A gramática do Papa para o futuro do Iraque

| 8 Mar 2021

No último dia do seu programa da visita histórica ao Iraque, o Papa propôs uma gramática para o futuro: o verbo é reconstruir e o substantivo é perdão. Restaurar é preciso, disse Francisco. Desde logo os edifícios, mas sobretudo os laços que unem comunidades e famílias.

A multidão em festa na chegada do Papa Francisco ao estádio Franso Hariri em Erbil, no Iraque ©Foto Vatican Media

 

Este é o momento de “reconstruir e recomeçar”, disse o Papa Francisco neste domingo, 7 de Março, em Qaraqosh, a cidade do Iraque onde vive o maior número de cristãos, no último dia do programa da sua visita histórica ao Iraque – o regresso a Roma está previsto para a manhã de segunda-feira.

Depois de sexta-feira ter sido o dia dos encontros institucionais políticos e religiosos, em Bagdad, e de sábado ter sido dedicado à dimensão inter-religiosa, em Najaf e Ur (Sul), este último dia do programa foi dedicado, no Norte (Mossul, Qaraqosh e Erbil) às vítimas e à memória da guerra e do terrorismo.

“Olhamos ao nosso redor e vemos (…) os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. Quantas coisas foram destruídas! E quanto deve ser reconstruído! Este nosso encontro demonstra que o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra”, afirmou, na catedral da Imaculada Conceição.

Esta igreja foi um dos edifícios religiosos que foi arrasado pelo Daesh (e usado como campo de tiro) entre 2014 e 2017, durante a presença do grupo terrorista na região. Entretanto reconstruída, um dos símbolos do que se passou é uma imagem da Virgem Maria que, entretanto, foi objecto de restauro.

 

“Restaurar laços”

Papa Francisco lança pomba no final da Oração pelas vítimas da guerra que decorreu em Mossul ©Foto Vatican Media

 

A reconstrução de casas de famílias e de igrejas tem sido apoiada por instituições como a Ajuda à Igreja que Sofre, a Obra do Oriente e os Cavaleiros de Colombo, como recordou o patriarca Inácio Younan III, da Igreja siro-católica. Mas o Papa quer que a reconstrução vá mais longe: “Este é o momento de restaurar não só os edifícios, mas também, e em primeiro lugar, os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos.”

“Há momentos em que a fé pode vacilar, quando parece que Deus não vê nem intervém. Sentistes a verdade disto nos dias mais negros da guerra, e é verdade também nestes dias de crise sanitária mundial e de grande insegurança”, afirmou. “Mesmo no meio das devastações do terrorismo e da guerra podemos, com os olhos da fé, ver o triunfo da vida sobre a morte”, acrescentou, dizendo que é preciso “confiar em Deus, que nunca decepciona”.

Qaraqosh ao final da manhã (hora local, 8h30 em Lisboa) e, depois, a missa em Erbil à tarde, foram as duas celebrações com maior número de pessoas a participar nos actos do programa do Papa. E percebia-se que, apesar do cansaço visível durante a viagem (sete mil quilómetros em quatro dias), o próprio estava satisfeito por, após um ano de quarentenas e confinamentos, estar de novo em contacto com multidões: “Sinto-me agradecido ao Senhor pela oportunidade de vos encontrar esta manhã. Estava ansioso por este momento”, afirmou, logo no início da sua intervenção em Qaraqosh.

Para reconstruir, o Papa apontou um caminho: “O perdão é necessário por parte daqueles que sobreviveram aos ataques terroristas. Perdão: esta é uma palavra-chave”, afirmou. “O perdão é necessário para permanecer no amor, para se permanecer cristão. O caminho para uma cura plena poderia ainda ser longo, mas peço-vos, por favor, que não desanimeis. É preciso capacidade de perdoar e, ao mesmo tempo, coragem de lutar. Sei que isto é muito difícil. Mas acreditamos que Deus pode trazer a paz a esta terra”, disse, referindo-se ao testemunho de Doha Sabah Abdallah, uma mulher que viu o filho, um primo e uma vizinha morrerem na sequência de um ataque terrorista. “Perdoar ao agressor” e dizer “não ao terrorismo e à instrumentalização da religião” são as atitudes necessárias.

Na homilia da missa no estádio Franso Hariri, em Erbil, que seria, à tarde, o último acto público do Papa – e também o mais multitudinário e festivo –, Francisco insistiu na mesma ideia, dirigindo-se especificamente aos cristãos: é preciso resistir à “tentação da vingança”, que leva a uma “espiral de retaliações sem fim”. Antes, os cristãos devem “construir uma Igreja e uma sociedade abertas a todos”.

Ainda em Qaraqosh, o outro testemunho foi do vigário-geral da diocese de Mossul, padre Ammar Yako, que recordou, como resumiu Francisco, “os horrores do terrorismo e da guerra”. “A memória do passado molda o presente e faz-nos avançar para o futuro”, comentou o Papa.

A palavra final em Qaraqosh foi para as mulheres, na véspera do Dia Internacional que lhes é dedicado: “Gostaria de agradecer cordialmente a todas as mães e mulheres deste país, mulheres corajosas que continuam a dar vida não obstante os abusos e as feridas. Que as mulheres sejam respeitadas e protegidas! Que lhes sejam dadas atenção e oportunidades!”

 

“Um dano incalculável”

Uma igreja destruída do Iraque © ACN

 

Antes de Qaraqosh, o Papa tinha presidido em Mossul a uma oração pelas vítimas da guerra, outro momento emotivo e de carga fortemente simbólica. “Se Deus é o Deus da vida – e é-O –, não nos é lícito matar os irmãos em seu nome. Se Deus é o Deus da paz – e é-O –, não nos é lícito fazer a guerra em seu nome. Se Deus é o Deus do amor – e é-O –, não nos é lícito odiar os irmãos”, afirmou, nas palavras de introdução à oração.

Na oração que decorreu na Praça das Igrejas, nome que se refere aos quatro edifícios das igrejas Siro-católica, Arménio-ortodoxa, Siro-ortodoxa e Caldeia (católica) e que foram também destruídos pelo Daesh, o Papa reafirmou a sua convicção de que a “fraternidade é mais forte do que o fratricídio, que a esperança é mais forte do que a morte, que a paz é mais forte do que a guerra”. E essa convicção “fala com uma voz mais eloquente do que a do ódio e da violência e jamais poderá ser sufocada no sangue derramado por aqueles que pervertem o nome de Deus ao percorrer caminhos de destruição”.

Um desses elementos de destruição foi o verdadeiro êxodo de cristãos, que deixaram a região (e muitos, o país). Esse foi “um dano incalculável não só para as pessoas e comunidades envolvidas, mas também para a própria sociedade que eles deixaram para trás”, afirmou o Papa, para quem as deslocações forçadas de todas as pessoas e famílias atingidas teve como consequência uma “trágica diminuição” do número de cristãos iraquianos, tal como tem acontecido nas últimas décadas em todo o Médio Oriente.

O padre Raid Kallo, que fugiu de Mossul a 10 de Junho de 2014, recordou que tinha uma paróquia com 500 famílias cristãs e hoje “não são mais do que 70”.

Ao mesmo tempo, Gutayba Aagha, líder do Conselho Social e Cultural Independente das Famílias de Mossul, fez um convite especial: “Convido os nossos irmãos cristãos a regressarem a esta cidade que é deles, às suas propriedades, e a retomar os seus negócios.”

Sinais da destruição, eram as duas cruzes que estavam no palco da cerimónia, uma com madeira queimada de igrejas arrasadas e outra feita à mão, reproduzindo episódios da história de Mossul.

“Erguemos as nossas vozes em oração a Deus Todo-Poderoso por todas as vítimas da guerra e dos conflitos armados. Aqui em Mossul, saltam à vista as trágicas consequências da guerra e das hostilidades”, afirmou, recordando a “convivência harmoniosa entre pessoas de diferentes origens e culturas” que marcava a “verdadeira identidade” de Mossul, antes da guerra.

“Como é cruel que este país, berço de civilizações, tenha sido atingido por uma tempestade tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas, muçulmanas, cristãs, yazidis – cruelmente aniquiladas pelo terrorismo – e outras, deslocadas à força ou mortas!”, acrescentou ainda o Papa Francisco.

 

Um livro “refugiado”

O livro litúrgico que escapou ao Daesh e o Vaticano devolveu depois do restauro. © Foto Vatican Media

 

O programa do dia incluiria dois gestos simbolicamente importantes: em Erbil, onde celebrou a missa à tarde, o Papa encontrou-se com o pai de Alan Kurdi, o menino que morreu no Mediterrâneo em 2015 e cujo corpo foi encontrado numa praia da Turquia e se tornou uma imagem icónica da tragédia dos refugiados que procuram salvação fugindo para a Europa – e cuja mãe e irmão também morreram na travessia.

“O Papa conversou longamente com [Abdullah Kurdi] e, com a ajuda do intérprete, pôde escutar a dor do pai pela perda da sua família e expressar profunda participação no seu sofrimento”, indica o Vaticano, numa nota citada pela Ecclesia.

“O senhor Abdullah expressou a sua gratidão ao Papa pelas palavras de proximidade com a sua tragédia e com a de todos os migrantes que procuram compreensão, paz e segurança, deixando o seu país com risco de vida”.

Antes, em Qaraqosh, no encontro com a comunidade cristã, Francisco devolveu o Sidra, um livro histórico da comunidade local, que escapou à destruição do Daesh e foi restaurado em Roma.

Este livro litúrgico sagrado data dos séculos XIV-XV. Escrito em aramaico, contém orações litúrgicas recitadas entre a festa da Páscoa e a da Santa Cruz, na comunidade siro-cristã de Qaraqosh, refere a Ecclesia.

O manuscrito foi escondido na altura da ocupação da cidade pelo grupo terrorista e o Vaticano fala dele como um livro “refugiado”, à semelhança das milhares de pessoas que escaparam da guerra e do terror do “genocídio cultural”.

 

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