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freira, Birmânia, Myanmar, militares, religiosa

Myanmar (antiga Birmânia)

A freira que enfrentou militares ajoelhada agora combate a pandemia

| 15/08/2021

freira, Birmânia, Myanmar, militares, religiosa

A irmã Ann Rose Nu Tawng ajoelhada perante polícias e militares do regime, em março. Foto: Direitos reservados.

 

Em março passado, a imagem correu mundo: uma mulher de hábito escuro, franzina, de joelhos, a enfrentar homens das Forças Armadas birmanesas, com armas, bastões e escudos. A freira da Congregação das Irmãs de São Francisco Xavier clamava aos soldados para não prender jovens e outros que contestavam o assalto ao poder da Junta Militar, que regressou ao governo depois de anos a controlar de fora uma frágil democracia no território de Myanmar (a antiga Birmânia).

Agora, a frente de batalha da irmã Ann Rose Nu Tawng é outra: num centro de saúde, a auxiliar doentes com covid-19. Como descreve a agência católica asiática de notícias, UCA News, “não é incomum” ver esta freira a arriscar a sua vida. “Não tenho medo de morrer, mesmo que possa ser infetada com o vírus covid-19”, disse a freira católica à UCA News enquanto cuidava de pacientes com coronavírus num centro de saúde administrado por uma igreja no remoto estado de Kachin, em Myanmar. E este papel não é muito diferente das vezes que defrontou os soldados.

Depois de se ter ajoelhado em Myitkyina, a capital do estado de Kachin, a tentar proteger jovens manifestantes que procuravam refúgio na clínica em que ela trabalha, durante os protestos contra o golpe militar. Nu Tawng repetiu este ato de coragem em março.

Desde então, descreve a reportagem da UCA News, a religiosa focou-se no auxílio a doentes de vilas atingidas por uma pandemia a que os profissionais de saúde não conseguem chegar. Com equipamento de proteção individual (EPI), a freira está decidida a dar apoio moral e médico às vítimas.

Do início da manhã até tarde da noite, a irmã Nu Tawng preocupa-se com as pessoas com sintomas de Covid-19 que acorrem das aldeias em volta para fazer o teste e procurarem tratamento na clínica onde trabalha.

Muitas pessoas da zona rural que contraíram o vírus não têm outra opção, pois os hospitais públicos estão a recusá-las por falta de profissionais de saúde e de camas disponíveis. “Não me sinto cansada, apesar de estar preocupada com as tarefas diárias. Eu sinto que este é o meu dever. Eu não posso ficar parada. Tenho visto as dificuldades que as pessoas enfrentam no terreno”, replica a freira.

Desde junho que Nu Tawng tem procurado regularmente casas budistas e cristãs em aldeias vizinhas, e também campos de saúde nos arredores de Myitkyina, para ajudar as pessoas com testes de covid-19, suporte de oxigénio e medição da pressão arterial, além de conselhos. Um sem fim de coisas. O telemóvel não para de tocar durante o dia, enquanto as pessoas pedem ajuda.

A única dificuldade que a freira de 45 anos enfrenta é respirar livremente, para além do pesado suor causado pelo fato de proteção individual que ela usa durante muitas horas. A religiosa prefere dormir na clínica com os outros profissionais de saúde, em vez de regressar para a casa da comunidade, para a segurança dos outros, especialmente das freiras idosas que vivem lá.

A freira birmanesa com o equipamento de proteção individual da covid-19. Foto: Direitos reservados.

 

Com os seus fundos limitados, os centros administrados pela igreja fornecem assistência médica gratuita a todos os necessitados. “Não cobramos nenhuma taxa a quem não pode pagar”, disse a irmã Nu Tawng. A freira afirmou que o esforço era apenas um pequeno ato de caridade e havia muitas pessoas na linha de frente na batalha contra a crise da covid-19 no país. Este, argumenta, “é apenas um pequeno ato de mostrar amor e carinho. Acredito que precisamos fazer algo pelas pessoas enquanto vivemos”, disse.

Este gesto de solidariedade da freira de Kachin ocorre no momento em que o país do sudeste asiático enfrenta o agravamento da pandemia, com Myanmar mergulhada numa crise política e económica provocada pelo golpe militar de 1 de fevereiro.

O sistema de saúde birmanês praticamente entrou em colapso e os hospitais mal funcionam, já que muitos médicos e enfermeiras aderiram a um movimento de desobediência civil em massa.

A irmã Nu Tawng inspirou pessoas em todo o mundo com seus atos destemidos ao colocar-se entre as forças de segurança e jovens manifestantes desarmados durante as repressões de fevereiro e março.

Os seus atos corajosos também chamaram a atenção do Papa Francisco, que orou em março dizendo: “Eu também me ajoelho nas ruas de Myanmar e digo: ‘Que acabe a violência’. Eu também abro os braços e digo: ‘Abram caminho para o diálogo’.”

Para a freira católica, que serve na diocese de Myitkyina desde 2010, o seu papel durante a crise pandémica não é muito diferente do seu papel anterior durante os distúrbios políticos.  “Eu poderia ter morrido quando enfrentei as forças de segurança e também poderia morrer agora ao contrair o vírus mortal”, disse ela.

Mas a sua mensagem para o mundo exterior é outra – e tão simples: “Por favor, ore pelo meu trabalho, pelas pessoas, e continue as suas orações mesmo se eu morrer.”

 

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