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Irmã Seli Thomas. Foto SATA

Irmã Seli Thomas

A freira que quer mobilizar 100 mil religiosas na luta contra o tráfico humano

| 29/11/2023

Irmã Seli Thomas. Foto SATA

Como é formada em Direito, a irmã Seli presta assistência jurídica gratuita e dinamiza seminários e oficinas sobre a migração segura e o tráfico de seres humanos nas aldeias. Foto © SATA

 

“Mais de 100 mil religiosas estão na Índia. (…) Se todas trabalhássemos juntas no combate ao tráfico através do nosso próprio ministério, poderíamos salvar muitas vidas”. O apelo foi lançado pela irmã Seli Thomas (religiosa indiana das Irmãs Catequistas de Maria Imaculada Auxiliadora), durante o encontro da AMRAT – Talitha Kum, aliança internacional de religiosas contra o tráfico, que decorreu no passado fim de semana na Índia.

O Índice Global de Escravatura estima que, só naquele país, haja onze milhões de pessoas, incluindo crianças e adolescentes, sujeitas a formas de escravatura moderna. Ao mesmo tempo, é neste país que existe o maior número de freiras do mundo, tendo estado presentes no encontro 170 religiosas, representando 80 congregações diferentes.

A irmã Seli quis, assim, motivar mais religiosas a abraçar o desafiante ministério da luta contra a exploração de pessoas, dando a conhecer o projeto que implementou em Krishnagar, Bengala Ocidental, e que visa resolver as principais causas da exploração: a pobreza e o desemprego.

A religiosa partilhou o modo como ela e as restantes irmãs da comunidade começam por entrar nos bairros de prostituição, onde aconselham e ajudam as mulheres que ali são exploradas a enviar os seus filhos para a escola. Depois, nas escolas, a congregação – que pertence à família Salesiana – tem um programa de capacitação e também um espaço onde as crianças podem conversar com as irmãs, “porque muitas vezes as crianças não estão seguras nem em casa”, alertou. Além disso, como é formada em Direito, a irmã Seli presta assistência jurídica gratuita e dinamiza seminários e oficinas sobre a migração segura e o tráfico de seres humanos nas aldeias, para os professores e estudantes.

Vencedora do galardão “Bem Comum” na primeira edição dos SATA – prémios Anti-Tráfico às Irmãs, há pouco mais de um mês, Seli Thomas viu ser reconhecida a sua “coragem e criatividade” no combate à exploração de pessoas. Só através do programa que implementou em Krishnagar, já terá “salvo a vida” a pelo menos 500 mulheres, indica a organização dos prémios.

Irmã Seli Thomas na atribuição dos SATA – Prémios Anti-Tráfico às Irmãs, 31 out 2023. Foto SATA

Irmã Seli Thomas na atribuição dos SATA – Prémios Anti-Tráfico às Irmãs, no passado dia 31 de outubro. Foto ©  SATA

 

Questionada sobre a razão de ter abraçado esta missão, aquando da atribuição do prémio, a irmã Seli respondeu com outra pergunta: “Quando vejo sofrimento à minha volta… como posso permanecer numa zona de conforto?” E partilhou a história de uma das vítimas que conseguiu salvar: uma mulher de cerca de trinta anos que veio vê-la em lágrimas. “Irmã, onde é que esteve todos estes anos?”, perguntou-lhe. “Se eu a tivesse conhecido antes, nunca me teria tornado uma profissional do sexo, não teria sido vítima de traficantes, vendida e revendida por homens repetidamente desde os 12 anos de idade”. Para a irmã Seli, este foi um testemunho “destruidor e doloroso” de ouvir. “Tudo o que pude fazer foi confortá-la, mas a dor dela levou-me a continuar”, afirmou.

Agora, assegura, é isto que quer fazer “pelo resto da vida”. “Eu sei que não posso mudar o mundo inteiro. O que posso fazer é provocar alguma mudança e dar esperança àqueles que se desesperam, e salvar algumas vidas do tráfico, uma pessoa de cada vez”. Foi por isso que deixou o apelo às restantes religiosas do país: para que, juntas, possam salvar muitas mais.

 

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