
“Observando a realidade não desprezou a brecha; e Virgílio Gaivota levantou voo.” Foto © 7Margens
A vantagem das fatalidades para a nossa consciência é o facto de nos desresponsabilizarem. A fatalidade verificar-se-á, queiramos ou não, e não há nada que possamos fazer. Diante disso, assumir a atitude de resignação e ficar, impávido e sereno, a observar pode até ser visto como uma atitude de sabedoria e maturidade. Para que haveremos de lutar contra moinhos de vento?
Muitas vezes são invejadas as pessoas que abraçam a vida com uma atitude de esperança. Como se esta fosse um dom inato que permitisse viver com maior ligeireza. Contrariamente ao que se possa pensar, a esperança é um ato de resistência, um combate interior e, por vezes, exterior. Exige muitíssimo mais olhar o mundo com um olhar de esperança e de braços erguidos quando tudo parece perdido do que, pura e simplesmente, aceitar a dureza da realidade que não nos satisfaz.
A esperança não é viver numa dimensão diferente da real que seja mais bela ou colorida; é, pelo contrário, com a consciência profunda da realidade, assumir o firme compromisso de não baixar braços nem desistir de construir algo maior. Ter esperança não é aguardar que a vida nos seja favorável num futuro mais ou menos longínquo. Ter esperança é viver com a consciência de que é possível melhorar o curso dos dias e, em cada dia, empenhar esforços nesse sentido.
A racionalidade e objetividade, tão apregoadas nos dias de hoje, impõem uma visão cristalizada do mundo: observar, analisar e compreender sem atender ao passado nem se projetar no futuro. Com rigor e frieza. Procurar pensar o que pode ser construído é algo que pode ficar no plano das ideias e das utopias, mas não ocupar a mente de pessoas sérias. O sonho é próprio de crianças e de néscios. Não se admira um sonhador. O termo goza até de uma conotação depreciativa.
Por outro lado, e por mais paradoxal que pareça, elogiamos e dizemos admirar pessoas que, com esperança, conseguiram mudar o mundo numa determinada escala. De cientistas, a políticos, médicos ou artistas. Mas ter o sentido de responsabilidade que advém da esperança e procurar construir algo melhor, isso, longe de nós. Admiramos os dinâmicos, choramos sobre a tristeza do mundo, louvamos o rigor e objetividade de análises cristalizadas mas somos incapazes de levar a sério uma pessoa que vive como se tivesse a possibilidade de mudar o mundo.
É uma zona cinzenta. Não nos compromete. Traz um enorme conforto.
A esperança é um verbo de ação, um combate interior, não é um dom inato. O sonho é inato, ultrapassa a nossa consciência e anestesia-a. Não deixa de ser curiosa essa capacidade que o ser humano tem. Enquanto dorme, tem um catalisador de emoções que são os sonhos. Nesse imaginário que a nossa vigilante consciência trava, há uma ferramenta que poderíamos aproveitar quando estamos conscientes: a capacidade de desconstruir a realidade. Como seria a vida se fôssemos capazes de desconstruir a realidade e repensá-la?
Há uma grande comodidade na resignação face à vida tal como ela está, numa perspetiva cristalizada sem projeção. Levado apenas como um processo imaginário, o sonho de nada nos serve; o único sonho verdadeiramente transformador é o que se vai ancorar na esperança e num compromisso de mudança. Não se trata de negar a realidade e fantasiar como tudo poderia ser se fosse diferente e afogar-se num corrupio de emoções; trata-se de dialogar com a vida e auscultar o sonho para ver como havemos de os conjugar. A esperança é a atitude de quem observa atentamente a vida sem desprezar as brechas de onde surgem raios de luz.
Deveríamos examinar a nossa consciência com esta pergunta: tenho estado atento aos raios de luz que se manifestam na minha vida? Ou, pelo contrário, vivo em apatia, resignado com uma existência estática ao sabor daquilo que me é dado sem ousar ir além disso?
A atenção às brechas é fulcral porque são elas o sinal que nos indica novas possibilidades de caminho. As fissuras deixam escapar aquilo que está contido e que, porventura, poderia servir-nos se escapasse. As brechas de onde emergem raios de luz podem ser histórias de vida que nos parecem quase mitológicas. Pode ser a beleza de um poema, um acontecimento invulgar que foge aos padrões, um gesto de consolo quando ele nos era necessário.
A esperança é tomar a firme resolução de agir em coerência, não com o que somos, mas com o que queremos ser. Foi de uma forma desconcertante que Fernão Capelo Gaivota – personagem cujo nome é o título deste romance de Richard Bach – fez com que uma outra gaivota começasse a voar. Virgílio Gaivota disse a Fernão que queria voar, mas tinha a asa partida. Sem pestanejar, Fernão responde-lhe que tem a liberdade de escolher aquilo que quer. É desconcertante. Como pedir a uma gaivota de asa partida que voe? Simplesmente, porque Fernão Capelo Gaivota viu para além da realidade gritante: o sonho de Virgílio gaivota de voar. E, colocando-o entre a espada e a parede, disse-lhe que a escolha era dele. Podia voar ou não. Observando a realidade não desprezou a brecha; e Virgílio Gaivota levantou voo.
Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.










