Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém
Porquê agora?
Quem terá decidido ser este o momento para a Igreja Católica enfrentar um cisma? A deserção de 1 de Julho de alguns dos tradicionalistas da Missa Latina é muito menos do que eles alegam e também muito mais ampla e perigosa do que uma disputa sobre arcanos litúrgicos. Após um ano de blasfémias repetidas de Donald Trump, das provocações de Steve Bannon, Peter Thiel e J.D. Vance, e do que restou das ameaças ao papa Francisco dos cardeais das Dubia, do cardeal Raymond Burke e do excomungado Carlo Maria Viganò, este foi o momento escolhido pela direita radical americana para atacar o bom papa Leão.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), herdeira do arcebispo Marcel Lefebvre, volta a brandir o estandarte do cisma. No dia 1 de julho de 2026, em Écône, na Suíça, ordenou quatro bispos. Numa cerimónia de consagração de quatro dias de espetáculo, transmissão em direto, 15 mil fiéis, 1.300 clérigos e um coffret de vinho para os participantes. A “resistência católica” serviu um bom brinde ao divisionismo.
O histórico não mente. Em 1988, Lefebvre ignorou João Paulo II e consagrou quatro bispos, merecendo a excomunhão automática. Os seus sucessores repetem o gesto, e a pergunta é porquê agora ?
A atitude da FSSPX vale muito menos do que eles alegam Por que razão tantos jovens se sentem atraídos pela Missa Tridentina? Talvez porque essa liturgia em que o sacerdote vira as costas ao povo de deus e não fala no vernáculo é claramente dirigida a uma ideia de Deus transcendente e, ao fazê-lo, faz do propósito último da humanidade uma vida interior; o próximo não conta. Por outro lado, a primeira língua da liturgia cristã foi o aramaico, a língua dos primeiros cristãos, que eram judeus palestinianos. Abba e Maranata são termos aramaicos. Na maior parte do mundo mediterrânico a língua da liturgia era o grego e assim se manteve até ao século III. Eucaristia, Kyrie eleison e as palavras liturgia, batismo, evangelizar, mártir e catecúmeno, entre outras, são de origem grega.

“A ironia é grave. A FSSPX, que se apresenta como defensora da fé, ataca precisamente a paz que o sucessor de Pedro tenta promover. Sob o pretexto de defender a tradição, semeia discórdia.” Foto © FSSPX
A ironia é grave. A FSSPX, que se apresenta como defensora da fé, ataca precisamente a paz que o sucessor de Pedro tenta promover. Sob o pretexto de defender a tradição, semeia discórdia. Em vez do consensus fidelium — esse misterioso consenso dos fiéis que a Igreja sempre invocou como sinal da presença do Espírito Santo — quer a vontade de uma facção nostálgica que se acha mais católica que o Papa e que escolheu o latim de 1546. O consenso dos fiéis não se constrói em palácios nem em seminários nem dicionários; vive na oração comum, na liturgia partilhada, na intercessão dos santos mártires e na obediência ao representantes de Cristo. Se os lefebvristas acham possível que o consensus seja apenas o aplauso dos seus 15 mil, é porque têm outros apoios são os apoios de fundo
Em 1982, em Fátima, um antigo discípulo de Lefebvre, o padre Krohn, atacou João Paulo II com uma baioneta e a gritar contra o Concílio Vaticano II. A FSSPX apressou-e a desligar-se, mas o elo permanece incómodo.
A princesa Elvina Pallavicini (1914-2004), e outras figuras da aristocracia romana – que nunca digeriu a perda dos privilégios pontifícios após 1870, abriu o seu palácio a Lefebvre em 1977. A chamada “nobreza negra”, de luto pela perda dos Estados Pontifícios, encontrou no tradicionalismo um cavalo de batalha contra o mundo moderno. Em 2003 organizou encontros pró-guerra no Iraque, ao lado de Dick Cheney e outros falcões americanos. Uma resistência muito espiritual, sem dúvida.
A ofensiva atual da FSSPX insere-se na crise do império americano onde Steve Bannon acarinhou o projeto de escola de gladiadores”no mosteiro de Trisulti; em que Peter Thiel fez conferências sobre o Anticristo (!!!) em maio de 2022 em Roma; e em que J. D Vance lança ataques periódicos a Leão XIII, mais refinados que as blasfémias de Trump. Todos instrumentalizam o descontentamento tradicionalista contra um papa que denuncia o belicismo e o complexo militar-industrial- financeiro. A presença de um bispo americano na FSSPX, Michael Goldade sinaliza a força do contingente yankee dentro e fora da Fraternidade, como escreve David Gibson no New York Times.
Leão XIV incomoda a direita radical de todo o mundo com o seu apelo à paz, fundado no bom senso e espírito de persuasão; com a ajuda que pede para a saúde e a salvação através da comunhão dos santos; com as evidências circunstanciais que utiliza, com as portas que se abrem e fecham, como sucedeu nas suas recentes visitas pastorais a Àfrica e Espanha; com a sua leitura dos mandamento nas Escrituras; com a sua capacidade de comunicação em várias línguas através da oração e da profecia. Tudo isto redunda na transmissão de calma – de uma sensação de paz, de esperar e experimentar, frente aos estadistas histéricos. Antes da sua viagem a Espanha, o Estado Islâmico — uma operação muito estranha onde se desconhece o papel da CIA — publicou uma imagem do Papa com uma bola de futebol ensanguentada.
A FSSPX, com o seu latinório exclusivo e o seu clericalismo antediluviano, ataca a paz. Enquanto o Papa reza pela concórdia, eles consagram divisões. Que belo testemunho evangélico oferecer um coffret de vinho para celebrar o cisma! O consensus fidelium não está do lado dos que constroem muralhas litúrgicas mas Leão XIV e a Igreja sinodal.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










