Em meados do século XVI Lisboa exultava “de riqueza e de vaidade”, mas, ao mesmo tempo, estava devastada pela fome entre as classes mais pobres. Convertida em personagem, a Fome torna-se numa figura “mui magra e toda vestida de preto”, que vem “lembrar à muito nobre cidade o drama vivido pelo povo, fustigado pela peste, fome e guerra” e que este era “vítima da ganância, especulação, açambarcamento, suborno e corrupção, assim como ausência de justiça”.
Mudam-se os tempos, mas não se mudam muitas realidades e o Auto das Padeiras, chamado da Fome ou do Centeo e Milho, vem recordar como hoje continuamos com tantos diabos à solta, escreve a encenadora Silvina Pereira, directora do Teatro Maizum.
Este grupo irá apresentar, na 10.ª edição de Clássicos em Cena, três peças, de autores anónimos, do teatro clássico português, em versão de leitura encenada: Auto das Padeiras ou da Fome, Auto dos Escrivães do Pelourinho e Auto do Escudeiro Surdo, todos eles centrados em episódios situados na Lisboa do século XVI. “Nas três peças, que aqui colocámos em diálogo, encontramos uma estrutura em quadros que remete para um teatro de matriz popular, crítico e jocoso, retratando o que se poderia designar como o homem e as suas circunstâncias, numa série de situações concretas”, escreve Silvina Pereira na apresentação da iniciativa.
Na primeira das peças, explica ainda a encenadora, “as alegorias e figuras chamadas à cena ilustram e confirmam o alto custo pago pelo povo, não sendo poupadas críticas contundentes aos oficiais da cidade e ao facto de Lisboa ser conivente e tolerante com os corruptos e com as más práticas mercantis”. E acrescenta: “Também hoje, como ontem, temos diabos à solta que proliferam pelo mundo espalhando o mal e a discórdia, a morte e a guerra.”
O Auto das Padeiras será o primeiro a ser apresentado, já nesta segunda-feira, 24, a partir das 19h, na Galeria Sá da Costa (Chiado). Durante a pandemia, o texto tinha já sido apresentado on-line, em 2020, pelo Teatro Maizum. Nessa altura, recorda Silvina Pereira, houve “uma ampla adesão a nível nacional e no Brasil” à iniciativa que o Maizum designou I Festival de Teatro Clássico Português.
Na quarta, 26, será a vez da leitura encenada do Auto dos Escrivães do Pelourinho; e na sexta, 28, será o Auto do Escudeiro Surdo; ambas as representações serão também às 19h e serão seguidas de tertúlias com a participação dos académicos José Manuel Garcia e Márcio Muniz (este último integra o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e da própria encenadora. No dia 30, domingo, no mesmo lugar, as três peças serão encenadas a partir das 17h, seguindo-se, às 20h, uma tertúlia e iguarias com os actores e espectadores.
O Auto dos Escrivães do Pelourinho, explica Silvina Pereira, retrata o quotidiano lisboeta, mostrando “a proverbial falta de dinheiro, de trabalho, e de vícios como o furto, o jogo ou a vadiagem”. Por fim, no Auto do Escudeiro Surdo “a temática é de amores, matéria governada por deuses cruéis e poderosos que se divertem e investem contra ‘um bicho da terra tão pequeno’”.
Todas as actividades são de acesso livre e gratuito.










