Pomar é um livro que recolhe histórias de pessoas sem-abrigo, apoiadas pela Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa (AANL). Depois de uma primeira edição, em 2016, o seu autor, Rodrigo Barros, reuniu mais algumas histórias de vida e edita agora uma nova edição, que ficará à venda em várias livrarias: na Snob (Travessa de Santa Quitéria e R. de São Pedro de Alcântara), em Lisboa; na Espaço, em Algés (Oeiras); e na Escriba, em Almada. Quem precisar de mais informações pode também contactar Lina Pinguinhas, da AANL, através do endereço lina_aanl@sapo.pt.
O 7MARGENS reproduz a seguir o texto de apresentação desta nova edição e uma das histórias inéditas. Os títulos são da nossa responsabilidade.
Um regresso ao Pomar
Regresso ao Pomar. Nove anos depois da edição de 2016. Um regresso inesperado, mas desejado.
Este Pomar, sendo na substância o mesmo, inclui agora novos testemunhos colhidos entre 2024 e 2025. Nas páginas finais, três artigos sobre a primeira edição e a introdução de um livro ainda em pensamento, D’est’arte de Abrigo, sobre história das origens do albergue fundado em 1881.
No meio do caminho não tinha uma pedra, mas um espaço que precisa de ser estimado. Esta estima, pensava – e ainda penso –, pode vir a ter belas e melhores consequências nas vidas das pessoas a quem a casa dá guarida.
O mundo está confuso, muito confuso. O número de pessoas em situação de sem-abrigo tem aumentado. Há 18 anos, em 2007, mergulhei neste universo que desconhecia. E não foi um mergulho fácil. Há muitas ideias feitas. Ideias perfeitas demais que nos iludem sobre o perfil de quem de um momento para o outro se encontra nesta situação.
Um mundo de vidas e rostos, todos diferentes uns dos outros. Entre nós e as palavras, a possibilidade e a impossibilidade. Neste estar, nesta inquietação, neste tudo que não sei dizer, vêm-me à memória os seguintes versos de Eugénio de Andrade, no seu As Mãos e os Frutos:
Em cada fruto a morte amadurece
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.
Redivivo.

Capa do livro Pomar, de Rodrigo Barros.
Aquilo parecia um filme maluco
-Tem de ser – disse, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça para si.
– Ora vá! Então!
Apoiou-lhe a cabeça com a mão, e os seus dedos afagaram-lhe suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e deixou-os errar pelo barracão, enquanto os lábios se lhe arqueavam num misterioso sorriso.
John Steinbeck, As Vinhas da Ira
Em casa. Foi aí que nasci. Na Avenida de Ceuta, em Lisboa. Aos quatro anos, eu, e quase todo o pessoal que ali vivia, tivemos que sair. Começavam os trabalhos de alargamento das vias de acesso à ponte 25 de Abril. Eu mais a minha família fomos morar para a Travessa do Pardal, na Ajuda [Lisboa]. Erámos sete irmãos. Quatro rapazes e três raparigas. Eu sou o terceiro mais velho. E ali estivemos até aos meus doze anos. Foi um fenómeno nacional que se deu com o fim da ditadura. O povo saía à rua em busca de casas melhores. Nós, e muitas mais famílias, ocupámos as casas do Bairro do Alto da Ajuda, no dia 2 de Maio de 1974. Em homenagem à data, o bairro passou-se a chamar 2 de Maio. Ninguém foi expulso depois.
A casa tinha três quartos. Os meus irmãos e eu dormíamos em beliches. Era muita gente. Acho que foi por isto que ganhei o hábito de ser arrumado. Grande dia, grande ano, o 25 de Abril de 1974. Nesse dia, estava a caminho da escola Francisco Arruda. À porta, um tanque e vários soldados. Espigadote, perguntei a um dos soldados porque é que não havia escola. Respondeu-me: Hoje a escola está fechada. Não há escola para ninguém. Podem ir todos para casa… Soube depois que nesse dia, o director se suicidou com um tiro na cabeça. Na escola. À distância, julgo que era um fascista, ou da pide, ou algo assim. Não sei. Sei que não era normal os soldados irem às escolas.
Desses tempos, o que mais me recordo são as multidões e os cartazes. Cartazes para aqui, cartazes para ali. Um deles dizia: Casas sim barracas não. Não voltei à escola e os meus pais não insistiram. O meu pai dizia que bastava fazer a quarta classe. Naquela época, era bastante normal pensar-se assim. Quer dizer, nas famílias onde não havia dinheiro é que isto era prática corrente. Que era quase toda a gente em Portugal. Só os pais e os filhos dos ricos é que se podiam dar ao luxo, chamemos-lhe assim, de dar importância aos estudos. Nem estou a falar do mundo rural desse tempo. Quase ninguém sabia ler e escrever. A revolução pôs Portugal nas bocas e nos jornais do mundo. Li algures que a Europa ficou chocada com a taxa de analfabetismo desse país que então começava a ser livre, a viver em democracia.
Esta tatuagem no braço foi um amigo meu que ma fez quando tinha 12 anos. Uma palmeira e um pôr-do-sol. Nessa altura não havia as lojas de tatuagens que há agora. Preparava-me para o pico… Dois anos de sabática depois, estou a brincar, fui trabalhar para uma oficina de metais. Em Lisboa. Na área da embalagem dos espelhos das tomadas e dos interruptores. Os espelhos são, ou eram, pequenas molduras de latão que se instalavam à volta destas peças. Vivíamos em Lisboa, mas íamos à praia da Trafaria três ou quatro vezes por ano. No Verão, claro. O meu pai, não sei porquê, não gostava das praias da linha de Cascais. A minha mãe levava um tacho com comida e ia com o meu pai ao mercado da Trafaria comprar cebola, tomate e alface. Para a salada. Nós, os mais novos, ficávamos com as minhas irmãs no areal. Tanta trouxa que nós levávamos nessas idas à praia! Nós e muito mais gente! Ou quase toda a gente. Já eu ia muitas vezes às piscinas dos Olivais.

Uma das pessoas sem-abrigo à porta do Albergue. Foto © Vítor Cid.
Dos 16 aos 17 anos comecei a trabalhar na construção civil. O que ganhava, três contos e duzentos [cerca de 16 euros, na moeda actual], dava tudo à minha mãe. Foi neste período que me apareceu o chamon. As coisas começam sempre assim. O grupo. Apesar de já trabalhar, eu era um puto. Não tinha capacidade de avaliar. Aos 18, 19 anos quis experimentar heroína. A primeira vez foi logo no pico, na veia. Nunca tive medo de agulhas. Vomitei-me todo. Senti-me muito mal, mas depois disto passar, foi muito bom. Aquela leveza e paz de espírito. E o gozo do ritual da preparação. O limão, a colher, a água, o fogo e o algodão antes do pico.
Um ano ou dois depois, o dinheiro começava a ser pouco e tornava-se difícil manter o trabalho em ressaca. Perdes toda a energia, tens espasmos nas pernas e dores nas costas. Não consegues dormir. Consumi muito no Casal Ventoso. Havia ali gente que parecia zombie. Aquela zona agora já não é assim. Seguiram-se doze anos de consumo intenso até aos trinta. Período de muitos biscates. Saltava de trabalho em trabalho sem fazer descontos até que em 1992 fui preso por causa de um roubo. Aquele tempo na prisão foi uma desintoxicação forçada. Foi aqui que descobri que era seropositivo. Nuns exames que me fizeram. Cumpri aí três anos e meio de pena.
Saí e voltei a cair no vício. Outra vez! Em 1997, resolvi entrar para a Remar. A Remar é uma associação de apoio à toxicodependência. A gestão é religiosa e creio que existe em mais de sessenta países. O seu património é gigante. Entre quintas e casas. Enviaram-me para a Remar do Porto. É prática comum da associação afastar os consumidores dos seus ambientes anteriores. Para não haver confusões. Acho que fazem bem. Já limpo, meteram-me a trabalhar numa das suas lojas de revenda de bens doados. Apareceu aí, como cliente, aquela que viria a ser a minha mulher. Procurava uma televisão. Não tínhamos. Fiquei com o seu número prometendo-lhe que mal aparecesse uma lhe ligava. A televisão não apareceu. Apareceu ela, apareci eu. Casámos quatro meses depois. Ela já tinha uma filha pequena.
Fiquei-me pelo Porto, onde acabei por viver 19 ou 20 anos. Separámo-nos 17 anos depois. Em 2014. Sim, por causa dela, da heroína. Desta vez já sem pico. Agora fumada. Nunca mais injectei. Na altura trabalhava para a junta de freguesia do Bonfim. Mas não deu. Não conseguia. Voltei a Lisboa, em 2016. Já não tinha casa onde voltar. Aquela do bairro 2 de Maio. Anos antes um dos meus irmãos, o único que era solteiro, pediu-me a mim e aos restantes irmãos que assinássemos um papel onde prescindíamos da casa. Mas morreu logo a seguir com uma cirrose. E ficámos sem a casa.
Procurando ajuda, dirigi-me à Santa Casa de Lisboa. Disseram-me que não me podiam ajudar, que eu era do Porto, que vivi aí 20 anos. Que me pagavam o bilhete de volta. Aquilo parecia um filme maluco. Recusei. Para ser sem-abrigo preferia sê-lo na minha cidade. Lisboa. Fui para uma quinta da Remar em Santarém. Ao fim de um ano e meio voltei a bater à porta da Santa Casa de Lisboa e aí já me deram resposta. Encaminharam-me aqui para o albergue.
O mundo está muito confuso. Mesmo muito confuso e agressivo. O exercício da gentileza é moeda rara nos tempos que correm. Escasseia. Um dos livros da minha vida é As Vinhas da Ira, do John Steinbeck. Li-o há já quase 20 anos, mas não me esqueço. É de uma generosidade tremenda. Aí uma mãe perde um filho acabado de nascer. Um homem ao seu lado morria de fome. Ela, num gesto talvez tresloucado ou corajoso, nem sei dizer, dá-lhe a beber os peitos carregados de leite salvando-lhe a vida. A humanidade é isto. Ou também é isto.

Apresentação da nova edição do livro, no sábado, dia 6, em Lisboa, com o autor à esquerda, e uma das apresentadoras, Rosa Maria Perez, à direita. Foto: Direitos reservados.










