A força do Verbo

| 6 Dez 2023

‘ “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11:3).’ Gravura: A criação da Luz de Gustave Doré (1832-83).

 

O texto joanino diz-nos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Evangelho de João 1:1-4).

Ou seja, o Verbo divino, o Logos divino é Jesus Cristo, a Palavra de Deus feita carne, aquele que se veio a revelar como a mais elevada expressão do carácter de Deus, no dizer do autor da Carta aos Hebreus: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (1:1-3).

 Mas vale a pena prestar especial atenção à forma como Deus se revela à humanidade nos textos bíblicos, que são a Palavra de Deus na opinião de alguns, ou contêm a Palavra de Deus de acordo com outros. E sobretudo atribuir-lhes a relevância intrínseca e a importância que merecem.

 De acordo com o seu próprio testemunho, a Palavra de Deus é profundamente relevante. Senão, vejamos:

 Criou o universo: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11:3).

Tem potencial para gerar vida, como é claramente descrito na parábola do semeador: “Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus” (Lucas 8:11).

Produz fé, que é o recurso indispensável a toda a vida e percurso cristão: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17).

Nunca está presa. S. Paulo testemunhava isso mesmo quando estava na cadeia em resultado da perseguição sofrida devido à sua fé e apostolado: “Por isso sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor; mas a palavra de Deus não está presa” (2 Timóteo 2:9).

É fonte de vida, uma vez que o ser humano pleno necessita de alimentar não apenas o corpo mas também o espírito: “E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus” (Lucas 4:4).

É poderosa pois penetra profundamente no interior do ser humano: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12).

É eterna: “Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40:8).

Mas ela pode ser utilizada de forma equivocada. Um martelo pode ferir e matar alguém, mas também pode ser utilizado como ferramenta indispensável na construção. Do mesmo modo a Bíblia pode ser usada para o bem ou para o mal. Algumas utilizações negativas são as seguintes:

 Como adorno. É o caso dos volumes da Bíblia ricamente encadernados e de lombadas douradas, que embelezam estantes nas habitações de quem não os lê.

 Como amuleto, resultante duma interpretação literal, como os judeus na utilização dos filactérios, objectos aos quais se atribuem virtudes ou poderes mágicos, como amuletos ou talismãs, e que são caixas de couro que contêm pergaminhos minúsculos com textos bíblicos judaicos, atados na testa e no braço esquerdo.

 Como marca cultural distintiva, desejada por sectores cristãos fundamentalistas nos Estados Unidos, que pressionam o poder político para que a lei imponha a prática de oração na escola pública no início das aulas, e ao arrepio da laicidade do estado.

 Como propriedade particular dum grupo religioso, como se a Bíblia não fosse património de toda a humanidade.

 Como mantra, à semelhança das filosofias orientais.

 Mas a palavra humana também tem muito poder, apesar de não se poder comparar ao poder supremo da palavra divina.

Tal como as pedras podem ser usadas para atirar contra alguém e ferir, ou para construir um edifício, também as nossas palavras destroem ou edificam. Há pais e mãos que amaldiçoam os filhos, com consequências psicológicas para o resto da vida em muitos casos. Trata-se de crimes de violência doméstica de tipo psicológico.

A tragédia dos seis milhões de mortos nos campos de extermínio nazi e o ódio e a guerra a eles associados começou apenas com palavras. Como diz um guia de Auschwitz: “tudo começa com palavras”.

 Que a nossa palavra seja verdadeira: “sim, sim e não, não”. Mas também edificante. Segundo o evangelho de Mateus: “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (12:37).

 De todo o modo, a palavra humana passa, mas a de Deus tem a força da eternidade. Foi Jesus que disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar” (Mateus 24:35).

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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