Acordo e é meio-dia. Simplesmente não me lembro de ter desligado o despertador às nove da manhã. Vou para a cama mais cedo do que a maioria das pessoas e saio dela mais tarde, mas, apesar disso, durmo muito menos do que quem passa menos horas deitado. Acordo com o corpo dolorido e insuportavelmente pesado, mas esse é um sintoma sem causa, um sintoma fantasma que a ciência explica através de ondas cerebrais e ciclos REM e não-REM. Praticar sonhos lúcidos durante tantos anos talvez não seja saudável, mas viver sem essa prática é cortar as possibilidades ao meio – que escolha fazer, então?
A mulher à minha frente na sala de espera mira-me com olhos de espanto – talvez fosse desprezo ou escárnio, para ser sincera -, depois o marido dela e a senhora que está nas cadeiras do lado oposto também. Por isso, guardo na mala o cubo mágico.
A gente passa a vida com vergonha da gente.
O cubo mágico que guardei na mala teletransporta-se para dentro da minha cabeça e eu começo a resolvê-lo mentalmente. As mãos, para resistirem ao gesto que me poria de novo no centro das atenções (é estranho, e motivo de olhares indignados, uma quarentona ordenar cubos mágicos em público), procuram no braço oposto uma ferida para se entreterem, sabem de cor onde encontrá-las. Depois é só deixar as unhas levantarem a crosta e rasgarem a pele até sentirem o dito pedaço de membro em estado líquido.
Então, o prazer do impulso segue-se de outra vergonha porque um fio de sangue se expõe gritante nos contornos do cotovelo, bem para lá do que a manga da camisola consegue esconder. O lenço de papel, manchado a vermelho, não encontra sequer dignidade para cair no fundo de um balde de lixo, e termina humilhado no bolso opaco das calças.
A gente passa a vida com vergonha da gente.
Eu quero pegar no livro – aquele que trago na mala onde escondi o cubo mágico – para ler, mas a sala de espera tem ecrãs que estridulam a cada chamada de número de senha. O meu avô sabia fechar os sentidos quando lia, eu nunca aprendi. O casal conversa sobre coisas banais, num tom de voz ainda mais perturbador do que o barulho vindo dos vídeos que a mulher do lado oposto vê no telemóvel.
Na mala, onde escondi o cubo mágico e trago o livro para ler, estão também os abafadores de som para usar em ocasiões como esta, imitam uns auscultadores de música e disfarçam bem a sua missão, devia ter-me lembrado disso mais cedo.
Com os fones postos, a sala de espera deixa de existir e eu sepulto-me – solitária e indiferente – nas páginas da narrativa. O tempo é coisa que já desisti de entender, é um fenómeno incoerente que molda a duração de si próprio consoante os seus interesses, sempre ao contrário dos meus – as horas de prazer sempre tão velozes, enquanto as de tortura lerdeiam.
A assistente do consultório toca-me no ombro, levanto a cabeça – já não vejo o casal, nem a mulher sentada do lado oposto – e arredo da orelha um lado dos fones. Qual é a sua senha, pergunta. 23 B. Já chamámos. Desculpe, não ouvi, estava distraída. Pode entrar, a doutora está à sua espera.
A gente passa a vida com vergonha da gente.
A minha mãe liga-me quando eu já estou a sair da clínica. Passa aqui antes de ires para casa, vem almoçar, fiz fígado com puré. Eu nunca consegui alcançar a grandiosidade de uma mãe que sabe cozinhar a comida favorita de um filho – se eu pudesse trocar de mim, pediria esse desejo.
Não, mãe, não vou passar aí, não me apetece entrar em Albufeira agora nesta confusão de agosto, com este calor, ah, mãe, não, guarda, amanhã passo aí mais à noite, está bem, agora vou para casa, tenho coisas para fazer.
A gente passa a vida com vergonha da gente.

“O cubo voa contra a parede na sequência de outro impulso tomado pela raiva, as peças giram pelo ar sob apneia suspensa pelos limites do desgaste.” Imagem: cubo mágico, gerada pelo chat gpt
Chego a casa, lavo as mãos, resgato o cubo mágico de dentro da mala, estendo-me no sofá e, enquanto giro o mosaico de forma a agrupar todas as facetas da mesma cor de um só lado, a culpa vem de manso escancarar a inaptidão e espicaçar o conflito.
Por que é que, por dentro, somos paralelos em vez de unificados se a cabeça é uma só? Que jogo é este de toca e foge entre as ideias do pensamento? Pensar e sentir serão a mesma coisa? Sentimos porque pensamos ou vice-versa?
Bem que podia ter passado para almoçar com os cotas.
F R U R’ U’ F’
Vai desinfetar essas feridas, onde andas sempre com as unhas metidas, que até mete nojo.
R U R’ U R U2 R’
Larga a merda do cubo, cresce, sai do sofá, faz qualquer coisa de útil. Vai, pelo menos, escrever a crónica que te comprometeste a entregar.
U R U’ L’ U R’ U’ L
O que será que o casal, a mulher sentada do lado oposto e a assistente devem ter pensado da minha figura.
(R’ D’ R D) x4
Feito! Três minutos e tal. Podia ser melhor. Baralha isso, faz de novo. Não, vá já chega. Ah, bom, qual é o mal, só mais uma vez, vá, qual é o mal. Depois levantas-te e vais aos compromissos. Não, já chega, já disse, quem manda sou eu. Tu mandas, deixa-me rir. Olha para o teu dia. Diz lá, qual das ações que praticaste foi escolhida por ti, diz lá.
O cubo voa contra a parede na sequência de outro impulso tomado pela raiva, as peças giram no ar sob apneia suspensa pelos limites do desgaste.
Calma, está tudo bem, há coisas tão piores, problemas tão maiores.
As lágrimas autorizadas a chorar já não se inibem de escorrer – estar sozinha e fechada em casa só traz vantagens.
A gente passa a vida com vergonha da gente.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
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