no quadro do diálogo racional, baseado em razões.
Contudo, a originalidade da sua posição consiste na defesa do cultivo da imaginação narrativa e da sua importância para um viver democrático, dada a relevância que atribui à imaginação no espaço público.
É a Aristóteles que vai buscar inspiração, nomeadamente à perspetiva daquele pensador de que a literatura mostra as coisas que poderiam acontecer, e, por isso, tem a capacidade para apresentar possibilidades de mundos diferentes. Nesse sentido, considerando que a democracia não se reduz a instituições e procedimentos, mas exige ‘uma particular qualidade de visão‘, Nussbaum defende que a literatura pode ajudar a construir uma forma de ver o mundo e a humanidade que promove a democracia e a vivência democrática, porque nos pode transportar para a vida de outras pessoas, mostrando as semelhanças connosco, mas também as suas diferenças, que, todavia, torna compreensíveis. Assim, a sua ação pode exercer-se em dois níveis: (1) ajudar à descentração de si próprio e à abertura à alteridade, ao diferente de si e (2) permitir um tipo de coabitação com a diferença que, ao ser compreendida, deixa de ser vista como uma ameaça.
Dito de outra maneira, os textos literários ajudam a cultivar um entendimento empático, entre pessoas e culturas diferentes, alargando a nossa visão sobre as possibilidades de se ser humano, arrancando-nos à perspetiva de um ‘nós’ autossuficiente e fechado que teme e rejeita os ‘outros’ por serem diferentes. Pela sua dupla capacidade de permitir a idealização de mundos possíveis e de nos transportar para fora de nós, a literatura torna-se um bom recurso para o desenvolvimento da compaixão que é a emoção política por excelência, por permitir pensar e viver uma ideia de justiça mais universal e não apenas confinada aos nossos círculos de proximidade.
Deste modo, Nussbaum pode, igualmente, ajudar-nos a interiorizar a ideia gadameriana de que o outro também pode ter razão.










