Éramos arrogantes o suficiente para tirarmos, à partida, a ilação de que a viagem de finalistas no meio dos outros putos ia ser uma seca insuportável. Se a nossa paciência já era pouca para os aturar na escola, imagine-se naquelas condições. Era o que faltava.
Por isso, em nome da imagem de rebeldes vanguardistas que tínhamos a defender, convencemos os nossos pais a deixarem-nos fazer um interrail sob a alçada do seu patrocínio. Os putos que fossem para Lloret del Mar, vigiados pelos profs, apanhar a primeira bebedeira das suas vidas e vomitarem-se todos uns por cima dos outros.
Nós dispensámos essa infantilização, a vibe era outra, íamos cruzar as capitais, desbravar os subsolos do cosmopolitismo, fazer novas amizades com punks, dormir em comboios noturnos e quem sabe apanhar uma manif das bravas à porta de um parlamento qualquer.
Não foi difícil convencer os meus pais (e acho que o resto do grupo também não teve dificuldade em convencer os respectivos), já que a moeda de troca era passar de ano e isso estava no papo – não era boa aluna, claro que não, não me lembro de ter estudado uma única vez durante toda a escola, mas para quem coloca a meta no dez estudar torna-se desnecessário.

“Jogava a nosso favor o facto de sermos um grupo grande, com vários rapazes mais velhos, com o pretexto de não largarmos a mão uns dos outros, a união faz a segurança”. Foto © DR
Jogava a nosso favor o facto de sermos um grupo grande, com vários rapazes mais velhos, com o pretexto de não largarmos a mão uns dos outros, a união faz a segurança. O truque dos meus pais para saberem sempre em que meios eu andava, era receber a canalha toda lá casa e enturmá-los como verdadeiros camaradas, cativá-los o mais que pudessem – um pai que conquiste os corações dos amigos do filho reduzirá para metade as dores de cabeça que o mesmo estiver destinado a causar-lhe, é a lei básica dos aliados. A frase que eu mais ouvi na vida foi Os teus cotas são bué da fixes. Para tudo na vida tem de haver estratégia.
Eu estava com dezassete e, por ser menor, precisei de uma autorização assinada por eles – o meu truque para ter sempre logrado da confiança dos meus pais, e consequente liberdade por eles concedida, foi nunca tê-los desiludido. Nunca me apanharam em estados impróprios, não que os não tivesse vivido, de zero a vinte, tenho zero de santidade, mas, modéstia à parte, sempre tive jinga suficiente para manter a postura.
Assumo – sem problemas de auto-estima – que, não fosse a incapacidade de magoar os cotas, ter-me-ia tornado delinquente com facilidade. Sempre romantizei as margens e invejei a bandidagem. Há qualquer coisa profundamente heroica no ato de resistir e transgredir, de questionar a pirâmide dos valores, a construção do sistema social e a intencionalidade da implementação das regras.
Os mendigos, os drogados e os bêbedos transportam forças que escapam à consciência dos normalizados; viram a vida do avesso, desmontam o puzzle para destruir certas peças e encaixar no lugar das mesmas os seus próprios conceitos. Há nisso uma coragem dos diabos. Sei de uns quantos que vivem nos antípodas do suposto há várias décadas e continuam hasteados nas convicções que os levaram até ali – a coerência diz muito sobre as pessoas. Ideários de aço, como as lendas, indestrutíveis – ainda que o resto do mundo os acuse em uníssono de heresia e argumente a errância como justificação da tortura.
Mas não era só dantes, já estou para lá de velha – até já sou avó – e continuo refém dessa ideia que me transporta para a suspeição da existência concreta de uma infinita beleza (real, e não estereotipada) nas periferias da sociedade. Há uma verdade qualquer que se mascara de mentira para nos repelir o acesso a ela mesma – desconfio que seja do campo da evolução espiritual e, por isso mesmo, inacessível ao entendimento da maioria.
Os marginais escondem segredos com origem na evolução da espécie – já repararam quão misteriosa e atópica é a resistência dos seus organismos?
Nem à revelia das avalanches se deixam abater. Qual de nós pode garantir o nível de lucidez embutido na loucura? E vice-versa?

“Na época desse interrail eu andava a ler Marx, Guevara, Cossery, London e uns quantos maltrapilhos da geração Beat.” Foto © DR
Na época desse interrail eu andava a ler Marx, Guevara, Cossery, London e uns quantos maltrapilhos da geração Beat. À custa dessas ideias sentia-me infinitamente inferior a quem padecia de fome e frio, a quem filosofava à boleia de uma pedrada, indiferente à inevitável ressaca na qual havia de se contorcer até priorizar o abandono do corpo. Desdenhava do privilégio que me calhara na rifa, responsabilizava-o pelo confinamento da minha existência numa frágil redoma de confortos, dentro da qual me era impossível expandir limites. Quem não expande, atrofia.
Vivia dividida entre arriscar a marginalidade e não fazer chorar os meus pais. A segunda hipótese levou a melhor – pelo menos por enquanto, o futuro nunca se sabe.
De cada vez que tentava implementar um plano para fugir de casa – ou cometer outro tipo de transgressões que não vale a pena nomear – era atraiçoada pela mente com bombardeamentos de imagens do sofrimento que essa dor lhes causaria. Mergulhava num loop taquipsiquico que me obrigava a desistir, então reprimia a curiosidade e resumia-me à insignificância dos conformados.
Bem, a intenção hoje era escrever sobre o meu primeiro interrail – no qual eu e mais oito amigos vivemos uma aventura infinitamente melhor do que se tivéssemos ido com os cromos das ciências e da informática para Lloret em viagem de finalistas – mas acabo de reparar que me entusiasmei a falar dos delinquentes e gastei os 4500 caracteres destinados ao texto, vai ter de ficar para a próxima semana. Até lá.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










