À flor da pele, uma imensa comoção; por debaixo, a prudência e os desafios

| 8 Ago 2023

JMJ-Missa de abertura Foto ©️Sebastiao Roxo : JMJ Lisboa 2023

JMJ- Missa de abertura. Foto ©️Sebastiao Roxo : JMJ Lisboa 2023

 

Jornada

 

1. Todos, todos, todos (e ainda mais)

À flor da pele nestes dias que se assemelham a revolucionários, sobrevém uma tal comoção geral que não deixa de ser surpreendente. Parecem revolucionários porque em Lisboa as ruas e os jardins estão (muito) cheios e as igrejas estão (muito) cheias de jovens de todas as idades, cores, géneros e feitios, de muitas línguas e bandeiras respirando-se uma insólita atmosfera de festa, de grande alegria e de esperança em tudo: no amor, na união, na paz, no arejamento e na mudança da Igreja, na possibilidade de sermos melhores como pessoas e sociedade, procurando uma sintonia com Francisco.

Entretanto, dizem que 1,5 milhão de pessoas esteve no parque Tejo, onde se rezou, chorou e aplaudiu. Não é possível saber se com outro Papa seria assim; mas suspeito que Todos, todos, todos – que pode vir a marcar uma geração de católicos – só poderia vir de Francisco e ser dito naquele tom convidativamente vibrante, apelativo e exigente. Se levado a sério, Todos, todos, todos é o resumo de um grande programa de inclusão e fraternidade a ser usado na Igreja católica, desideologizando-a, desclericalizando-a, simplificando-a, abrindo-a à diversidade política, de estados civis, de género, de culturas, e o mais que for. Todos são filhos de Deus mas, porventura esquecidos e distraídos, precisámos que viesse Francisco lembrar-nos que Deus ama-nos a todos. Também é, evidentemente, um programa intensamente de justiça social, portanto político.

Mas Francisco não descansou, deu depois sequência ao programa: insistiu (revolucionariamente) na alegria de viver e do amor, e declara que cair não é um problema mas continuar caído, e que só é lícito olhar de cima para baixo quando se ajuda alguém a levantar, o que tem uma ressonância pessoal mas também intensamente política. Não existe rigorosamente nada mais revolucionário, em particular no contexto da economia que mata.

 

2. Êxito

A JMJ alcança um êxito superior ao esperado pela pluralidade e qualidade de muitas das suas actividades, e pela alegria genuína que só uma imensa multidão de jovens (ou o fim de uma grande guerra) pode trazer ao espaço colectivo. Mantenho integralmente as minhas reservas de natureza pastoral sobre este tipo de eventos e a sua preparação (baseio-me no boletim informativo e na consulta do site JMJ), reconheço que há dimensões extremamente interessantes que me tinham passado despercebidas, ou que não tinham tido visibilidade até aqui. Sinto felicidade ao saber-me ultrapassado na minha visão mais negativa e, pelo menos em parte, atribuo este êxito quer à montagem da JMJ, quer ao carisma especialíssimo de Francisco. Alguém conceberia esta festa e vivacidade desta JMJ sem a sua presença e palavra?

 

3. Papa

Papa Francisco na Presidência da República. Foto: ©️ Sebastiao Roxo / JMJ Lisboa 2023

 

Que graça extraordinária que é ser contemporâneo de um Papa dotado deste um carisma inigualável, mas também de uma grande inteligência estratégica e de uma profundidade, simplicidade e fidelidade ao Evangelho desarmantes. Aos 86 anos, algo debilitado, cumpre com alegria um impressionante programa de cinco dias num Verão quente, que tanto lhe exige física, emocional e cognitivamente, o que só parece ser possível devido a uma fé inabalável e a uma força anímica que raramente reconhecemos em terceiros. É um Papa querido, bondoso e afectivo, um exemplo notabilíssimo em todas as dimensões da vida e da fé.

 

4. Discurso no CCB

Oriundo dos confins da terra, vimos a versão mais europeia de Francisco, interpelando directamente a Europa, elogiando-lhe o passado e as suas capacidades (fez saltar a centelha da reconciliação, tornando verdadeiro o sonho de se construir o amanhã juntamente com o inimigo de ontem, o sonho de abrir percursos de diálogo e inclusão) mas exigindo-lhe mais trabalho pela paz, pensando sobretudo na Ucrânia. Notavelmente, clamou por uma boa política [que seja] chamada (…) a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos. É chamada a voltar a descobrir-se como geradora de vida e de cuidado da criação, a investir com clarividência no futuro, nas famílias e nos filhos, a promover alianças inter-geracionais. O reduzido eco junto dos políticos permite perguntar se optaram por ignorar o desafiante repto papal, ou se o não terão percebido. E nós, cidadãos comuns, teremos prestado atenção suficiente?

 

5. Abusos sexuais

É da maior relevância Francisco ter referido logo no primeiro dia e precisamente no discurso ao clero o problema (não resolvido) dos abusos sexuais na Igreja e reunido com vítimas. Sinaliza-nos a prioridade do tema, o que releva no caso português por a Igreja não ter ainda sido capaz de o enfrentar: só a custo e sob pressão social e de grupos de católicos lançou uma investigação independente, mas depois não só não lhe deu sequência como foi incapaz de dar a devida centralidade às vítimas e de tirar todas as ilações do processo. Na verdade, foi preciso vir aqui o bispo de Roma tratar do assunto e reunir com vítimas num encontro que sabemos ter sido extraordinariamente intenso. Será a Igreja em Portugal capaz de se rever e de se transformar à luz do dito e feito pelo Papa, ou insistirá na estratégia defensiva baseada na desresponsabilização do passado e na diluição de responsabilidades na mudança?

 

6. Futuros de Igreja

Cerimonia de acolhimento ao Papa Francisco. Foto ©️Jesus Huerta/JMJ Lisboa 2023

Cerimonia de acolhimento ao Papa Francisco. Foto ©️Jesus Huerta/JMJ Lisboa 2023

 

Há interrogações relevantes que, possivelmente, ainda não têm resposta. Manda a prudência que se evitem afirmações muito definitivas, tal é novo o território que agora pisamos.

Esta dinâmica morre aqui, na ressaca da festa ou existe real vontade de a aproveitar para induzir mudanças? Que podem os leigos fazer, se os bispos não ouvirem e acolherem as suas propostas? Terão ambos capacidade de incentivar e desenvolver os processos de mudança em sintonia com o Papa ou continuaremos todos a fazer de conta?

Como irá a realidade sobrepor-se à comoção destes dias intensos e alegres? Presumo que à comoção sucedam as emoções, mas a verdadeira interrogação é em que medida estas contaminarão o quotidiano dos jovens católicos. Como é que estes, na sua enorme pluralidade de sentimentos, enquadramentos, culturas (geográficas e eclesiais) transporão a aventura da JMJ para o seu dia a dia, para as suas comunidades, escolas, organização e locais de trabalho? Receio que a sementeira dê mais frutos com Francisco do que sem Francisco, o que levanta a questão de saber em que medida o Espírito Santo soprará no sentido de dar continuidade à sua revolução e como reagirão os católicos a um novo Papa.

Ainda a este propósito: vendo o dinamismo da JMJ e o sentido de uma fé comunitária facilitada por um internacionalismo feliz, muita gente nas franjas da Igreja, ou fora dela, mostra um súbito interesse pela figura e mensagem fresca do Papa Francisco. Deve ser difícil encontrar pelo menos nos últimos dois séculos algo semelhante. Saberá a Igreja entender a necessidade de se chegar definitivamente ao século XXI e acolher todos, todos, todos de um modo novo satisfazendo os seus anseios? Conseguirão os católicos repensar-se nas suas comunidades de referência, reinventá-las e criar outras? Como dar lugar às mulheres, como desclericalizar, democratizar, tornar inclusivo e transparente o ambiente católico, sem perder a dimensão espiritual?

Outro aspecto relevante: acompanhar a evolução da religiosidade. É de admitir a existência de uma tendência, talvez ainda não muito nítida, de um renascimento religioso, eventualmente alimentado por um Papa único e especial que fala a linguagem das pessoas e verdadeiramente as compreende, acolhe e as interpela, enquanto o abandono do divino não parece abrandar. Não parece possível discernir com clareza as tensões desta espécie de embate, mas percebe-se que a Igreja só tem um caminho: reinventar-se nas formas de o ser, na linguagem, na estética no sentido aristotélico, na doutrina, não abandonando os princípios.

Por outro lado, neste processo, que papel desempenhará a guerra na Ucrânia, sobretudo em função das formas extremamente agressivas do novo-fascismo russo e da ausência de iniciativa diplomática europeia, porventura forçando uma religiosidade popular reactiva ao medo do alastramento do conflito?

 

Casos (não casinhos)

JMJ, vigília, oração

Vigília JMJ com o Papa Francisco. Foto © JMJ LIsboa 2023

 

Laicidade e custos

Há promiscuidade entre Estado e Igreja, com culpas mútuas. Tem havido dificuldade em perceber as diferenças entre custos e valor, mas isso não inibe que se veja como fantasiosas as projecções sobre o retorno económico-financeiro que recai sobre terceiros (empresas) e não sobre quem custeou despesas a um ritmo alucinante (sobretudo Estado). Nos custos incluem-se os contratos da Administração central e grandes autarquias, mas não os imensos custos indirectos como a mobilização e organização de meios logísticos, de saúde e de segurança, e de muitas despesas fragmentadas. O Estado é inequivocamente laico mas oportunista:  imaginou-se a co-organizar um evento religioso com vista a obter rendimentos e prestígio interno e externo. A Igreja oportunista foi: aproveitou a boleia. 

 

Padre electrónico

Surpreendeu-me o padre DJ de música electrónica, num cenário de filme futurista. Homem sensível e inteligente, à pergunta se passava música electrónica para captar os jovens, respondeu sensatamente que não, fazia-o porque queria estar onde a Igreja não estava. Diferença entre evangelizar e proselitismo.

 

Álcool

Vale a pena registar que a associação de moradores do Bairro Alto referiu um ambiente pacífico no bairro, mau grado a enchente de jovens, atribuindo isso ao não consumo de álcool. Paralelamente, vimos jardins literalmente cheios de gente e com música, mas sem incómodo para moradores. Isto mostra que o modelo de turismo alcoólico e de animação forçada em zonas residenciais em que se baseia em grande parte da estratégia de internacionalização da cidade de Lisboa desde há pelo menos três décadas pode e deve ser revisto.

 

América Latina

Vendo as entrevistas aos jovens da América Latina, sobretudo de língua castelhana, frequentemente estes exibem um discurso mais denso e melhor articulado quanto às expectativas sobre a JMJ e a Igreja, indiciando um maior espírito crítico, uma fé mais amadurecida e incarnada na realidade, com um compromisso com a luta contra as desigualdades. Talvez alguns destes tenham lido as encíclicas papais na preparação da JMJ.

 

Todos, todos, todos?

Em Todos, todos, todos que parte da frase não terão percebido aqueles que invadiram a celebração eucarística especialmente destinada a acolher a comunidade LGBTQ+?

 

Desfazendo três equívocos sobre Deus

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Existem três dificuldades ou equívocos religiosos sobre o carácter de Deus, e que revelam algum desconhecimento sobre Ele. Por isso convém reflectir no assunto. Esses três equívocos sobre os quais nos vamos debruçar de seguida são muito comuns, infelizmente. [Texto de José Brissos-Lino]

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sobre as águas

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Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo XII do Tempo Comum B. ⁠Hospital de Santa Marta⁠, Lisboa, 22 de Junho de 2024.

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