A fraude do nacionalismo cristão

| 20 Jan 21

Um dos maiores erros estratégicos da fé americana é emparelhar nacionalismo com cristianismo. Jesus Cristo nunca disse uma palavra que fosse sobre ideais nacionalistas, nem agiu nesse sentido. Muito pelo contrário.

“Podemos ser cristãos hoje de apenas duas maneiras, por meio da oração e fazendo justiça entre os seres humanos.” Foto: Dietrich Bonhoeffer

 

A secção de língua inglesa da International Bonhoeffer Society (fundada em 1973), um grupo de teólogos e académicos dedicados a estudar a vida e os escritos deixados pelo pastor luterano alemão e resistente antinazi Dietrich Bonhoeffer, executado em 1945 num campo de concentração, juntou-se ao crescente coro de autoridades eleitas, académicos e líderes religiosos que pedem a destituição do Presidente Donald Trump. “Pedimos aos cristãos que se unam a todas as pessoas de consciência e todas as instituições dedicadas à verdade e à justiça para lutar pela preservação da democracia e buscar justiça para todos os seres humanos, responsabilizando os líderes que ameaçaram as fundações democráticas americanas.”

Já em 2017 a Bonhoeffer Society tinha deixado expressas as suas preocupações com o “aumento da retórica odiosa e divisiva, da violência e da desconfiança” na sequência da eleição de Trump, e no ano passado chegou a pedir a impugnação do Presidente. Retomando a questão, afirmaram agora: “Em ambas as declarações, oferecemos uma visão teológica e ética de Bonhoeffer sobre o discernimento de acções responsáveis ​​em tempos de crise. A ameaça representada para a democracia americana por esta insurreição amplia a necessidade de acção imediata.”

O patrono da sociedade era membro da Igreja Confessante, um movimento protestante alemão que se opôs à tentativa de Hitler submeter o sector religioso à ideologia e ao poder nazi. A importância desta declaração está no facto de associar o nacionalismo cristão a que Bonhoeffer se opôs na Alemanha hitleriana, à notória corrente de nacionalismo cristão americano que tem servido de suporte à presidência de Trump.

De facto, a igreja dominante na Alemanha, lutando pela auto-preservação, perseguiu o objectivo de alcançar e reforçar o seu poder. Para isso tolerou e apoiou lideranças autoritárias. Escreveu então Bonhoeffer que, dada essa realidade preocupante, os cristãos perderam a capacidade de proclamar uma palavra que dá vida ao mundo: “Podemos ser cristãos hoje de apenas duas maneiras, por meio da oração e fazendo justiça entre os seres humanos.” Como se sabe, o teólogo fez questão de abandonar a vida segura que tinha nos Estados Unidos e regressar à sua terra, vindo a ser enforcado pelos nazis nas vésperas da queda do regime.

Tal como Hitler condicionou os líderes religiosos da igreja dominante levando-os a proclamar que o nacional-socialismo seria não apenas a via de salvação do país como um farol para o mundo e que a bênção divina estaria a pairar sobre a Alemanha, também boa parte da igreja cristã americana nas suas diversas confissões se entregou a idêntica afirmação. Assim como os nazis alemães se consideravam a chave para o resgate do país e da humanidade, das garras de judeus e comunistas, também as lideranças cristãs afirmam por palavras e actos que a América é uma espécie de agente divino no mundo, uma presunção que tem justificado inúmeros atropelos ao direito internacional. Neste caso apenas substituíram os judeus pelos muçulmanos e os comunistas por todos os posicionamentos políticos que não sejam os da direita dura.

Mas o nacionalismo cristão é uma fraude à fé visto que toda a mensagem do evangelho é de carácter universalista: “(…) ide, fazei discípulos de todas as nações (…)” (Mateus 28:19), e não nacionalista e ainda menos tribalista. Mas o tribalismo religioso tomou conta dos Estados Unidos, a ponto de uma mulher ter afirmado em público que, caso o governador do seu estado a impeça de “pregar o evangelho”, ela usaria armas de fogo, querendo assim justificar o injustificável. Tenho curiosidade em saber em que parte do Novo Testamento Jesus ou os apóstolos ordenam que se espalhe a fé pela força das armas… Será que voltámos ao tempo das cruzadas e da “cruz e espada”?

A paz do cristão não se baseia nas circunstâncias do momento. Como disse Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). S. Paulo dizia que “andamos por fé e não por vista”, ou seja, pelo que cremos e não pelo que vemos. Por isso é bom ler no sítio Christians Against Trumpism & Political Extremism, um grupo informal de líderes cristãos, pensadores e influenciadores que se posicionam publicamente contra o comportamento pessoal, as propostas políticas degradantes e a retórica venenosa modelada pelo Presidente Trump e grupos extremistas de extrema-esquerda e extrema-direita: “Milhares de líderes e instituições cristãs têm-se mantido firmes nas verdades fundamentais da nossa fé, contra o abraço desanimador do trumpismo. Quando os livros de história forem escritos sobre esta era, os líderes de princípios, comprometidos e corajosos que se recusaram a fazer concessões serão lembrados, e estamos profundamente gratos pela sua posição.”

Também navegámos nas mesmas águas em Portugal, no tempo da ditadura salazarista, quando ser bom português era ser católico. Mas em democracia este tipo de mentalidade é simplesmente absurdo, em qualquer parte do mundo, pelo que o “nacionalismo cristão” não passa de uma fraude.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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